Sai um robe quentinho pra mesa 3 oh faz favor!!

A minha querida Maezinha encontrou em casa dela um robe que me ofereceu ha uns 4 anos e que eu nunca mais tinha visto. Posto isto decidiu oferecer-me algo que ela considerou bem mais util e mais uns trocos que vao dar pra eu compensar parcialmente as UGGs que os meus terroristas roeram.
Ora pois entao ca fica a foto e facam como eu: riam-se a bom rir!
E se o vosso coracao parar quando virem as botas, nao se preocupem, a mim aconteceu-me o mesmo. Depois passa.
O que importa e’ eu estar bem preparada pra ter sempre a casa impecavel pro mariduncho que nao tenho, qual anos 60. Nem a vossa avo’ bate a minha Mae aos pontos!

Dinâmica Mãe e Filha há 36 anos

Mãe – Sofia, o que queres de prenda de Natal?
Sofia – Quero uma coisa que vi no outro dia na net que é um cabo pro telemóvel que é assim uma espécie de armação que dá pra por o telemóvel enquanto estou a cozinhar e ainda é à prova dos dentes dos cães (isto)
Mãe – Não sei comprar dessas coisas!
Sofia – Pronto, então dá-me um robe quentinho.
Mãe – Já te dei um a ti e outro ao teu irmão e da Benetton!
Sofia – Isso foi há quanto anos?
Mãe – Aiiii, ainda há bem pouco tempo!!!
Sofia – De cor é que eram? Azul? Laranja?
Mãe – Não me lembro….
Sofia – Se calhar porque os compraste muito grandes e tivemos que os ir trocar, lembras-te?
Mãe – Então é um robe que queres?
Sofia – Sim. Pode ser dos Pinto’s ou da feira, não faz mal, quero é que seja quentinho e do meu tamanho.
Mãe – Tá bem.

Quanto é que querem apostar que quando for a abrir a prenda de Natal vai lá estar uma camisola, ou outra coisa qualquer, tudo o que a ela lhe passe pela cabeça…menos o robe!
Nada como ser do contra. Pra próxima tenho que lhe dizer: dá-me tudo menos um robe!!! Limpinho que recebo um!

Sofia, a remar contra a maré maternal há 36 anos.

Parabéns Aprígio!





O meu Padrinho era um SENHOR e foi o melhor Patriarca da família que já houve. 
Era meu Tio-Avô mas tenho mais recordações dele que dos meus Avôs propriamente ditos. 
Foi ele que nos ensinou a conduzir e nos “encartou” a todos;
Era ele que punha 5 netos a dormir ao mesmo tempo enquanto lhes contava histórias sobre assaltantes no meio do caminho pra Melgaço e a maneira como levava sempre o dinheiro guardado nas meias e uma pistola escondida no bolso! Nunca matou ninguém, mas afugentava os ladrões todos como se fosse o Zé Gato e depois deitava a fugir de bicicleta e só parava …….em Ponte de Lima! Oh pa, que saudades!

Era ele que nos levava às termas do Peso pra bebermos água e sermos saudáveis e nunca nos deixava andar de barco porque era perigoso. 

Aliás, pra ele tuuuudo era perigoso 😀

Ensinou-nos a beber Alvarinho (do bom!), a comer chouriço revilla e tapas na fronteira, a comer pão com barras de chocolate.
Conseguiu a enorme proeza de sentar à mesa 15 netos e sobrinhos e por-nos a todos a bater palmas em cima da mesa enquanto ele cantava: general, general, general pum pum todos trabalham menos o um! general, general, general pum pum todos trabalham menos o 13 o 10 e o 17!


Tio, agora pergunto-te eu a ti. Ouve lá, tu antes de te ires embora há cinco anos: fechaste o gás? Fechaste a água? Desligaste o ferro? Fechaste a porta à chave?

Ahhhhhhhhhhh pois é!! 😉 


Meu querido Tio, onde quer quer estejas: ÉS O MAIOR!!


E nas palavras do meu primo e neto dele: 

E para o avô Aprigio não há nada nada…

TUDO, (como ele diria) AFERRIA A; AFERRIE e AFERRI I; AFERRIO O; 


AFFERRIU U, 
Com saudade avô, onde quer que estejas…

Parabéns porque hoje farias 92 anos.

Demasiado rápido

A vida passa muito depressa. Passa à velocidade da luz.
Ainda ontem cheguei a Amesterdão e hoje já passaram 4 anos e um mês desde que cá cheguei.
Ainda ontem chorava baba e ranho quando saí da IBM em Portugal e há uns dias dei comigo a chorar baba e ranho porque uma das minhas colegas de cá se vai embora.
Ainda ontem estava com os meus amigos no Bairro Alto e hoje tenho um grupo e uma “família” diferente em Amesterdão de quem não prescindo e que está a crescer com o nascimento de novos rebentos e a chegada de tanta, mas tanta gente nova a este País.
Ainda ontem acreditava que era eterna e depois a minha Tia faleceu tão jovem e eu percebi que já tenho 35 anos.
Não dei por eles a passar.
Sei que foram e são bem vividos, mas a vida tornou-se escassa, curta. E no entanto não pára, sempre em movimento. Agora tenho mais 2 pra levar à rua, dar banho e mimo.
Ainda ontem não tinha saído da Europa e da América e hoje já fui até à Ásia.
Ainda ontem tinha grandes amigos que via pelo menos anualmente e hoje reparo que há alguns a quem não vejo há 5 anos. E mandam-me fotos dos filhos e vejo que o bébé recém-nascido já não tem dentes outra vez porque já passaram 6 anos e a fada-dos-dentes chegou.
Ainda ontem tinha uma família de candeias às avessas e hoje tenho uma família que se une na doença quando entende que não somos eternos, porra! Será que é preciso esta puta desta doença pra nos acordar? Pra nos unir? Pra nos fazer separar o relevante do irrelevante?
Ainda ontem brincava com os meus primos no regato e hoje reparo que ainda não ensinei os filhos deles a brincar com as folhas que fazem de barcos e de traineiras.
Porque o tempo não me chega, não consigo chegar a todos os lados, estar com todos com quem quero, fazer tudo aquilo que quero, não tenho tempo. Tempo, porra!!!
E não tenho a certeza de ter feito sempre as escolhas certas. Mas eu que sempre fui pronta a fazê-la assumo as consequências. E assumo que estar hoje a 3 mil kilómetros de de vocês nem sempre é fácil, mas é certamente uma opção válida. Talvez.
Há 3 semanas atrás fui a Portugal e vi que passados 5 meses o meu Pai caminhava ainda mais torto, mais torcido, mais velho. A minha Mãe ostenta agora uma farta cabeleira branca e passou tudo muito depressa. E eu… e eu tenho fucking 35. Só menos 16 que a minha Tia, que tinha menos 16 anos que o meu Pai.

Back to Amsterdam

Passei duas semanas e meia em Portugal que pareceram 2 meses.
Aconteceu tudo condensado em pouco tempo e quando se tem uma Família que adora “o drama, o horror, a tragédia” torna-se bastante cansativo a nível emocional.
Além disso 3 cães nesta fase dão um trabalho horroroso, passo o dia i-n-t-e-i-r-o atrás deles de esfregona na mão e a apanhar kilos de cagalhotozitos discretos. Se juntarmos a isso o facto de eu não ter ido de férias e ter tido que trabalhar remotamente, estes 15 dias deram cabo de mim.
Ontem aterrei finalmente em Amesterdão, a minha querida amiga Nini foi-nos buscar ao aeroporto e ainda me trouxe sopa de panceta e espargos. Tenho uma sorte do caneco, a sério.
Quando me vi sentada no MEU sofá, na MINHA casa, com os MEUS cães, a jantar o que ME dava na real bolha e quando ME dava na real gana, até achei que era mentira.
Passo a explicar: eu tenho uma Família muito boa, muito querida, mas com uma propensão pro drama/teatro/emoção que não há explicação possível. Aquilo que é ultrapassado em qualquer casa com um simples: não. Ou um simples: tudo bem, pode ser. Na minha tem de ser logo um filme do Fellini, parece uma casa de italianos. No outro dia dizia-me a mulher do meu primo que na casa dos Pais do marido estão sempre todos a falar alto, é tudo muito dramático, tudo muito “loud”, que sempre que lá vai, muito embora os adore de coração, que tem a sensação de viver numa família Italiana, daquelas dos filmes.
Pois é “exactoquanto” como na minha casa, não fosse a minha Mãe e a Sogra dela primas direitas e educadas na mesma casa.
Tenho uma inveja incrível daquela malta que tem uma família normal, em que todos se dão bem, em que as coisas são resolvidas de forma pragmática. Eu só queria que na minha casa houvesse pragmatismo. Calma. Tranquilidade. Mas é impossível porque se começa a falar de alhos e acaba-se nos bugalhos. Por exemplo: uma simples mijadela/cagadela fora do sítio dum cão redunda facilmente num: se não estás bem põe-te, podes ir pra onde vieste, porque tu nunca fazes nada de jeito e vais acabar sozinha. Ou noutra versão: fecha a persiana. Não quero. Mas quero eu que senão os ciganos, os romenos, os não sei das quantas veem tudo lá de fora e podem vir assaltar a casa ou violar-te! (?????????)
Mais um exemplo: desliga o aquecedor à noite senão as botijas do gás podem explodir! (????????) Sim, porque tudo o que de mau pode acontecer só acontece de noite.
Fiz mais de 5 mil kilómetros de carro até à Bósnia, mas a minha Mãe fodeu-me a paciência porque eu ia de noite de carro pra Batalha.
Juro. É mesmo assim.
Um what the fuck? não resolve. Tentar entender, também não resolve. Se me rio, acham que estou a gozar e lá vem o carnaval montado. E eles sabem que não estão a fazer sentido nenhum, mas estão velhos, estão chatos, estão confusos, não querem nada que lhes interrompa as rotinas que têm mas ao mesmo tempo querem-me lá, e em casa, coisa que obviamente é “no can do”.
Todas as pessoas que nos conhecem dizem “em vossa casa não há tristeza! São todos bem dispostos, deve ser uma festa!”. E é. Mas esquecem-se que além de sermos todos bem-dispostos convinha também que fossemos 4 pessoas pacientes e de pavio comprido, em vez de pavio curto.
Note-se que a parte positiva é que da mesma maneira que vem, da mesma maneira que vai, ou seja, na maioria das vezes passado 2 dias já não nos lembramos, ou fazemos de conta que não nos lembramos e siga a marinha.
Mas é cansativo comó car…..
Há anos que faço um esforço enorme por ser mais calma, mais tranquila, com uma vida menos sobressaltada, sem ter sempre as emoções tão à flor da pele. E acreditem que é um esforço monstro, mas que compensa. E como já não estou habituada a tanto filme, quando venho de Braga agradeço a Deus os 3 mil kilómetros que nos separam e que me deixam sossegadinha no meu canto, sem filmes, sem dramas, só com alegrias e boas ondas. E é assim que decido que daqui pra frente mais de 3 dias em Portugal é muito. Um fim de semana tá de bom tamanho, mesmo que o bilhete custe mais 200 euros.

Pra minha Tia ficar contente

Tia, é só pra te dizer que trabalhas depressa aí de cima porque os primos finalmente conheceram-se todos, pelo menos agora tenho família do Pai no facebook, not bad! Se tudo correr bem vamos conseguir reunir pessoas boas e momentos bons. Afinal temos todos o mesmo apelido e os mesmos olhos, certo? Beijos grandes aí e obrigada.Se continuares assim Deus promove-te a anjo num ápice!

As despedidas são difíceis

Hoje faleceu a minha Tia Zé, aos 51 anos de idade. Nestas alturas apetece dizer que Deus não sabe, que não é justo, que se houvesse um Deus não deixava que alguém tão novo fosse roubado aos que os amam.
A puta da doença do século levou-no-la tão cedo e a minha raiva e revolta vai toda para essa doença cabra que ceifa sem dar hipótese. A medicina evoluiu, a investigação acelerou, mas não o suficiente. E agora resta esperar que a minha Tia Zé esteja em paz, que a sua alma vogue descansada por entre prados verdes e céu azul e que tenha levado no coração a certeza de que gostávamos muito dela.
A minha Tia foi para casa dos meus Pais quando era adolescente, devia ter uns 19 anos. A minha Avó também faleceu muito cedo aos 49 anos e com a mesma doença que levou a minha Tia. Ela devia ter uns 9 anos na altura. Quando o meu avô faleceu há uns bons 30 anos já a Zezinha vivia connosco, era a irmã mais nova do meu Pai. Eu tinha 3 ou 4 anos e dividia o quarto com ela. O meu irmão tinha nascido há pouco tempo e a Tia não gostava de mudar fraldas porque o cheiro lhe dava vómitos. Usava uma fralda atada à cabeça, por cima do nariz enquanto aguentava as arcadas. Afinal sempre queriam ver como é que ela ia fazer quando fosse dos filhos dela! Ela safou-se, mas nunca mais se livrou da fama.
Ela fumou durante muitos anos, SG Ventil, o que deixava a minha Mãe anti-tabagista ferrenha doida. Todas as noites ia pra janela à noite fumar o seu cigarrinho. Eu fugia e ia ter com ela e pendurada numa cadeira punha-me ao lado e pedia-lhe só uma passinha. E ela dava-me cigarros de chocolate e dizia: só destes! E eu fazia como os sapos e usava o frio pra tentar fazer aquelas rodinhas que ela fazia no ar. Aqueles aros tão perfeitos, de vários tamanhos e que continuavam a circular durante muito tempo.
Tínhamos uma cama daquelas estilo beliche, que ficava como um sofá, daquelas que tem uma gaveta por baixo de onde sai outra cama. Eu dormia em baixo e ela em cima, meia encolhida porque a cama era pequena. Ela dava-me a mão pra eu adormecer e às vezes lá conseguia meter-me na cama com ela. Era tão fixe. Convém dizer que a minha Tia ficava encolhida na cama porque era um poste, tinha quase um metro e oitenta. Usava o cabelo como a Lady Di, a musa de todas as miúdas da idade dela e saias compridas tal e qual o figurino, porque era magra e tudo lhe ficava bem por ela ser tão grande. Como era muito mais alta que as amigas todas, sempre que ouvia que a mulher e a sardinha se queria da mais pequenina respondia abespinhada que não senhora! a mulher e a pescada quer-se é da mais alongada. O certo é que apesar de alta comó caraças conseguiu arranjar um marido tão alto como ela, e toda contente e apaixonada casou aos 23 anos. O meu Tio tinha um Citroen boca de sapo, vinha ter com ela quase todos os dias e às vezes íamos ao café em frente à nossa casa, o café in da moda. Nós também tínhamos que ir para garantir que a minha Tia se “portava bem” e fugíamos pra nos sentarmos nas escadas do café a comer os sugus com que eles nos subornavam sempre que os víamos aos beijinhos.
Quando casou fomos com ela a Espanha escolher um vestido à Pronovias que o meu Pai lhe ofereceu todo contente e a Zé parecia mesmo uma princesa. Eu fui menina das alianças juntamente com a minha prima Natália. O casamento foi muito bonito, na quinta da Prima Gi, que tinha um coreto e tudo. A Prima Gi com quem ela viveu depois da minha Avó morrer, e que era uma senhora toda fina e que achava que a minha Tia tinha pés muito grandes e por isso devia usar sapatos dois números abaixo do dela. Deu cabo dos dedos por causa das peneiras. A Prima Gi que ficava fula porque a minha Tia atirava os rebuçados (tão caros que as visitas traziam, oh valha-te Deus Zezinha, que vergonha) ao ar e gritava: chuuuuuuva! A Prima Gi que tinha o maior nariz que já conheci e que era solteiríssima da silva e podre de rica. A Prima Gi que foi uma Mãe pra minha Tia Zé e que achava que ela tinha que aprender a tocar piano e a falar francês, casar cedo e bem. A Prima Gi que era uma senhora, mesmo vivendo na aldeia e que ainda hoje me faz lembrar os romances do Eça. A Prima Gi que era uma das maiores figuras da Vila de Melgaço e morreu velhinha e cheia de dignidade.
Depois de casar a Tia Zé ainda viveu em Braga uns anos, tinha um apartamento grande ali nas Piscinas, com um terraço onde o meu primo mais velho mandou uns valentes tralhos. O puto tinha uma cabeça dura que eu sei lá e era um terrorista e ainda hoje é a cara do Pai cuspida e escarrada. Lembro-me que um dia mandou uma cabeçada numa mesa de vidro que se estilhaçou e ele teve só um galo, ou será que foi nessa altura em que fez a bela cicatriz que ainda hoje tem na sobrancelha? O que sei é que ainda hoje não sabemos como é que ele sobreviveu a ele próprio. Depois mudaram-se pro Porto e encomendaram o meu primo mais novo, que é igualzinho a nós curiosamente, os mesmos olhos, as mesmas sobrancelhas grossas, o mesmo cabelo basto e prontinho a ficar branco. A maior diferença entre os meus primos e nós é que eles são enormes, um tem um metro e 85 e o outro um metro e 88. Saem ambos ao lado do meu Pai e da minha Tia. O que significa que um dia, se me der uma travadinha e tiver crianças, é bem possível que a criança venha a ser um adulto altíssimo e há a hipótese do Pai da criança pensar que o traí.
Os meus primos são agora dois homens adultos, um tem 22 e o outro 28. Viajam muito como os primos mais velhos, são bons alunos, um deles vive em Angola, e são bem o orgulho de Pai e Mãe. Miúdos à maneira, educados e bem-dispostos.
Por circunstâncias da vida (algumas delas alheias à minha vontade), aí desde os meus 18-20 anos, nunca mais passamos o Natal juntos, nunca mais visitei a minha Tia, nem os meus primos e os telefonemas escassearam de dia pra dia. O egoísmo duma adolescente e a falta de comunicação familiar deram cabo duma relação Tia-Sobrinha que sempre foi boa independentemente das chatices de família.
Por sorte, e porque o meu Primo mais novo é um miúdo mesmo espectacular e me avisou, pude ir na terça-feira ao Hospital visitar a minha Tia e despedir-me dela. Chorei que me fartei, fiquei com duas batatas em vez de olhos e uma telha descomunal. Mas pude pedir-lhe desculpas pela ausência e sei que a minha Tia me perdoou. Infelizmente nunca vou conseguir devolver-lhe dias como a minha Benção das Fitas, o dia em que recebi o meu primeiro salário ou o dia em que me meti num avião e emigrei. Dias especiais em que eu sei que ela ia ter gostado de estar presente e que nunca mais vou a tempo de lhos devolver.
Tenho noção que possivelmente não poderia ter feito muito mais do que o que fiz, mas tenho muita pena que assim tenha sido.
Resta-me a consolação de lhe ter podido dizer que toda a gente me diz que sou igualzinha a ela, salvo os 3 palmos de altura que nos separam; e ainda de lhe ter dito podido dizer: e sou igual a ti com muito orgulho!
Gosto mesmo muito de ti Tia Zé.
Descansa em paz.

Uma petit perguntinha…

… sou só eu que quando venho a casa é logo o fim do mundo em cuecas e saem logo 3 discussões com a Mãe, mais duas com o Pai, e não noto bem a diferença entre o Natal e o resto do ano?
Sou eu a única que não está cheia de amor e sentimentos fofinhos assim que bate os olhinhos nos ornamentos natalícios?
Será que só eu é que ainda não comprei prenda nenhuma e 48 horas antes não faço pálida ideia do que vou dar ao Pai, à Mãe ou ao Irmão?
Sou eu a única incapaz de fazer algo artesanal e mimoso para oferecer aos tios, primos e amigos como compotas, bolachas e afins?
Será que só eu é que faço solidariedade todos os dias do ano excepto no Natal?
Sou eu a única a pensar que pro ano faço à Americana e passo o Natal com amigos em vez de aturar a família toda que cada vez há menos paciência?
Será que só eu é que me passo quando chego a casa e tenho um monte de rotinas estabelecidas que não me incluem, e não gosto? Para não falar que me incluem nas de que não gosto.
Sou eu a única que tem os Pais cada vez mais marretas e mais difíceis e com cada vez menos saúde e mobilidade? 
Será que só eu é que tenho uma Mãe que me trata como se eu tivesse 15 anos aos 35?
Sou eu a única?
Era só pra saber, porque há dias em que me sinto uma alien, a sério.

O que tu não viste

Quando duas pessoas se zangam há sempre coisas que nós que estamos de fora não vimos. Viste sofrer uma delas e ficaste triste por ela. Mas não viste o que o outro, que aos teus olhos é o vilão, sofreu.
Também não assististe a tudo, não escutaste as conversas, eras muito novo e não entendias bem. Só viste o desfecho, não viste o início.
Não ouviste as palavras duras da terceira e da quarta pessoa e tomaste partido.
E eu não fui muito diferente porque consenti que me calassem.
Tu lembras-te da mágoa do que amas, eu lembro-me das palavras de todos os que amo.
É certo que a uns devo tudo, e aos outros pouco. Mas aos outros devo muitos momentos de alegria quando era pequena, naquela altura em que todos só olhavam pra ti e eu estava esquecida por já ser grande. É isso que eu não esqueço. Eu era a mais importante pra ela, mais que tu. Eu é que era igual a ela, não eras tu, embora claramente fosse minorca.
Cada um fez o melhor que pôde e soube e cada um se empenhou em magoar o outro mais profundamente à medida que a mágoa própria crescia. Uma espécie de mancha de petróleo que lentamente se vai espalhando e que escurece o coração. E tudo, como seria de esperar, em vão.
Enterraste as lembranças, mas eu não.
Queres uma passinha?
Vá, dá-me a mão pra adormeceres.
À mesa de Deus nosso Senhor não se canta menina!
Chuva de rebuçados!
A mulher e a espada quer-se da mais alongada!
Eu gosto é disto assim, com muita gente e todos juntos à mesa, isto é que é um Natal. O meu mais novo fala muito porque sai a nós, sai ao nosso lado.
Queres sugus? Dou-te sugus se não disseres que nos viste aos beijinhos, ok?
Tu não te lembras, mas eu lembro-me e é por isso que vi tudo, não vi só um lado. É por isso que hoje não estou zangada, não tenho mágoa. A ti perdoo-te a ignorância. Mas jamais seria capaz de me perdoar a mim própria se não tivesse tentado entendê-la e aceitá-la. Porque ela gostava muito de mim, mesmo depois de eu me calar e desaparecer. Se ela me perdoou isso, eu posso perdoar muito mais e não é porque ela esteja a morrer.