As despedidas são difíceis

Hoje faleceu a minha Tia Zé, aos 51 anos de idade. Nestas alturas apetece dizer que Deus não sabe, que não é justo, que se houvesse um Deus não deixava que alguém tão novo fosse roubado aos que os amam.
A puta da doença do século levou-no-la tão cedo e a minha raiva e revolta vai toda para essa doença cabra que ceifa sem dar hipótese. A medicina evoluiu, a investigação acelerou, mas não o suficiente. E agora resta esperar que a minha Tia Zé esteja em paz, que a sua alma vogue descansada por entre prados verdes e céu azul e que tenha levado no coração a certeza de que gostávamos muito dela.
A minha Tia foi para casa dos meus Pais quando era adolescente, devia ter uns 19 anos. A minha Avó também faleceu muito cedo aos 49 anos e com a mesma doença que levou a minha Tia. Ela devia ter uns 9 anos na altura. Quando o meu avô faleceu há uns bons 30 anos já a Zezinha vivia connosco, era a irmã mais nova do meu Pai. Eu tinha 3 ou 4 anos e dividia o quarto com ela. O meu irmão tinha nascido há pouco tempo e a Tia não gostava de mudar fraldas porque o cheiro lhe dava vómitos. Usava uma fralda atada à cabeça, por cima do nariz enquanto aguentava as arcadas. Afinal sempre queriam ver como é que ela ia fazer quando fosse dos filhos dela! Ela safou-se, mas nunca mais se livrou da fama.
Ela fumou durante muitos anos, SG Ventil, o que deixava a minha Mãe anti-tabagista ferrenha doida. Todas as noites ia pra janela à noite fumar o seu cigarrinho. Eu fugia e ia ter com ela e pendurada numa cadeira punha-me ao lado e pedia-lhe só uma passinha. E ela dava-me cigarros de chocolate e dizia: só destes! E eu fazia como os sapos e usava o frio pra tentar fazer aquelas rodinhas que ela fazia no ar. Aqueles aros tão perfeitos, de vários tamanhos e que continuavam a circular durante muito tempo.
Tínhamos uma cama daquelas estilo beliche, que ficava como um sofá, daquelas que tem uma gaveta por baixo de onde sai outra cama. Eu dormia em baixo e ela em cima, meia encolhida porque a cama era pequena. Ela dava-me a mão pra eu adormecer e às vezes lá conseguia meter-me na cama com ela. Era tão fixe. Convém dizer que a minha Tia ficava encolhida na cama porque era um poste, tinha quase um metro e oitenta. Usava o cabelo como a Lady Di, a musa de todas as miúdas da idade dela e saias compridas tal e qual o figurino, porque era magra e tudo lhe ficava bem por ela ser tão grande. Como era muito mais alta que as amigas todas, sempre que ouvia que a mulher e a sardinha se queria da mais pequenina respondia abespinhada que não senhora! a mulher e a pescada quer-se é da mais alongada. O certo é que apesar de alta comó caraças conseguiu arranjar um marido tão alto como ela, e toda contente e apaixonada casou aos 23 anos. O meu Tio tinha um Citroen boca de sapo, vinha ter com ela quase todos os dias e às vezes íamos ao café em frente à nossa casa, o café in da moda. Nós também tínhamos que ir para garantir que a minha Tia se “portava bem” e fugíamos pra nos sentarmos nas escadas do café a comer os sugus com que eles nos subornavam sempre que os víamos aos beijinhos.
Quando casou fomos com ela a Espanha escolher um vestido à Pronovias que o meu Pai lhe ofereceu todo contente e a Zé parecia mesmo uma princesa. Eu fui menina das alianças juntamente com a minha prima Natália. O casamento foi muito bonito, na quinta da Prima Gi, que tinha um coreto e tudo. A Prima Gi com quem ela viveu depois da minha Avó morrer, e que era uma senhora toda fina e que achava que a minha Tia tinha pés muito grandes e por isso devia usar sapatos dois números abaixo do dela. Deu cabo dos dedos por causa das peneiras. A Prima Gi que ficava fula porque a minha Tia atirava os rebuçados (tão caros que as visitas traziam, oh valha-te Deus Zezinha, que vergonha) ao ar e gritava: chuuuuuuva! A Prima Gi que tinha o maior nariz que já conheci e que era solteiríssima da silva e podre de rica. A Prima Gi que foi uma Mãe pra minha Tia Zé e que achava que ela tinha que aprender a tocar piano e a falar francês, casar cedo e bem. A Prima Gi que era uma senhora, mesmo vivendo na aldeia e que ainda hoje me faz lembrar os romances do Eça. A Prima Gi que era uma das maiores figuras da Vila de Melgaço e morreu velhinha e cheia de dignidade.
Depois de casar a Tia Zé ainda viveu em Braga uns anos, tinha um apartamento grande ali nas Piscinas, com um terraço onde o meu primo mais velho mandou uns valentes tralhos. O puto tinha uma cabeça dura que eu sei lá e era um terrorista e ainda hoje é a cara do Pai cuspida e escarrada. Lembro-me que um dia mandou uma cabeçada numa mesa de vidro que se estilhaçou e ele teve só um galo, ou será que foi nessa altura em que fez a bela cicatriz que ainda hoje tem na sobrancelha? O que sei é que ainda hoje não sabemos como é que ele sobreviveu a ele próprio. Depois mudaram-se pro Porto e encomendaram o meu primo mais novo, que é igualzinho a nós curiosamente, os mesmos olhos, as mesmas sobrancelhas grossas, o mesmo cabelo basto e prontinho a ficar branco. A maior diferença entre os meus primos e nós é que eles são enormes, um tem um metro e 85 e o outro um metro e 88. Saem ambos ao lado do meu Pai e da minha Tia. O que significa que um dia, se me der uma travadinha e tiver crianças, é bem possível que a criança venha a ser um adulto altíssimo e há a hipótese do Pai da criança pensar que o traí.
Os meus primos são agora dois homens adultos, um tem 22 e o outro 28. Viajam muito como os primos mais velhos, são bons alunos, um deles vive em Angola, e são bem o orgulho de Pai e Mãe. Miúdos à maneira, educados e bem-dispostos.
Por circunstâncias da vida (algumas delas alheias à minha vontade), aí desde os meus 18-20 anos, nunca mais passamos o Natal juntos, nunca mais visitei a minha Tia, nem os meus primos e os telefonemas escassearam de dia pra dia. O egoísmo duma adolescente e a falta de comunicação familiar deram cabo duma relação Tia-Sobrinha que sempre foi boa independentemente das chatices de família.
Por sorte, e porque o meu Primo mais novo é um miúdo mesmo espectacular e me avisou, pude ir na terça-feira ao Hospital visitar a minha Tia e despedir-me dela. Chorei que me fartei, fiquei com duas batatas em vez de olhos e uma telha descomunal. Mas pude pedir-lhe desculpas pela ausência e sei que a minha Tia me perdoou. Infelizmente nunca vou conseguir devolver-lhe dias como a minha Benção das Fitas, o dia em que recebi o meu primeiro salário ou o dia em que me meti num avião e emigrei. Dias especiais em que eu sei que ela ia ter gostado de estar presente e que nunca mais vou a tempo de lhos devolver.
Tenho noção que possivelmente não poderia ter feito muito mais do que o que fiz, mas tenho muita pena que assim tenha sido.
Resta-me a consolação de lhe ter podido dizer que toda a gente me diz que sou igualzinha a ela, salvo os 3 palmos de altura que nos separam; e ainda de lhe ter dito podido dizer: e sou igual a ti com muito orgulho!
Gosto mesmo muito de ti Tia Zé.
Descansa em paz.

Deixar uma resposta