O trecolho (com cedilha)

Na quinta-feira senti uma ligeira irritacão no olho, na sexta não melhorou e inchou um bocadinho, mas mesmo assim fui dancar Salsa e rir-me desmesuradamente com a Ana e o David em Harlem. Os personagens que lá vi foram absolutamente hilariantes. Em Portugal, nem podres de bêbados estariam com tão boa disposicão!Conheci pessoas da China, do Irão, Holandeses e principalmente vi uma amizade a três cada vez mais consolidada e o mesmo sentimento de me sentir em casa com estes dois “caramelos vs anjos” caídos do céu durante a minha estadia.

Sábado o olho estava muito mais inchado, mas como boa Tuga tinha metido medicacão na mala e achei que me ia safar. Eu tinha enfiado na cabeca que havia de fazer um extreme makeover da minha casa e retirar das paredes as pirosadas que a minha Senhoria por cá deixou (só para terem ideia, o chaveiro era um quadro duma Sevilhana com folharecos amarelos fluorescentes e que dizia “Recuerdo de Espanã”!
Enfim, a Ana (decoradora demarcada nas horas vagas) pôs-me a casa um verdadeiro espectáculo! E lá fomos as duas pro Prixas e pro Ikea largar uns cobres e depois montar a casa toda. Arrebentadinhas que ficamos, mas muito felizes!


Domingo o meu olho direito parecia uma BATATA
! Veio o período de susto e toca de ver como é que funcionava o seguro. Fiquei PÁLIDA!
Tão liberais são os Holandeses, que permitem que escolhamos o nosso seguro, motivo pelo qual este nem sequer vinha no pacote tal como acontece em todas as empresas internacionais!
A paciente Ana lá entrou no site, fez-me a inscricão e explicou-me o que há para fazer para se ter direito a assistência médica neste País:

1) Ter seguro de saúde
2) Escolher um médico de família (no bairro a que pertencemos, e há milhentos)
3) Inscrever-me numa farmácia

Eu nem queria acreditar!!
Não tinha seguro, e mesmo que o tivesse, só o podia usar caso tivesse um médico de família, ao qual tenho que recorrer primeiro e só depois é que posso ir parar a um especialista, se o Senhor assim achar.
Pelo que ouvi de amigos, as experiências com os médicos de cá são de bradar aos céus. Eles são apologistas de quase nunca receitar medicamentos (desconfio que devem ter mesinhas debaixo das mesas), e de, em caso de gripe por ex., nos mandarem para casa deitar e suar durante 3 dias debaixo das mantas. Quando já não nos conseguirmos mexer, então arrastamo-nos até lá e pode ser que tenhamos direito a qualquer coisinha!
Não ia escolher um médico à toa! Liguei imediatamente para uma portuguesa que tinha vivido na mesma rua que eu 5 anos e pensei, a A. deve ter corrido os médicos todos em 5 anos, deve saber um decente!
E voilá, o meu instinto nunca falha, e lá me mandou pro Dr. Khoe, e na segunda lá fui eu à consulta.

Fui atendida uma hora depois (não tinha marcacão), e em 3 minutos de consulta tava diagnosticado o trecolho e lá vim eu pra farmácia inscrever-me e comprar o antibiótico pró olho. Como não tinha seguro (para grande espanto da Sra. da Farmácia…imaginem a fúria que não tinha eu!), tive que arrotar o preco completo, mas pronto, foram 8 euros, e correu bem.

O medicamento é fabuloso e o Dr. está aprovadíssimo!

Grande sorte! Foi a resposta de TODOS os portugueses que cá vivem.
Ontem não via um parafuso do olho direito porque desinchou mas ficou uma coisa epécie de borbulha imensa, e hoje já está mais fino porque a mesma arrebentou.

Para remate fiz questão de ir aos Recursos Humanos de cá onde me disseram com uma naturalidade absoluta que o seguro de saúde é uma escolha de cada um, embora seja obrigatório.
E uma cachaporra na cabeca??? Também será obrigatória!
Fui acompanhada por um colega americano e ambos nos queixamos da recepcão a dois estrangeiros convidados para trabalhar neste País e com tantos anos de casa.
Ficou registada a reclamacão e com uma grande lata disseram que não dispõe de ninguém que possa ajudar os estrangeiros a preencher a papelada……
Respirei fundo 30 vezes, pensei: esta cena já foi resolvida, o olho já está porreiro, mas livrem-se de algum dia eu ser vossa chefe de Recursos Humanos na Europa. Vão levar tantas……………………
Tudo nesta vida vai e volta.
Por isso deixo agora de reclamar e penso que Gracas a Deus a Anocas tava cá p’ra me ajudar como sempre e que Deus é um fixe por me mandar amigos destes!!!
E agradeco também o meu olho já estar bom pra eu voltar a mandar postas e pelo dia de trabalho de hoje que correu lindamente, com toda a gente a ajudar e a gostar da diferenca de abordagem desta portuguesa.
Chamaram-me lufada de ar fresco!

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