O que é o narcisismo, e o que é que isso me interessa?

Tenho uma amiga que teve um namorado que dizia que era um narcisista e que por isso é que ela tinha esta espécie de doença em que fugia dele e ao mesmo tempo era atraída por ele.

Eu nunca percebi porque é que ela não o mandava pura e simplesmente às favas, mas principalmente, não sabia o que é que queria dizer que o gajo era narcisista.

Eu sei a definição geral: uma pessoa que gosta muito de si mesma e que se acha o centro do mundo. O que eu não entendia era de que modo é que isso se transformava numa doença pra ela.

Para mim o que ela tinha de fazer era simples: afastar-se de vez. E levou muito tempo a conseguir, mas depois de umas sessões de terapia, ela diz que está safa. Eu cá sou como Tomé, ver pra crer.

E juro que não sou eu a dizer que é uma amiga, eu efectivamente não poderia ser já que tenho uma certa aversão a este tipo de pessoas.

Mas explicando então o que me traz a este tema, na semana passada uma amiga minha partilhou esta Ted Talk no FB dela que explica o que é o Narcisismo e Narcisist Personality Disorder.

E eu aprendi que existem dois tipos de narcisismo:

  1. O “grandiose narcisism” (extroversão, dominância e chamadas de atenção)  cujos exemplos serão por exemplo o Donald Trump, e celebridades do mundo do espectáculo, ou aqueles que entram nos Big Brothers e nas Casas dos Segredos porque querem ficar famosos. Esta malta quer ter poder, porque o poder lhes dá status e a atenção de que se alimentam.
  2. O “vulnerable narcisism” (calados e reservados) é mais difícil de identificar, mas procurem recordar-se daquelas pessoas que ficam raivosas e possuídas sempre que não ficam em primeiro lugar nalguma coisa, e que começam logo a destruir as pessoas que competiram com elas com o máximo de agressividade. Um exemplo ainda melhor, é o caso dos políticos ou líderes mundiais que estão dispostos a começar uma guerra e mandar milhares de pessoas em direcção à morte só porque “alguém” gozou com ele, e novamente um bom exemplo: o Trump, que está disposto a mandar jovens morrer numa guerra cujo objectivo é trazer orgulho nacional aos EUA e calar aqueles que acham que eles são todos estúpidos.

O vídeo dura 5 minutos e pouco, vejam que vale imenso a pena.

Por coincidência, ou não, o The Cracked Podcast, na conversa da semana passada, decidiram abordar o mesmo tema: Why Donald Trump’s Rise Proves Americans Are Narcissists.

Eu fiz o download e vim a ouvir na viagem de carro pra Lisboa no Domingo. Foi uma hora e meia de : “wow”, “realmente!”, “nunca tinha pensado nisto”, “faz tanto sentido”.

Eu não vos consigo resumir esta hora e meia, porque abordou tantas, mas tantas questões, que eu preenchia 4 páginas a falar disto, há aqui material pra 20 posts e muita food for thoughts.

Uma das coisas que aprendi foi que o Facebook é o melhor revelador de narcisistas, porque é uma ferramenta pra eles: as selfies, a quantidade de likes que é contabilizada de x em x minutos, a exposição, a fama, a validação que conseguem a partir do mesmo.

Que o facto de as pessoas hoje em dia terem poucos amigos reais e muitos virtuais, tem tudo a ver com a relação estabelecida nas redes sociais que cultiva o narcisismo, e não promove as relações emocionais. Uma das características dos narcisistas é que estão completamente a borrifar pras emoções das demais pessoas que os rodeiam, só querem mesmo que os aplaudam. E são capazes de escolher um determinado tipo de companheira (o) que os faz “brilhar” quando vão a algum lado, porque suscitam a inveja e a cobiça dos outros, porque lhe dão status e faz com que eles “sejam” ainda mais importantes e ainda mais bem-vistos. Todas as emoções são uni direccionais. Eles fazem tudo para serem amados, mas não amam.

Ora se seja uma relação de amizade ou de intimidade, pensem lá comigo, se os “amigos” só servem pra lhes dar importância e status, e se são incapazes de retribuir qualquer tipo de sentimento, como é que é possível ter-se uma verdadeira relação forte e emocional? Não pode, certo?

E uma forma como vejo isso traduzido, é na força e na união entre os grupos que fiz antes das redes sociais, e os actuais pós-rede. E ainda no outro dia falei sobre isso aqui quando expliquei que no Irão não tive acesso às redes sociais e que por isso me liguei fortemente às pessoas do grupo que estava comigo, com quem tenho uma relação de amizade verdadeira que há muito não encontrava.

A coesão entre o ser humano e as relações pessoais não podem estar relacionadas com o narcisismo, senão morrem.

E finalmente compreendi como é que o outro tipo tinha a minha amiga em yo-yo: ele corria atrás dela sempre que precisava de atenção, ela por sua vez idolatrava-o que era o que ele queria, e sempre que ela não fazia uma vontade dele, o gajo era agressivo e rejeitava-a porque já tinha a dose de atenção de que precisava. Uma espécie de vampiro de emoções.

Enfim, eu avisei que isto dava 4 páginas, é mesmo um tema muito interessante e muito esclarecedor, explica muito sobre a realidade actual e porque é que temos os políticos que temos e porque é que temos os políticos que merecemos.

Explica porque é que temos a trash TV que temos, e temos a TV que merecemos.

E por último explica que o narcissistic disorder  é passível de ser curada, mas não é impossível. Se decidirmos melhorar todos um bocadinho, o mundo será também ele melhor.

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