e não é. A Carla (chamemos-lhe assim) não fazia Candeia mas vivia numa das Instituições onde viviam algumas participantes dos nossos Campos. Não sei o que aconteceu aos Pais dela, nunca entendi muito bem, mas sei que ela tinha uma irmã que vivia em Braga. A Carla também era de Braga mas vivia em Lisboa. Ela não gostava de ter 16, dizia sempre que tinha quase 18 e reforçava que só lhe faltava um ano e meio. Como muitas adolescentes queria crescer muito depressa. Gostava de sair à noite e ir às compras. Dormia muito. Não gostava das aulas, achava que era betinha e que não precisava de estudar pra nada. Tudo era uma seca, os Profs eram todos uns idiotas, ela gostava era de sair até às tantas, se a deixassem, até às quatro. E queria ter só roupa de marca porque senão era pelintra, e ela não era uma qualquer. Nem sequer lavava a loiça e não sabia cozinhar porque ia ter uma empregada.
Passado um ano a Carla fugiu da Instituição e foi viver pra casa da irmã. Como o cunhado estava desempregado e a irmã tinha um bébé pequeno e a única coisa que a Carla fazia era roçar o rabo pelos sofás da casa e sair à noite, como é óbvio, passado muito poucos meses foi posta fora de casa. Voltou pra Lisboa. Foi viver com uma uma amiga. A Mãe da amiga despachou a Carla passado 15 dias. Foi viver com outra amiga. Foi despachada novamente. Não tinha emprego nem fazia esforço para arranjar. O dinheiro? Pedia-se emprestado. Ela era “in/cool” porque saía à noite e porque consumia cocaína e aproveitava uma noite inteirinha, non-stop. Já tinha 18 anos e podia ser dona do nariz dela! Foi posta fora pela outra amiga. E pela outra. Acabou a dormir na rua. Mas precisava de coca. E de um tecto. E era bonita. E não podia trabalhar porque o dia era para dormir. E não tinha quem a ajudasse, e não queria sequer saber de estudar porque ela era bonita, e tinha estilo. Ia arranjar um tipo com papel que a sustentasse. Mas o tipo não aparecia, eram todos uns escroques, e precisava de dinheiro … por isso começou a prostituir-se. E até hoje.
Não sei se a vou reconhecer quando passar por ela, mas não deve andar longe da zona de Santos e do Cais do Sodré. Lembrei-me dela quando vi este vídeo. Tudo tão real, e tão perto.

Que história do caneco. Sabes, isto não é bonito de dizer, e nem eu tenho muitas certezas sobre se será sempre assim, mas às vezes penso que há pessoas para quem não há salvação. Porque não basta haver quem estenda a mão (que nesse casou houve), é preciso saber agarrar essa mão. Não sei que tragédias da sua vida pessoal a levaram a ser assim, a preferir viveer numa fantasia irrealista que a fez cair, mas tenho pena, tanta pena. E não deixo de imaginar que houvera quem a "agarrasse" quando era pequenita e talvez a sua história fosse diferente.
FODAS! e não tenho mais palavras para dizer o que sinto!
Até pq viste isto de perto, não é? Pois.
A história é terrível, a música e o vídeo lindos. Creio, como a Izzie, que há pessoas para quem a salvação ou vem muito cedo ou vem tarde de mais e não há mão estendida que os tire do buraco. E é tão triste.
Não sei se gostei mais do filme, da música ou do texto. No fundo acho que combinam na perfeição. A história que contaste acho que já todos nós assistimos. Uns de mais perto, outros mais de longe, mas poucos são os que fazem alguma coisa para mudá-la. Admiro quem tem a força e a coragem para o fazer.
Goldie, eu acredito que se devia tirar as crianças aos Pais e ÀS FAMÍLIAS incompetentes, como se faz no Canadá.
Water, o texto é puro e duro o que se passou. Eu não fiz nada para ajudar a miúda, apenas a conheci porque era amiga de outras. E posso-te dizer de coração que era uma fedelha mimada e insuportável, com um feitiozinho de m…, e que vive na cova que escavou para ela mesma. Também te digo que largar um vício, seja ele qual for (eu fumo tabaco), é duro. Muito mais duro se não tiveres princípios, valores, algo a que te segurar. E se ninguém lhos transmitiu quando era pequena, não é de grande que isso vai acontecer. Embora não gostasse da miúda (detesto gente interesseira e chica-esperta) não lhe desejei nunca tal destino, e infelizmente sei que vai acabar por arrumar carros e eventualmente morrer de overdose algum dia.