A confirmar o meu post pre-ferias, esta semana e meia em Portugal soube-me a pouco e confirmou as minhas previsoes: e’ cada vez mais dificil voltar atras.
Entenda-se: nao e’ dificil voltar para Portugal, e’ dificil sim voltar pra um ritmo que ja nao e’ o meu, pra um suportar “histoico” ou cobarde de situacoes que se apresentam diariamente e que eu ja nao consigo nem quero engolir.
Nao admito que me liguem por motivos profissionais depois das 19:30 e nao tolero de modo algum ou a chefe algum que se sinta no direito de dispor da minha vida pessoal, como se o facto de eu receber um salario fosse sinonimo de disponibilidade completa 24×24.
Posto isto, and pardon my french,estou fodida. Porque a mentalidade nao muda.
A austeridade nao me assusta. Da-me calafrios. Chorei de emocao quando vi milhares de pessoas pelas ruas a clamar o fim de uma politica que nos vai levar a miseria. Chorei porque nao houve um unico dos meus amigos esta semana que nao me tenha dito que esta a fazer esforcos concretos para emigrar e zarpar noutra nau pra bem longe.Chorei porque esses mesmos amigos sairam a rua pra mostrar que nao querem partir: estao a ser obrigados a faze-lo.
Nao me lembro de ter o coracao tao pesado como neste voo de regresso, talvez apenas e so no primeiro voo que fiz quando vim pra ca viver.
Sinto-me uma ratazana em debandada dum navio a afundar. E sinto-me assim porque nunca vi tanta loja fechada, tanto predio abandonado, tanto controle de contas e custos em minha propria casa, tanta desilusao no rosto dos mais animados. Senti nitidamente que meter-me num aviao para regressar ao meu terreno seguro era um enorme acto de cobardia, nao de valentia. E eu que sempre achei que era “uma gaja com tomates”. Que belissima desilusao que eu me sai.

O meu contrato não me obriga a tal, mas eu estou disponível 24×7 para a minha empresa.
Não me importo de ficar a trabalhar até às tantas, de trabalhar em casa à noite ou ao fim de semana. Tenho colegas que não o fazem, mas eu faço-o porque gosto do meu trabalho, quero ser boa no que faço, quero crescer cada vez mais e, como vejo aqueles com quem eu trabalho mais diretamente (colegas de equipa, chefia) a fazer o mesmo, não me custa nada!
Na empresa em que estou é habitual esta cultura de trabalhar mais horas que as acordadas. Há quem concorde e assim faça, há quem discorde e não o faz, e há aqueles que ficam a fazer horas porque passam o dia a "coçá-los".
Ninguém é obrigado a sair mais tarde, ou a ter o telemóvel disponível depois de sair, etc… Mas eu não vejo problema nenhum nisso!
A minha forma de garantir o meu futuro (pelo menos o próximo) é dar o meu máximo no local de trabalho! Foi assim que cheguei onde cheguei e é assim que eu vou continuar a agir.
O meu patrão é polémico em muitas das suas afirmações mas a realidade é que os tempos não estão para brincadeiras e temos que dar o litro, em vez de perder tempo a pensar que somos uns coitadinhos que, se queremos ter um bom futuro, temos que nos esfolar a trabalhar…
Por exemplo, se fosses vítima de violência doméstica (bate na madeira!), se o gajo te tratasse mal e te desse sinais de que não te quer por perto, ires embora seria um acto de valentia e inteligência ou cobardia?
Miúda, ires de volta para o teu terreno seguro não é sinónimo de cobardia. Ficares por cá era sinónimo de estupidez, por ti e pelos outros. Como viste não há empregos, não há segurança. Infelizmente quem sai melhora as suas possibilidades e as dos outros.
Posso estar a ser um pouco cruel, mas esta é a verdade.
E senti imenso orgulho no sábado. E tristeza, porque esta manif mostrou o quanto isto está mal…
A manif tb me deixou de lágrimas nos olhos e cheia de nós na garganta que ainda estou a "desatar". Custa muito ver a nossa gente a sofrer e sem saber que futuro pode dar aos filhos, sem ter meios para os ajudar, nem para se ajudar. Não é cobardia Sofia, é a vida e ela tem de andar para a frente. Só assim conseguiremos encontrar uma solução para isto. Vai melhorar. Tem de melhorar. Tenho a certeza. grd bj
🙂 Mas a mim não me trataram propriamente mal. Estariam a tratar agora, isso sim. Boa analogia.
Cafeina, eu gosto muito do que faço mas gosto ainda mais da vida que tenho fora do trabalho. Gosto de poder aprender outras coisas com as certificações que faço, gosto de poder estudar línguas, gosto de fazer uma porradona de coisas que não passam pelo meu trabalho. Já disse aqui uma vez que há coisas que vêm com a idade e uma delas é entenderes que o teu futuro passa pelo teu local de trabalho até a determinado nível, pq acredita que no dia em que entenderes que és só mais um número vais perceber que para tudo há um equilíbrio. Eu esfolo-me a trabalhar mas não dou o direito a chefe ALGUM, a crise nenhuma o facto de me retirarem tempo aos que amo e que se vão sem me verem pq eu estou demasiado empenhada em fazer o dinheiro de 3 ou 4 accionistas crescer! Um dia vais entender que se pode fazer IMENSO em 8 horas se o teu chefe nao for um chulo fdp que tem uma pessoa a fazer o trabalho de 3.
Patrícia, que possibilidades dos outros estou eu a melhorar?
Eu fiquei muito orgulhosa de quem veio pra rua. Fiquei imensamente triste pq as coisas estão más em todo o lado, e não se iludam, q nao Holanda não é diferente, só está mais fácil pq eu não entendo as notícias 🙂
Ritinha, nós estudamos tanto, os nossos Pais deram tanto o litro pra nos verem crescer e aos netos, pq diabo temos nós que estar tão longe.
TEM que melhorar. Não sei como, mas tem. Pra mim a solução passa, e é a primeira vez que digo isto, por mandar a união europeia dar uma enormíssima volta. Mas isso sou eu, que ainda estou a quente e que ainda me custa não estar por perto pra ajudar outros. Um grande beijinho pra ti.
Não interessa para o caso se o meu chefe é um chulo fdp ou não. São opiniões e eu discordo totalmente.
Eu sei que se pode fazer imenso em 8 horas… Não precisei de aprender isso porque é algo que já está incutido na minha maneira de ser! E faço imenso em 8 horas. Mas quero fazer mais, logo, faço mais horas! Não sou das que coça durante o dia e fica até tarde para inglês ver.
E mesmo fazendo mais horas também tenho tempo para tudo o resto! Para a família, amigos, para mim e para investir e alargar os meus conhecimentos (que quase não preciso de fazer isto por minha iniciativa uma vez que a empresa me facilita muito a vida neste aspeto).
E depois claro, tenho as férias e outras facilidades que a empresa dá a quem lá consegue chegar.
Só quem não quer dar o litro e ficar-se apenas pela mediania é que acha que o seu patrão o põe a fazer o trabalho de 3.
Andorinha, há tão poucos empregos que a luta por eles aqui é horrível.
Olha eu fui à manif e confesso que não esperava tanta gente. Nós, às vezes, reclamamos muito mas agimos pouco. E desta vez muita gente saiu à rua.
Mas estou cada vez mais desiludida com este país…
Andorinha, não te podes sentir mal por não quereres voltar atrás. Concordo inteiramente quando dizes que a vida não é só trabalho. E, infelizmente por aqui, o que nos pedem é que, apesar de todos os sacrifícios, cortes e roubos descarados, continuemos a dar o nosso melhor. Eu dou-o, mas com limites. Não sou escrava de ninguém e continuo a achar que quando trabalhamos para uma coisa e não no-la dão, então não podem querer que produzamos o mesmo. E esta mentalidade tem de mudar, temos de tratar de nós enquanto seres humanos e não como máquinas de trabalho.
Não fui à Manif porque fui cantar à noite… mas queria ter ido. Tenho a sorte de nunca ter tido que mandar um CV para lado nenhum porque assim que acabei o curso fui convidada a trabalhar na empresa onde estou até hoje, que não é da minha área. Apesar de trabalhar muitas horas e de ter o telemóvel sempre ligado sei que a minha empresa não tem possibilidade de me pagar mais do que o meu ordenado actual que chega a meio do mês já contado para não haver riscos… Estudei muitos anos a ouvir dizer que só teria lugar no mercado de trabalho se fosse muito boa. Esforcei-me muito para isso, mas mesmo assim, mesmo com um estágio exemplar não tive lugar na minha área de especialização e tive que aprender tudo do zero sobre a área para onde vim trabalhar. Achei que ia ser por pouco tempo e que ia ter trabalho naquilo que realmente gosto de fazer. Não tive. Nem eu, nem a quase totalidade dos meus colegas de curso. Trabalhamos quase todos noutras coisas e ganhamos quase todos igualmente mal. Os meus pais, que sempre foram um exemplo de entrega profissional, estão, neste momento (entre baixa de salário e aumento de despesas) a ganhar quase metade do que ganhavam há 10 anos. E eu não quero viver mais cinco a fazer uma coisa que não me faz particularmente feliz e que me dá o rendimento básico para viver! Amo o meu país, mas também gosto muito de mim… e… há que fazer escolhas… Tenho metade dos meus amigos fora, por isso, começo a ter poucas coisas a prender-me cá…
Eu tenho dado por mim a sentir-me culpada por comprar um trapo qualquer, por o poder fazer e isso é completamente estúpido. Vou ao supermercado e penso nas pessoas em Portugal que estão a contar os trocos para os bens essenciais e eu compro um queijo caro. Parece parvo mas é o que me tem acontecido. E depois, tenho algumas vezes pena de mim que não vou voltar tão cedo ao meu País quando isto de ser emigrante era uma coisa a curtíssimo prazo, por mim e pela minha família a quem não falta nada mas a quem eu não quero que no futuro falta alguma coisa e eu aqui ganho bem para mim e para eles se for preciso. Pff.
Olá Andorinha,
Fizeste o que devias fazer. Aqui é o teu país, mas aí está a tua casa, o teu trabalho, as tuas coisas, ter trabalho e boas condições de vida, não se pode desperdiçar. É de facto muito triste o que se está a passar aqui, felizmente acordámos, mas não vejo como é que vamos sair disto. Revolta saber que todos os dias há mais desempregados, mais pessoas que perderam a sua casa, que as listas de pedidos de ajuda a instituições de solidariedade está sempre a aumentar. Por isso fui para a rua, e voltarei sempre que for preciso, não o fazia desde a questão de Timor. Temos de ter esperança, diz-se numa situação destas.
Bjs
Não te vejo como uma pessoa que está a abandonar o barco porque fizeste uma opção profissional numa fase em que não havia esta debandada por necessidade…E percebo esse nó na "alma" porque viste como estamos a caminhar para um afunilamento do nosso futuro, muito bem comportadinhos até sábado. Nesse dia, eu e muitos milhares, sem cartazes partidários e com muitos papéis manuscritos ao alto, mostrámos que podemos ser espremidos mas que não gostamos mesmo nada! Alguém nos dará importância? Pelo menos lavámos a alma…Um abraço!
Não sei quantos anos tens, mas pareces-me rookie 🙂 Se não és novinha e em início de carreira (os primeiros 5 anos), então és workahoolic e eventualmente vais entender um dia as minhas palavras. No dia em que deres o berro.
Cafeína: I've been there, I've done that. Já pensei como tu. Hoje em dia que conheço outra realidade e sei que há mais. Um dia vais entender, espero. Eu nunca fui mediana nem nunca me quis ficar pela mediania, mas fiz (e faço efectivamente) o trabalho de 3 porque tenho uma capacidade de trabalho anormal. Mas o facto de a ter, não significa que eu hoje em dia entenda que os chefes e as facilidades que a minha empresa me dão seja um benesse. São um direito. Ninguém te está a fazer um favor. Tu é que estás a fazer um favor aos outros. Por muito bons chefes que sejam.