Boquinhas de chocalho

Cresci numa cidade em que o desporto “nacional” é a maledicência.
Aprendi desde muito pequena que “what goes around comes around“. Sempre que eu falava mal de alguém mais tarde tinha toda a gente voltada contra mim. E aprendi as consequências muito bem sempre que dava comigo em lágrimas por causa de males entendidos e coscuvilhice. A lição foi recebida muito cedo, e muito cedo aprendi a guardar segredos e acima de tudo que quando conhecemos alguém que fala mal de meio mundo é porque mais tarde ou mais cedo o vai fazer connosco também. E afasto-me sempre discretamente, mas afasto.
Não tenho uma amiga (das próximas e a valer) que seja coscuvilheira ou alcoviteira.
Também não tenho amigas com as quais só fale de roupa e penteados e maquilhagem.
Também não tenho amigas ou amigos de copos.
Por último também não fazem parte do meu leque as gajas mono-temáticas, aquelas que só falam de gajos e de namorados, que só querem saber se tenho, se tive ou se vou ter e que só falam comigo sobre amores e paixões. Abaixo o mono-tema!
Gosto de gente pragmática, prática, sincera, honesta, descomplicada e capaz de aguentar os níveis elevados da minha franqueza. Gosto de pessoas que sabem falar sobre tudo, que me ensinam grupos de música novos, que me falam sobre temas dos quais nunca ouvi falar, que me acrescentam como pessoa e me mostram que a disponibilidade pessoal não é unidireccional, mas bidireccional. Que gostem de cozinhar , que seja seguras de si, que gostem de comer, que gostem de viajar, que gostem de cães e que sejam sinceras e com egos controlados e pouco dadas ao escalonamento de merdas sem jeito nenhum ou a fazer filmes do nada.
Eu vivi numa casa com 63 mulheres durante 4 anos em Coimbra. Conheço a espécie “fêmea humana” à légua e detesto-a com todo o meu ser. Ainda me lembro das tricas e confusões do Lar onde vivi por causa de cenas como quem se sentava naquela mesa com aquele grupo, em que dia e como. Eram 10 mesas carregadas de almas que se ocupavam sobre se a fulaninha agora se sentava com a beltraninha e se ria muito ou pouco. Tudo pra controlar quem falava mal de quem. É fácil: falavam todas mal umas das outras. That simple! E hoje eram todas muito amigas e amanhã eram todas umas cabras pras outras porque se tinham pegado por causa dum olhar que o tipo tal em que a sicrana estava interessada tinha dado à beltraninha. Ou então porque a não sei das quantas tinha tomado conta do comando e visto futebol e não as tinha deixado ver a novela.
Meus amigos, arranjem o que fazer!!!! É tempo livre a mais e auto-estima a menos!

Não tenho cú de paciência pra estas cenas, foram muitos anos a aturá-las por obrigação. Tenho 35 anos, já não vivo num lar há 14 e há 14 que jurei que nunca mais me apanhavam no meio de tanta maldade e gajedo. Muita mulher junta dá sempre asneira da grossa, sempre. Principalmente comigo que não sou gaja de compadrios ou calhandrices.
Sou pouco gaja nestas coisas e é com muitíssimo gosto que assim sou.
Quem não gostar passar bem e passar bem longe se faz favor.

25 comments:

  1. Nem de propósito, ando para escrever há que tempos sobre pessoas que falam de mais sobre a vida de outras pessoas (mesmo que não seja propriamente falar mal, ou com má intenção), mas depois fico sempre com medo de que alguém se sinta atingido com o post e pensar que lhe é dedicado.
    Mesmo sem o intuito de falar mal, por vezes fico com a sensaçao de que muita gente não sabe filtrar o que conta sobre outras pessoas, especialmente coisas íntimas, e tal como tu imediatamente fico a pensar que farão o mesmo comigo.
    Eu não preciso de saber que aquela pessoa que vi uma vez teve um aborto espontaneo recentemente, que a vizinha que nunca vi foi largada pelo marido, que a prima que acabei de conhecer era espancada pelo namorado, etc. A verdade é que a vida íntima de pessoas que nao/mal conheço não me interessa, e eu nao devia vir a saber desses detalhes se não contados na primeira pessoa. Fico logo a achar que comigo será igual, e cada pessoa em comum que venha a conhecer terá uma biografia detalhada das desgraças pessoais que já me aconteceram. E a não ser que sejamos pessoas que gostem de se chorar em público, essa sensação de devassa do nosso íntimo é do pior que nos pode acontecer. E passo a ter muito cuidado com o que partilho, para não me arriscar a que toda a gente tenha acesso directo a coisas que se querem preservar íntimas e pessoais, e passe de pessoa a "coitadinha" aos olhos alheios.

  2. Ah carago, pah! Quando me perguntarem porque é que eu gosto tanto de ti, envio-lhes este post. (4 anos a viver com 63 mulheres? quando faleceres vais ter direito ao céu, que o inferno já experimentaste)

  3. E nós temos um blog onde expomos imensa coisa, mas não exponho aqui o caso de doença do fulaninho e do taliqualinho. Será que esta gente não entende que é um espelho?

  4. Sua excelência tb não é moça do futrico, por isso é que gosto de si! Aquilo não era o inferno, mas não estava mto longe, não. 63 gajas é mta gaja. Nunca mais! E sabes que era a maior das coscuvilheiras? Adivinha lá… Pois, a Madre Superiora. Que entretanto já morreu por isso é que aqui fica registado no blog pra posterioridade. E ela não podia comigo nem com molho de tomate pq eu nao lhe amparava o jogo.

  5. A Andorinha de Desnorteada é que não tem nada! É assim mesmo! Acho que se diz: "La vie à chacun" e mais não é preciso! E eu, vivendo na cidade, mas originária da província, sei bem o que isso é! Bravo Andorinha! AnaDD

  6. Acho um bocadinho forte a frase: "Conheço a espécie "fêmea humana" à légua e detesto-a com todo o meu ser"… Eu conheço muita gente, principalmente mulheres, que são da mesma opinião, que acham que as mulheres são umas maldosas para com as outras, mas eu sinceramente devo ter tido muita sorte na vida, pois sempre trabalhei muito bem com mulheres e hoje em dia, posso dizer que o meu leque forte de amigos (mas amigos com "A" grande, aqueles que se contam pelos dedos das mãos), são mulheres…
    Acredito que possa ter sido por sempre me ter alheado desses comportamentos, ou então, por ser amiga das minhas amigas e sim, ter tido a sorte de ter sempre sabido decifrar quem são mesmo as minhas amigas, acho que nunca tive esse tipo de questões… Adoro mulheres e adoro as minhas amigas, aliás, acho que nos compreendemos muito melhor do que aos homens, não obstante de haver efetivamente mulheres que são do piorio, que ficam mesmo contentes é com a desgraça das outras e que na maior parte das situações, têm é uma auto-estima muito em baixo e consequentemente uma inveja desmesurada, que despoleta comportamentos intratáveis. Se calhar, talvez sempre tenha tido sorte!

  7. Ele há com cada uma… Tive um trabalho há uns anos que era um bocado assim, só mulherzinhas cujo assunto favorito era o que iam fazer para o jantar. É cansativo de aturar pessoas assim.
    Depois as invejinhas… fazem parte do carácter português, diria mesmo…

  8. Andorinha,

    eu acho que todas as generalizações são redutoras e injustas.
    Tinha mesmo de falar porque tb vivi um ano num Lar de Coimbra – conheço o género de covil 🙂

    E por isso digo que o factor determinante aqui não é o factor "fêmea", mas o factor "grupo".
    Imagina um "grupo" de expatriados-machos a viver numa guest-house num certo país de Àfrica. Certo?
    Estás a ver a inveja/maledicência/mesquinharia e alguns pequenos furtos que aconteciam no Lar? Pois…Nos tempos de Lar ainda eramos todas umas miúdas/projectos de mulher em formação. A vida real e adulta ainda era só um simulacro, não era a doer.
    Agora, garanto-te que já vi machos, adultos, bem plantados na vida…a tramarem o companheiro de casa e trabalho por inveja do companheiro ter mais chamadas de skype de casa/amigos. Ou por ter uma namorada "local" mais boazona…
    Comportamentos desses vi eu no Lar quando era um trofeu ter um namorado que ia levar e buscar de carro(sim, o modelo de carro tb era crucial:)
    As dinamicas de grupo são fascinantes!

    Concordo inteiramente contigo no aspecto da triagem. Em diferentes campos da vida é assim que se arrumam potenciais chatices.
    beijinhos,
    Ângela

  9. Hum, concordo e não concordo. É verdade que muita gente junta dá asneira. Mas não têm, necessariamente, que ser mulheres. Basicamente concordo com o post todo, mas com "pessoas" em vez de gajas.
    Estive num colégio interna só com miúdas. Claro que éramos crianças e não é bem a mesma coisa, mas aprendi imenso com elas. E hoje, passado tantos anos, tenho entre elas uma das minhas melhores amigas e muitas por quem tenho um carinho especial. E ódios de estimação, claro. Isto para dizer que tb há coisas positivas num grupo de gajas.
    Mas a cusquice tb me deixa doida. E a falta de privacidade também. Não consigo partilhar a maioria da minha vida com ninguém (exagero um pouco até e isso vê-se no blog, por exemplo, que só tem posts que em quase nada "me" mostram).
    bjs

  10. Ana, na cidade isto também há. Basta que haja uma gaja ali com a língua comprida demais e temos o caldo entornado. Também é preciso ter um cadinho de azar se se topa com elementos destes com esta idade… 😉

  11. Tu não duravas lá uma manhã! Começavas logo por partir o focinho da Madre e acabavas tolinha aos murros nas paredes! :)))))
    (quem ler até pensa que és um ser agressivo!:D Fixe! 😉 )

  12. Verduxa, a "fêmea humana" está entre aspas exactamente porque não se refere às mulheres em geral, mas a um "espécime" específico, o que é maldoso e desocupado e dono de uma língua mto afiada, principalmente pra falar dos outros.
    Eu tenho grandes amigas, mulheres, todas elas como descrevi no post e com A grande.
    Ter estado exposta a um ambiente como o Lar onde vivi não é uma questão de sorte ou de azar. É um curso de psicologia feminina avançado!!! 😉

  13. Ângela, vivi 4 anos num Lar. No meu primeiro ano olhei pra dinâmica como tu. Ao fim de 4 anos só lá ia dormir e comer só qdo se me acabava o guito da semanada porque já na altura era maldade a mais por metro quadrado pra mim. No primeiro ano lembro-me duma gaja de Braga que puxou por uma perna a outra miúda qdo ela ia a descer as escadas só pra ela cair. A gaja quase se mata. Levantou-se, puxou a mão atrás e enfiou dois bofardos na outra que lhe deixou os dedos bem marcados na tromba. Só se perderam as que cairam no chão. A Madre pôs as caloiras todas de castigo por uma caloira ter batido numa veterana. Não interessa se a outra vaca quase mata a caloira, o que interessa é que as caloiras tinham que perceber q nao podiam fazer o que queriam sem consequências.
    E já adulta tive que admitir que a filosofia que diz que a sociedade é que molda o ser humano não é correcta. Há pessoas que são intrinsecamente más, que não sei como, nasceram com um sintoma de competitividade e mesquinhez dentro delas que não é explicável por qualquer que seja o tipo de educação já que conheço os irmãos das mesmas e não têm nada a ver.

  14. Patrícia, isso não é defeito, é feitio e não é mau ou problemático.
    E eu sei que também há gajos assim, mas comparativamente é um pra cada 3.
    Eu tb tenho 3 ou 4 grandes amigas feitas no Lar, uma delas lê o meu blog, né Nelita? 😉 mas todas elas são pessoas que entram nos parâmetros de que falei acima em termos do que é pra mim uma amiga.
    beijos

  15. Compreendo bem o q escreveste neste post!
    A começar no tipo de cidade em q cresceste… Comigo também foi semelhante. Cresci numa cidade relativamente pequena, em que toda a gente se conhece e toda a gente se preocupa em saber da vida do outro, para criticar, claro está! Adoro aquela cidade, mas detesto as suas pessoas… É uma cidade de famílias ricas, muitas delas agora com a corda ao pescoço, que vivem de fachada e do nome da sua família. Tive uma boa oportunidade de viver lá, quando saí de casa dos meus pais, mas não quis. Não suporto gente assim!
    Quanto ao resto, confesso que tenho um problema em relacionar-me com outras mulheres… Adoro ser mulher, tenho amigas e mulheres na família que admiro, adoro e estimo muito mas, no panorama geral, fico muitas vezes desiludida com o que vejo… Muita cusquice… 80% das conversas a que assisto são cusquice… quem anda com quem, quem dorme com quem… e os restantes 20% são sobre moda, saldos e sapatos…. Gente vazia e desinteressante!
    É por essas e por outras que eu me entendo melhor com homens, seja para trabalhar ou para conviver!

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