Normalmente vejo um episódio (ou meio) duma série Portuguesa enquanto almoço, invariavelmente “O Depois do Adeus” ou o “Bem-vindos a Beirais”.
Hoje foi a vez do Depois do Adeus e com as pressas não reparei que era o último episódio da série. Estava escrito no canto esquerdo superior, mas não liguei.
Na altura em que estão todos à porta do Kuanza a seguir ao baptizado e o miúdo os filma um a um arrepiei-me inteirinha.
Estavam ali tantas recordações associadas aos sorrisos, aos penteados, às roupas, aos bigodes, que de repente vi os meus Pais, os amigos do meu Pai do Banco, as clientes da minha Mãe, familiares que viveram connosco quando eu nasci, a minha Tia Zé, os filhos dos amigos, tudo. O Senhor Ilídio, a Dona Fernanda, o Victor, o Barricas, o Zé Miguel, a Dona Camilinha que me fazia as roupas de carnaval exactamente como as sonhei e de quem herdei uma caixa de costura encastoada com marfim, o Senhor Loures e a Dona Olímpia, que tinham uma loja de roupas de desporto que eu pensava que se chamava Le Coq Sportif (algum dia eu sabia que era uma marca!), a Dona Maria e o Senhor Fernando que foram donos da Loja Sete Anões por baixo da minha casa durante 36 anos. Todos eles vieram de África, todos retornados, todos na casa dos 30, 35 nessa altura. Cheios de dificuldades, a começar do zero, a querer educar os filhos, todos iguais àquele grupo que aparece em frente ao Kuanza.
Desse momento pra frente até lágrimas me vieram aos olhos. Não porque fosse o último episódio, mas porque esta série além de estar brilhantemente bem escrita e ter um elenco maravilhoso, era tão, mas TÃO real.
Quem quiser ver o último episódio, quem for filho de Retornados como eu e quiser saber mais sobre o que terá sido a vida dos nossos Pais quando chegaram de Luanda e de Maputo, fica aqui o link:
http://www.rtp.pt/play/p1035/e124681/depois-do-adeus-2013
E já agora, estava a ver que me lembrava do Carlos Lopes a ganhar a medalha de ouro, mas depois reparei que em Junho de 1976 eu ainda nem era nascida! Afinal foi quando ele ganhou a primeira medalha Olímpica de Portugal! Ufa!

Sim? Entao tens de ler «O Retorno» de Dulce Maria Cardoso. Maravilhoso!
Bjs
Marta
A Sãozinha tb mo recomendou, tenho que lhe deitar a mão, mas agora tenho tanto que ler…qdo puder ataco-o, até pq honestamente o meu coração até fica pequenino qdo revejo estas coisas todas. Os meus Pais não gostam de falar sobre isso, mas passaram as passinhas do Algarve! beijos boneca
Vou ver de certeza, também pertenço a essa 'raça de gente' 😉
E também gostei muito d'"O retorno", mas também do "Caderno de Memórias Coloniais" da Isabela Figueiredo.
És capaz de te lembrar do Carlos Lopes, sim. Ele ganhou a maratona em LA em 1984, não em 76.
Toda a família da minha mãe veio de Angola e também cresci a ouvir histórias desses anos. Todas as minhas referências de infância são de sítios onde nunca estive, de uma vida que nunca conheci. Memórias felizes e memórias terríveis, da altura de partir. Quando essa série começou queria muito ver, vi o primeiro episódio e custou-me tanto "ver" o sofrimento do qual eu sempre tinha ouvido falar, que acabei por não ver o resto, ainda. Mas hei-de ver.
Tenho que ver essa série e ler estes livros que recomendam aqui pelos comentários. Sou também o produto de Retornados que voltaram a Portugal vindos de Moçambique e sei muito bem o que é falar de uma vida e lugares que nunca conheci… sempre senti afinidade com outros filhos de retornados pq acho que crescemos todos a ouvir histórias parecidas… saudades do clima e da vida de África, o contacto com gentes de vários países e raças, o início de vida (no caso dos meus pais) e a independência da casa dos pais, os primeiros filhos, tudo numa terra que era a sua casa e de onde não imaginavam partir (o meu pai já era a 3 geração em África). Para quem estava de fora achava sempre tudo muito snob, falar de idas à África do Sul, o estilo de vida muito descontraído… não é por acaso que os melhores amigos dos meus pais e as pessoas que consideramos família são outros retornados de Moçambique, África do Sul, Zimbabwe e Angola.
Não sou filho de retornados, mas em todos os episódios tive vontade de chorar, e sempre me arrepiei.
Adorei a série, de fio a pavio.
Esta e o Conta-me como foi.
Mesmo não tendo tido contacto directo com a realidade retratada nesta série, vivi muito do que é retratado e tenho algumas memórias. Muito se passou e foi bom que tenham feito esta série.
Parece que não, mas foi há quase 40 anos que se deu o 25 de Abril. Os meus Pais regressaram de Angola pra Braga, mas o meu Pai só arranjou emprego em Lisboa, na Casa da Sorte 🙂 e vivia numa pensão duma Senhora de Melgaço que era peixeira, comia lindamente todos os dias. Vinha ao fim de semana a casa, imagino que não todos, e levava bacalhau (demolhado, que era pra pesar mais) pra vender aos colegas de Lisboa :)) Os meus Pais venderam quadros, pratos, papel de parede, tudo porta a porta, e a minha Mãe montou um cabeleireiro dentro de casa que funcionou até eu ter uns 5 anos, momento em que comprou duas lojas no Centro Comercial que fizeram do outro lado da rua.
Esta série acaba com o moço a abrir a loja dele, a ter o negócio dele. Foi um deja-vu grande pra mim. Gostei muito.
Estas séries, quando são tão bem feitas, explicam muito. Beijinhos!
Eu não vi esta série toda, mas uma boa parte dela está no RTP Play, tenho que a ver em condições.
Acho que esta e no conta-me como foi, se apela ao saudosismo Português, mas acima de tudo a uma época em que havia muita juventude com muita esperança, com muita força, sabes? Gente com vontade de crescer, gente a quem as coisas não foram dadas de mão beijada, gente que nos formou a nós como florzinhas de estufa pq prometeu que nunca nos havia de faltar nada.
Amalia, tens que ver que os melhores amigos sao forjados nas dificuldades, não é nas facilidades 🙂
Os meus vizinhos de cima vieram de Moçambique, a Dona Túlia e o Senhor Viriato 🙂 E a Mãe da Dona Túlia era Moçambicana, notava-se até pq era assim meia indiana, os Moçambicanos têm um tom de pele lindíssimo e têm mta influência da Índia. Adiante, o que eu queria dizer é que eu tenho a teoria de que os filhos dos retornados cresceram a ver os Pais esfolarem-se todos pra conseguirem por comida na mesa e são mto mais desenrascados e desenraizados, não sei se estás de acordo. Tenho mtos amigos que vivem cá que não são filhos de retornados, mas reconheço mto bem a diferença na motivação e na vivência daqueles que são filhos de retornados. Queremos mundo, queremos viver noutros sítios! Os outros (não todos atenção!) querem dinheiro.
Faz como eu, vê o último episódio 🙂 Eu tb não vi a série toda pq me custava um bocado.
A minha Mãe antigamente falava mto de África e tínhamos muitas coisas em casa vindas de África (Angola). Com o passar dos anos ficou só a frase "isso é como em África"! A minha Mãe cada vez que vê as nossas fotos das férias, seja da Indonésia, seja da Croácia, com quanto que haja praia e coqueiros: isso é como em África, pff, já vi, não sei pra que te metes num avião pra ver isso.
Como se o facto de ela ter visto quisesse dizer que tooodos nós já vimos.
O certo é que, com tanto País que já visitei, ainda não fui a África. Toda a gente diz que quem vai é uma ida sem retorno, que África é diferente. Está na minha lista, mas primeiro vou "lamber a Ásia" 😉
Vê este episódio, vais ver que gostas, é mto feliz 🙂
Obrigada Tiaguinho, eu estava a ver que estava a ficar xalupa de tanta repetição ter visto em pequena! 😉
Mais um pra lista! E lê o que eu escrevi lá em baixo sobre os filhos dos retornados:eu tenho a teoria de que os filhos dos retornados cresceram a ver os Pais esfolarem-se todos pra conseguirem por comida na mesa e são mto mais desenrascados e desenraizados, não sei se estás de acordo. Tenho mtos amigos que vivem cá que não são filhos de retornados, mas reconheço mto bem a diferença na motivação e na vivência daqueles que são filhos de retornados. Queremos mundo, queremos viver noutros sítios! Os outros (não todos atenção!) querem dinheiro.
O meu pai foi taxista em Luanda e a minha mãe "abriu" o primeiro pão de açúcar tb em Luanda. Era uma das caixas e tenho uma fotografia dela nesse dia, com as colegas todas orgulhosas :). Os meus pais vieram em fuga de Luanda, com uma bébe de 1 ano (a minha irmã), voltaram para Lisboa sem nada e foram realojados num bairro na margem sul, onde as paredes das casas ainda estavam em tijolos e não tinham água nem eletricidade. A minha mãe conta que chorou muito qd queria dar banho à minha irmã e tinha de ir buscar a água ao carros dos bombeiros que vinha de vez em quando. Foi uma regressão na vida que tinham em Luanda. Não eram ricos mas viviam confortavelmente e eram felizes. Eu já nasci em portugal e ouvi muitas vezes os meus pais a falarem da maravilha que foi viverem em Luanda. Vivi as dificuldades com eles e aprendi a "desenrascar-me" em muitas situações. Não tomo nada como garantido e estou sempre a pensar em possíveis alternativas. No entanto vivo para o momento e não ando a poupar para uma casa em portugal ou para uma possível necessidade, isto porque não sabes mesmo o dia de amanhã e mais vale aproveitares agora, já que podes perder tudo num dia e ter de começar do zero, como os meus pais. Também sinto diferença entre os filhos de retornados. Topamo-nos à distância. 😉
A minha mãe costuma dizer que não é retornada, é "entornada" porque nasceu lá e odiava a palavra (quem não odeia?). Ela recusa-se a ler/ver qualquer coisa relacionada… dói-lhe demais. Espero nunca ter de abandonar o meu país.