Há muitos anos que ouvia falar de Mia Couto mas nunca tinha lido nenhum livro deste Senhor. O modo como escreve envolve-nos como uma manta num sofá num dia de inverno. Sentimo-nos deliciados, confortáveis, sonhadores, transporta-nos. Nunca me tinha sentido assim a ler um livro, transportada para outras “paragens” sim, mas a sensação de estar a amar as frases e as palavras em si como se tivesse sido alcançada por um feitiço, nunca.
Por primeira vez marquei frases num romance, e vou partilha-las com vocês. Quem achar que é um spoiler pode deixar de ler daqui p’ra frente, sim? Obrigadinha.
“-Recordo um sossego que parece, sei lá, parece água.(…)
-Vou dizer uma coisa, nunca mais vou repetir: vocês não podem lembrar nem sonhar nada, meus filhos.
– Mas eu sonho, pai. E Nuntzi se lembra de tanta coisa.
– É tudo mentira. O que vocês sonham fui eu que criei nas vossas cabeças. Entendem?
– Entendo, pai.
– E os que vocês lembram sou eu que acendo nas vossas cabeças.(…)
– Esperas. É isso que a estrada traz. E são as esperas que fazem envelhecer. (…)
– Saudade é esperar que a farinha se refaça em grão.(…)
E entrou. O Tio Aproximado ficou pontapeando as pedras do átrio. A raiva é apenas um modo diverso de chorar. Conservei-me distante, fingindo que arrumava as ferramentas. Ninguém se deve aproximar de um homem que faz de conta que não chora.(…)
Quem quer a eternidade olha o céu, quem quer o momento olha a nuvem.(…)
– As mulheres são como as guerras, fazem os homens ficarem animais.(…)
E penso: a mulher não transporta água; ela traz os rios todos dentro.(…)
O silêncio é uma travessia. Há que ter bagagem para ousar essa viagem. Silvestre, naquele momento, estava vazio. E eu repleto de mágoa e suspeita. Como podia burilar um silêncio, com tanto zumbido na minha cabeça?(…)
Eis a lição que aprendi em Jerusalém:a vida não foi feita pra ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida.(…)
O ensinamento era outro: as palavras podem ser o arco que liga a Morte e a Vida. É por isso que te escrevo. Não há morte, nesta carta. Mas há uma despedida que é um pequeno modo de morrer.(…)”

Este ainda não li. Já li um livro dele (não me lembro do nome), mas lembro-me que gostei. Como o Jorge Amado, a escrita, e as palavras que muitas vezes parecem inventadas, mas que encaixam na perfeição, transportam-nos para o sítio exacto que o autor deseja.
Obrigado pela dica.:)
Aguçaste-me a curiosidade! Também nunca li Mia Couto, mas acho que vou pôr este livro na lista de livros para o Natal… Gracias!
Aguçaste-me a curiosidade! Também nunca li Mia Couto, mas acho que vou pôr este livro na lista de livros para o Natal… Gracias!
Olá Andorinha,
Já tinha estado com esse livro na mão, mas optei na altura por um, do Pepetela, "A Geração da Utopia", que me tinha sido recomendado. Agora o próximo que comprar, depois deste teu post, só pode ser esse do Mia Couto.
Um beijinho e bom fim de semana