
O testemunho que se segue foi escrito pela “Saramago” Ana Rita Poge.
Impõe-se uma (não breve) introdução. A Ana Rita, ou Pagé, como lhe chamamos, começou como Participante nos Campos da Candeia, e hoje em dia é Animadora tal como eu e outros privilegiados. Na Candeia há quatro faixas etárias: os Faíscas (6-10), os Fagulhas (11-14), os Fogueiras (15-17) e os Labaredas (17-19) (se me enganei, corrijam-me por favor).
A Pagé foi a minha primeira Fogueira 🙂
A primeira vez que fiz um Campo foi um Campo de Faíscas. Animar pequeninos é tão fácil, são tão giros, tão fofinhos, tão…easy!
No ano seguinte propuseram-me animar Fogueiras. Pra início de conversa teria de ir conhecê-los num dos CLCs (Clube da Lua Cheia que ocorre de 15 em 15 dias para os Fogueiras e Labaredas, durante todo o ano). Fui recebida pela Fogueira Pagé, que alegremente me pregou dois beijos seguido dum: dia 1 faço anos! Tens de me dar os Parabéns! Vais-me telefonar, não vais? Olha que eu fico chateada se não te lembrares!
Ela não sabia, mas eu estava morta de medo dos Fogueiras, é uma enorme aventura, peso e responsabilidade lidar com os “mais velhos” que fazem juízos de valor (pensava eu), e dizem tudo o que lhes passa pela bolha, e que quando fazes uma cena mais louca na qual eles não alinham, não têm papas na língua e soltam-te um: que seca!!
(Este ano a coisa evoluiu e dizem: boooooooooring!)
Além disso sente-se sempre a sensação que devemos ser role-models pra eles, e nós não somos propriamente os seres mais perfeitos à face da terra, não é? 🙂
Fiquei com o número de telefone dela, e no dia 1, obedientemente, lá telefonei pra Pagé, que ficou toda contente, até porque tinha recebido já 500 mil chamadas e mais não sei quantos mil sms pra sua contabilização (Oh, I’m so popular!!), mas (tive uma sorte louca) eu tinha sido a primeira animadora a ligar-lhe. Seguiram-se mais chamadas, mas dali a 15 dias, apareci no CLC e a Pagé tava toda contente e ajudou-me a conhecer os outros Fogueiras todos e dizia a toda a gente bem alto: ELAAAAA, sim, ELAAAAAAAAA ligou-me!!
E eu só pensava: ufa! Benditos alarmes no telemóvel!
Nesse ano fiz Campo com ela, eu como Animadora, ela como Participante.
A partir daí só fiz campos com Fogueiras. É um vício, uma paixão lidar com os “mais velhos”, que no fundo são “pequeninos” em ponto grande no coração, mas que nos desafiam a fazer mais a ir mais longe, a puxar pela destreza e imaginação, e acreditem, não é fácil surpreender miúdos que fazem 4 colónias por verão, alguns há mais de 10 anos… Vence a Amizade, vence o Carinho, vence o Amor.
O texto que escrevi no outro dia veio duma conversa que tivemos as duas pelo MSN. Apesar de estar na Holanda, eu faço questão de estar perto, o mais perto que conseguir dos “meus” Fogueiras. CLARO que não consigo telefonar a mais de 40 “putos”, mas consigo ir mantendo contacto estreito com uns 5 ou 6. É o possível.
A Pagé já é Animadora, mas vai ser sempre ser a “minha/nossa” Fogueira.
Escreve assim um bocadinho à Saramago (she is sooo gonna kill me for this!), mas como Animadora dela que fui, “lê-la” é conseguir explicar um pouco da magia que sinto cada vez que faço um Campo. Os “meus/nossos meninos” valem TODO, TODO o esforço e loucuras que possa fazer por eles. Quando se lê o impacto que tivemos neles e COMO entenderam a mensagem…you get speechless. E o coração transborda.
OBRIGADA PAGÉ!!!
“Desde muito pequenina sempre tive dois sonhos SER ESCUTEIRA E ANDAR EM COLÓNIAS DE FÉRIAS, estes sempre foram os meus sonhos principais e sempre que me diziam Rita pede um desejo eu pedia estes dois que para mim eram os que achava que eram impossíveis de realizar.
Entretanto aos meus 6 anos entrei para um colégio onde aprendi a crescer e a viver mais de perto a vida. Com o tempo fui fazendo coisas maravilhosas que nunca pensei fazer, comecei por experimentar ballet na verdade eu pensava… mas este não é o desejo que peço mas deve ser giro e durante 6 anos fiz e adorei. Entretanto a vidaproporcionou-me mais experiências e aventuras. Finalmente matei o bichinho da curiosidade e o meu sonho de fazer uma colónia de ferias. Para mim era tudo mágico saber que o meu verão iria ser diferente e super divertido, e fui e aquelas duas semanas para mim foram boas mas com o passar dos anos e do tempo queria mais então aos 12 anos entrei para os escuteiros e ainda mais feliz era porque os meus sonhos estavam-se a concretizar. Quando experimentei não quis outra coisa os anos foram passando e hoje ainda lá estou com a mesma garra e entusiasmo. Aos 15 anos entrei para a CANDEIA pensava eu vou para uma colónia mas diferente deve ser giro . Quando la cheguei era tudo diferente duma colónia de férias que já tinha experimentado era imensa gente com guitarras na mão a cantar musicas originais e por sinal divertidas, chamativas adorei o ESPÍRITO por acamparmos que para mim já não era novo mas numa “suposta “colónia de ferias, era. Nunca pensei era tudo tão magico quando chegamos depois de cantarmos aquelas musicas tão giras disseram-nos o tema de campo AGARRA A VIDA. Brutal a partir dai nunca mais parei a Candeia foi crescendo na minha vida e eu fui percebendo a lógica e a mensagem da Candeia, a Candeia não é uma daquelas colónias habituais de ferias mas sim uma Associação que acolhe crianças que vivem em Instituições e que durante o ano fazem várias actividades, e aí eu percebi o quanto a Candeia era importante na minha vida porque num abrir e fechar de olhos a Candeia passou a ser importante para mim e foi lá que cresci que aprendi a ser madura a dar valor às verdadeiras coisas importantes da vida e com o tempo vou percebendo que mesmo hoje em dia estes sonhos de ser Escuteira e andar numa colónia é banal mas para uma criança às vezes não é bem assim.
Hoje sou feliz com os meus grandes 2 sonhos são eles que me dão força para a minha vida principalmente a CANDEIA os momentos mais mágicos para mim são os momentos de partilha é onde tento ser um pouco transparente , a candeia para mim é o meu ponto seguro onde penso em tudo onde faço tudo que me apetece fazer no meu dia a dia mas não faço porque a palavra Marar para muitas pessoas é ridícula mas para mim não. Marar é o estado normal, é nele que me sinto bem, segura dos meus medos e das minhas inseguranças. É no meu porto seguro que vou buscar energias para enfrentar tempestades. Ao longo dos anos vou crescendo com a Candeia, foi aqui onde eu aprendi a ser mais segura, madura e foi isso que ao longo dos anos me fez ter força para lutar para uma outra fase muito importante para mim na Candeia: SER ANIMADORA. Para mim era uma barreira muito difícil de conquistar porque tinha de mostrar que era uma animadora madura o suficiente para enfrentar coisas adultas. Infelizmente não podemos agradar a gregos e troianos mas com algum esforço consegui chegar onde eu mais queria. E é isto que me faz estar na candeia, é acreditar que tudo na nossa vida é possível mesmo com barreiras acreditar e lutar pelo o que mais queremos por mais que nos deitem a baixo, é AGARRAR A VIDA ao máximo e sorrir sempre. E as minhas energias todas vou buscá-las ao meu ponto seguro onde sei que la ninguém me julga pelo o que sou ou penso se faço macacadas ou não, e é com estas energias que a Candeia faz parte da minha vida há 4 anos e tal como a Candeia a mim me deu segurança e alegria na minha vida quero fazer o mesmo às nossas crianças porque sem um sorriso a vida não brilha e eu graças a tudo o que aprendi e ao que vou aprender, o meu sorriso brilha e brilha e hoje ninguém mo tira… e é isto o que a Candeia é para mim, sinto-me uma verdadeira estrela a brilhar…“

Muuuito Saramago! LOL Mas muito verdadeira também, que era o que interessava para o caso.