Back to Amsterdam

Passei duas semanas e meia em Portugal que pareceram 2 meses.
Aconteceu tudo condensado em pouco tempo e quando se tem uma Família que adora “o drama, o horror, a tragédia” torna-se bastante cansativo a nível emocional.
Além disso 3 cães nesta fase dão um trabalho horroroso, passo o dia i-n-t-e-i-r-o atrás deles de esfregona na mão e a apanhar kilos de cagalhotozitos discretos. Se juntarmos a isso o facto de eu não ter ido de férias e ter tido que trabalhar remotamente, estes 15 dias deram cabo de mim.
Ontem aterrei finalmente em Amesterdão, a minha querida amiga Nini foi-nos buscar ao aeroporto e ainda me trouxe sopa de panceta e espargos. Tenho uma sorte do caneco, a sério.
Quando me vi sentada no MEU sofá, na MINHA casa, com os MEUS cães, a jantar o que ME dava na real bolha e quando ME dava na real gana, até achei que era mentira.
Passo a explicar: eu tenho uma Família muito boa, muito querida, mas com uma propensão pro drama/teatro/emoção que não há explicação possível. Aquilo que é ultrapassado em qualquer casa com um simples: não. Ou um simples: tudo bem, pode ser. Na minha tem de ser logo um filme do Fellini, parece uma casa de italianos. No outro dia dizia-me a mulher do meu primo que na casa dos Pais do marido estão sempre todos a falar alto, é tudo muito dramático, tudo muito “loud”, que sempre que lá vai, muito embora os adore de coração, que tem a sensação de viver numa família Italiana, daquelas dos filmes.
Pois é “exactoquanto” como na minha casa, não fosse a minha Mãe e a Sogra dela primas direitas e educadas na mesma casa.
Tenho uma inveja incrível daquela malta que tem uma família normal, em que todos se dão bem, em que as coisas são resolvidas de forma pragmática. Eu só queria que na minha casa houvesse pragmatismo. Calma. Tranquilidade. Mas é impossível porque se começa a falar de alhos e acaba-se nos bugalhos. Por exemplo: uma simples mijadela/cagadela fora do sítio dum cão redunda facilmente num: se não estás bem põe-te, podes ir pra onde vieste, porque tu nunca fazes nada de jeito e vais acabar sozinha. Ou noutra versão: fecha a persiana. Não quero. Mas quero eu que senão os ciganos, os romenos, os não sei das quantas veem tudo lá de fora e podem vir assaltar a casa ou violar-te! (?????????)
Mais um exemplo: desliga o aquecedor à noite senão as botijas do gás podem explodir! (????????) Sim, porque tudo o que de mau pode acontecer só acontece de noite.
Fiz mais de 5 mil kilómetros de carro até à Bósnia, mas a minha Mãe fodeu-me a paciência porque eu ia de noite de carro pra Batalha.
Juro. É mesmo assim.
Um what the fuck? não resolve. Tentar entender, também não resolve. Se me rio, acham que estou a gozar e lá vem o carnaval montado. E eles sabem que não estão a fazer sentido nenhum, mas estão velhos, estão chatos, estão confusos, não querem nada que lhes interrompa as rotinas que têm mas ao mesmo tempo querem-me lá, e em casa, coisa que obviamente é “no can do”.
Todas as pessoas que nos conhecem dizem “em vossa casa não há tristeza! São todos bem dispostos, deve ser uma festa!”. E é. Mas esquecem-se que além de sermos todos bem-dispostos convinha também que fossemos 4 pessoas pacientes e de pavio comprido, em vez de pavio curto.
Note-se que a parte positiva é que da mesma maneira que vem, da mesma maneira que vai, ou seja, na maioria das vezes passado 2 dias já não nos lembramos, ou fazemos de conta que não nos lembramos e siga a marinha.
Mas é cansativo comó car…..
Há anos que faço um esforço enorme por ser mais calma, mais tranquila, com uma vida menos sobressaltada, sem ter sempre as emoções tão à flor da pele. E acreditem que é um esforço monstro, mas que compensa. E como já não estou habituada a tanto filme, quando venho de Braga agradeço a Deus os 3 mil kilómetros que nos separam e que me deixam sossegadinha no meu canto, sem filmes, sem dramas, só com alegrias e boas ondas. E é assim que decido que daqui pra frente mais de 3 dias em Portugal é muito. Um fim de semana tá de bom tamanho, mesmo que o bilhete custe mais 200 euros.

21 comments:

  1. 3 dias? E isso chega-te para os amigos e tudo?
    Não querendo menosprezar os teus problemas, mas os romenos que te podem violar fizeram-me rir com vontade! O que uma pessoa tem de ouvir 🙂
    Bom descanso!

    Beijinhos

  2. Não margarida, não chega pros amigos, mas no fundo eles vêm-me visitar amiúde, por isso consigo ir gerindo aos bocados.
    Além disso os meus amigos, regra geral, salvo raras excepções, não estão em Braga.
    E os que estão vão à vida deles: férias, trabalho, enfim. Portanto também não há mto tempo disponível.
    E há uma coisa que vais aprender que é a deixar de dar pro peditório do: ja nao te vejo ha N, tenho tantas saudades tuas, mas agora tenho que ir visitar os meus sogros, o meu filho tem uma festa de anos, vamos tomar um café, mas tem que ser às 4 que é antes de ir buscar os putos à escola. Ou então outra clássica: eh pa, já tenho um jantar marcado, nao dá pra ser no… e é sempre todos a querer marcar pro mesmo dia. E não estica, o tempo pura e simplesmente nãooo estica, e se querem tanto estar contigo têm que fazer o esforço.
    Eu saí TRES vezes pra jantar ou tomar café com amigos e familia nestes dias em Braga. Em duas semanas e meia, estás bem a ver o esforço das pessoas e qtos me ligaram… 3.
    Os que estão em Lisboa são os que visito em Junho normalmente, e costumo ter a agenda toda cheiinha e combino com antecedência e mesmo assim não consigo ver nem metade dos que queria.
    Enfim, faz parte de ser emigrante.
    Eu tenho férias qdo saio da minha rotina e vou viajar. E eu sou uma pessoa que precisa mto de férias. Férias não é a comer e a beber constantemente e a tentar actualizar a minha vida com os meus amigos durante 15 dias. Dava em tolinha. Já o fiz e já desisti. Acredita que nem descanso, nem me compensa. Tenho uma casa com 3 quartos exactamente pra poder ter cá qtas visitas quiser. E elas vêm. E é bem mais fácil.

    (a cena dos romenos valeu um olhar trocado entre o meu Pai que dizia: é mta TVI nessa carola!)

  3. Andorinha!!
    Será que somos primos? É que a minha família deve ter uma ligação qualquer com a tua. De certeza!!

    Mas também te digo que famílias normais, em que todos se dão bem e as coisas são resolvidas de forma pragmática não existem.

    Um Bom Ano para ti!!
    🙂

  4. QUanto à familia a minha experiencia é diferente mas quanto aos amigos confesso que mesmo so estando fora ha 9 meses e tendo vindo a casa 3 vezes isto de me sentir culpada por não estar com toda a gente não está com nada. Até pq há muitos que ligam mas também há aqueles que não fazem esforço para mudar um bocadinho a rotina. Assim, ando a aproveitar os meus dias em casa, no relax. E ainda ontem dizia a uma amiga que agora entendia a coisa dela dizer que se sente aliviada com chega a casa, a Londres e eu que me sinto bem na casa dos meus pais que é minha tenho estou a sentir falta da minha casa e da minha vida em Dublin. É tão estranho, estás em casa mas sentes saudades de casa.

  5. Ai como eu te entendo. P'ra mim foram "só" 6 dias, mas, juro, bastou. Ir de férias a Portugal já não é ir de propriamente de férias. E também já desisti de tentar estar com toda a gente. Quem quiser que me ligue. E assim faz-se uma triagem automática de quem realmente vale a pena 😉

    Bj

  6. Cor do Sol, isso é natural sempre que passas a fazer um espaço mais teu, aí é que é a tua casa. E vais fazendo mais amigos, e tal. É assim mesmo, faz parte 🙂

    Onisa, e ooooh God o tempo que eu ganhei pra fazer coisas bem mais fixes q ter "amigos" a querer saber como é viver na holanda!

    bjs às duas

  7. Como te compreendo …
    Tambem vivi fora (Ghent) mais ou menos com a mesma idade que tu, e passei por tudo isso, embora sendo rapaz, o que facilitava as coisas, pelo menos naquele tempo ….

  8. Estava a ler o teu texto e a pensar, ufa, pensei que era a única a dar em doida quando passa muito tempo seguido em casa. Pior ainda, acabei o curso em Novembro e sempre vivi fora. 5 anos em que ia a casa um fim-de-semana de 15 em 15 dias. Chegava, e sobrava, estava sempre desejosa de voltar. Agora enquanto procuro trabalho não tenho outro remédio se não permanecer em casa a tempo inteiro. Mas não dá – são as rotinas que não são compatíveis (estava habituada a fazer tudo quando queria e como queria, ainda que fosse nos horários mais estapafúrdios), é ter uma mãe paranóica das limpezas, é o "faz isto", "não fazes nada" (se soubesses o quanto faço diariamente perceberias), etcetc. E tal como tu, as coisas por lá funcionam da mesma maneira: uma caganita termina num furacão, e no "mas eu não disse isso", "disseste sim", "mas não queria dizer", a tragédia, o drama, o horror. Não dá para ter conversas calmas sobre nada, já desisti. Mas também não me consigo calar a maior parte das vezes (oh como eu gostava de ser assim). Choco com a minha mãe a tempo inteiro, e o que me vai safando é ter o namorado a viver noutra cidade, o que dá para me ir pirando de 15 em 15 dias. Quando vou, normalmente é um alívio geral. E não é que não gostemos uns dois outros, deves perceber, adoramos-nos. Quando estou fora estou sempre a ligar, estão sempre mortinhos que volte. Quando volto estou sempre desejosa de ir embora, e eles também. Oh como eu te percebo.
    E acabei de escrever uma dissertação de mestrado. 😡

    Beijinhos!

  9. Ana, já estiveste em minha casa, não foi? É que foi a descrição perfeita 🙂
    E pronto, é assim que descobrimos que não somos as únicas, que não somos más, que pura e simplesmente acontece, às vezes, não se ser compatível com os feitios e rotinas de Pai e Mãe.
    Encontra um emprego longe, é o que te recomendo! 🙂 beijinhos

  10. Eu tb vim de la estafada…e um rebolico e um fervilhar de emocoes,de chatices, de coisas boas,etc,etc! e cada vez mais tb tenho estrategias de quem quiser me ver que ligue.
    Mas volto sempre para casa a dar gracas por viver num ambiente calmo, sem dramas, sem stress, e com grande paz. E cada dia que passa valorizo mais isso!E tao bom construirmos a nossa realidade!
    bjs Mariana

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