Do meu Portugal

A Zôzô publicou e as lembranças surgiram e de repente tinha um post:

Já não via este vídeo há tantos anos…
O que me sai no fim é um grande e enorme suspiro. O meu Avô tinha várias quintas muito grandes que hoje já não existem. Foram vendidas e depois esquartejadas pra lotes de terreno. Hoje há casas e lojas, e até uma escola nos terrenos que eram deles. Melgaço é agora um sítio, atrevo-me a dizer, evoluído. Tem umas infra-estruturas espectaculares para lá ficarem um bom fim de semana, com bons hotéis e bons restaurantes. As pessoas da vila continuam a ter a mesma mentalidade coscuvilheira de aldeia, perdoem-me os locais, mas é verdade. Mas as gentes do campo continuam a ser sãs. Esta é pra mim uma evolução positiva duma antiga aldeia. Passou ao século XXI e, muito embora eu achasse a vila mais bonita antigamente, continua a ser um sítio realmente bonito, com o Minho a correr logo ali em baixo. Há uns anos fui lá com a minha empresa fazer desportos radicais e foi um prazer mostrar a vila aos meus amigos. Fizemos rafting e rapel. Em Melgaço fazem a festa do Alvarinho e nesse dia é escusado lá irem porque não se rompe pela multidão. Faziam (não sei se ainda fazem) uma feira medieval a dia 15 de Agosto. Um ano vesti-me de aia da corte. Ia morrendo esturricada com aquelas roupas e 36 graus à sombra. E tinha o cabelo curto e o toucado ficava-me pessimamente. Tinha 15 anos e diverti-me como nunca com um grupo de Lisboetas que lá apareceu. Quando vejo a foto que anda praí algures dou benza a Deus de não reconhecer quase ninguém daquela altura. Tinha um cone na cabeça, o suor a escorrer que nem água pela tromba, e as mamas apertadas, mas curti à brava fazer parte da feira. Note-se que só as pessoas da vila é que podiam fazer parte. Eu nesse ano tive uma cunha enorme da minha Tia-Avô que faz parte do coro da Igreja. Connections!
O que é certo é que Melgaço é hoje um sítio que carregou as tradições ao longo do tempo, mas que está orgulhosamente em 2011.
Só não sei se se fazem desfolhadas, mas eu gostava muito de ver uma. Coisas de quem cresceu a ler Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz.
O certo é que se este é um óptimo exemplo de sucesso, há outros exemplos de miséria que também presenciei. Aos 16 ou 17 fui para algures perto de Viseu, atrás do sol posto, durante uma semana, pra casa duma amiga que tinha uma quinta enorme, com ovelhas e queijo a ser produzido, com vinhas, e com ligações a um centro de dia que ia limpar as casas das pessoas mais velhas, dar-lhes banho quando não podiam, e levar-lhes a comida. Já passaram 18 anos e ainda me lembro da casa duma senhora que era um quadrado de três por três, no máximo, sem janelas, e cujo fogão e lareira eram um quadrado rebaixado no chão, com o fumo a sair pela porta que era o único escape que tinha. A Senhora estava muito velhinha, e praticamente cega. Lembro-me de mais miséria, e mais pobreza e mais tristeza, mas não vou descrever. Vou só dizer-vos que há 18 anos atrás, a sete kilómetros de Ponte de Lima, havia uma família que tinha uma casa sem luz eléctrica. Não porque lha tivessem cortado, mas porque só houve dinheiro pra fazer paredes.
Quando vejo as pessoas com os fardos às costas e as crianças a correr com o pão na mão como no fim do vídeo, deixo de recordar com saudade os tempos da aldeia.
Eu sei que a Zôzô não se estava a referir a isto, mas sim ao Portugal autêntico e esquecido nas nossas rotas de férias. Este ano fiz férias no Gerês e fiquei cheia de vontade de lá voltar mais tempo para mais caminhadas. Sou doida pelo Soajo e acho que o Lindoso é das terras mais bonitas que há no nosso cantinho. Falem-me nas Feiras Novas de Ponte de Lima e em Sarrabulho e é ver-me suspirar.
Mesmo assim, quando vi este vídeo, não consegui deixar de me lembrar da miséria que subsiste em tantas aldeias de Portugal e fiquei melancólica.

9 comments:

  1. Ainda não consegui ver o vídeo, mas depois de ter lido o que escreveste, e sendo eu "nascido e criado" em Viseu, não posso deixar de me lembrar das visitas e férias passadas na aldeia com a minha avó.
    A minha avó já tinha uma casa bem avançada para a aldeia… Ela tinha estado a trabalhar em França e fez a casa dela já com electricidade e casa de banho ligada à rede… No entanto na casa da minha bisa, a sanita (e já era de luxo) era um banco de madeira, com um buraco no meio (com tampa) que dava para o curral dos animais… (na aldeia cumpria-se a lei de Lavoisier "na natureza nada se perde nem nada se ganha, tudo se transforma" (claro que só aprendi isto mais tarde).
    Cheguei a ir a algumas desfolhadas quando era ainda criança, pois nas desfolhadas só podiam ir as crianças e as senhoras, aquilo não era trabalho para homens (não sei porque, mas é assim). Mas eram noites fantásticas, ao redor de um toldo esticado no chão, cheia de espigas de milho, onde as pessoas sentadas em circulo iam descascando e arrumando para as sacas…
    Ali se contavam histórias e estórias da aldeia e das suas gentes… era o centro das coscuvilhice… As crianças iam brincado e ajudando, brincando e espalhando as cascas das espigas por toda a parte e ouvindo raspanetes 😀
    Para ajudar ao ambiente, apenas havia uma fogueira a arder e alguns candeeiros de petróleo a arder.
    Era mágico!
    Também me lembro de outras regras da aldeia que me faziam impressão… Quando morria alguém, não se podia ligar a televisão (sim a minha avó já tinha uma das poucas existentes) nem o rádio. Eu reclamava claro… nunca percebi porque é eu tinha de ficar sem ver os desenhos animados só porque tinha morrido alguém que eu nunca tinha visto… E a minha avó lá me deixava ver se, eu colocasse a televisão muito baixinha para ninguém reparar…

    Também me lembro da alegria que era ir de casa em casa a cantar as janeiras… primos e primas juntavam-se e lá íamos nós todos contentes… E não, não era para recebermos dinheiro, se bem que as vezes davam-nos uma moedas de 50$… Mas era pelo convívio com as pessoas, que nos abriam as portas e nos convidavam a entrar na sala, com a mesa posta (sim, a naquela altura punha-se a mesa de Natal e esta só era desfeita no dia de Reis, até lá estava sempre cheia de sonhos, filhoses e rabanadas…) e claro aceitávamos todos contentes aqueles doces maravilhosos, e por mais que discutíamos entre nós quem tinha feito os melhores, nunca chegávamos a um consenso, eram todos deliciosos (se bem que eu acho que a minha avó era a melhor cozinheira de todos 😀 )

    Bem andorinha não me vou esticar mais…mas obrigado pela viagem que agora me fizeste ter, por isso é que Gos'Ti ;)!!!

  2. CA GANDA COMMENT! ADOREI!!! O que eu gostava de ter ido a uma desfolhada…
    E lembrei-me da Páscoa, que tal como nas Janeiras, iamos percorrendo as casas das famílias todas. Muito giro. A tua avó tendo casa de banho era já mesmo muito à frente 🙂 Gostei mesmo. Obrigada pela partilha Zé, valeu. Beijos grandes, tb gosto muito de ti. És fixe.

  3. A pascoa para mim era diferente, ia para outra aldeia da minha avó madrasta, onde tínhamos 2 casas, e ai, era irmos jantar a casa de um primo, com o padre e a comitiva, depois íamos a correr para a casa da minha avó, para recebermos a cruz, e depois íamos a correr para a outra casa para voltarmos a receber a cruz, e depois ainda íamos a correr para Viseu para receber a cruz…

    Para mim pascoa é sinónimo de amêndoas e corridas!

  4. Pra mim é sinónimo de beijar a cruz em 10 casas seguidas e ir atrás do senhor Padre 😀 e entrar em mais casas. The more, the merrier! Tb é sinónimo de almoço da família com direito a cozido à portuguesa e chouriças de sangue de Monção. BEM BOM!

  5. É verdade, minha linda, Portugal tem destas coisas maravilhosas, e depois também há um lado B… O meu foi um olhar de menina de cidade, um bocado romantizado, sem focar essa realidade mais dura de que muito bem falas 🙂

    ADORO o Norte de Portugal (e olha que sou do mais Sul que pode haver) e sobretudo do teu Minho e das suas gentes :)) Tenho pena de não conhecer melhor, mas vai haver mais oportunidades.

    Ah, e também tenho esse desejo de ver desfolhadas!! Quem não se lembra das Pupilas do Senhor Reitor? Lindo! Quem me dera assistir a tudo isso, eu pensava que já não se faziam…
    Mts bjnhs!!

  6. O Norte de PT é tão vasto e tão diferente. Do Douro pro Minho muda tudo e são só 50 kms de diferença 🙂 E Trás-os-Montes então? E a serra da Peneda-Gerês inclui o Soajo e Castro Laboreiro. Recomendo-te vivamente, um fim de semana mais prolongado, é espectacular e barato!
    Não sei se ainda se fazem desfolhadas, mas as Pupilas do Senhor Reitor é um dos livros da minha vida, é a parte de menina romântica da cidade lol tal como tu. Eu sempre vivi em betão…
    Beijocas!

  7. este post só me vem trazer à memória milhões de lembranças… como minhota, acho que o Minho é naturalmente a região mais rica a nível do país, ao nível da cultura e das tradições:)

  8. O Minho é, sem sombra de dúvida, a região mais bonita do país. E olha que conheço o nosso país de ponta a ponta (sou uma sortuda).
    O Gerês deixa-me sem fôlego de cada vez que lá vou. É uma coisa sem expressão. Ponte de Lima conheço bem bem. Foi a minha moradia durante longos anos e às Feiras Novas não faltava nenhuma. Afinal Limiano que se preze nem pensa em faltar. Melgaço é a terra de duas grandes amigas. Vou lá muitas vezes mas acho que está muito subdesenvolvido. Tem é um vinho maravilhoso. Ai Alvarinho do meu coração.

    Pronto e era isto. Sabe bem recordar Portugal. Acho que desde que estou fora do país dou muito mais valor às coisas boas e belas que lá temos.

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