
Ao fim de dois anos não me considero douta na matéria, mas revendo as minhas experiências neste País, apraz-se-me dar algumas considerações que serão do interesse em geral, em particular de quem pra cá quer vir viver.
Eu gosto dos holandeses em geral mas embirro com algumas particularidades da Cultura. Não porque a cultura deles seja pior ou melhor que a nossa, é apenas muito diferente. Confesso que quando pra cá vir viver não esperava que o gap fosse tão acentuado. Mas é. Isso no entanto não é mau, pelo contrário, é enriquecedor. Às vezes é irritante, outras angustiante, mas no geral, “levadeiro”.
Pra início de conversa, 89% dos meus colegas são holandeses, 15% belgas e 5% são estrangeiros como eu.
Os holandeses são os Colegas de trabalho mais bem dispostos que já tive. São optimistas, são divertidos, são alegres e riem muito, sabem brincar com as situações, são sérios quando é pra ser sérios e acima de tudo, são profissionais e gostam de o ser.
Não são politicamente correctos, coisa que eu adoro. O que pensam, dizem. Pão, pão, queijo, queijo. Têm sempre, mas sempre uma opinião. Às vezes têm tanta opinião que até chateia, como quando comentam os meus sapatos ou a minha roupa à descarada, em frente de quem seja, e se acham no direito de comentar algo sobre o qual ninguém lhes pediu a dita opinião! Mas não são maldosos, são apenas sinceros.
Não falam mal pelas costas.
Não berram, não são peixeiros. Respeitam o silêncio do ambiente de trabalho.
São organizados e pontuais, são “straight to the point” e não admitem que numa reunião se discutam 500 assuntos paralelos ou se “lave roupa suja”. Isso é feito off-line e entre as duas pessoas em questão. Não há teatros para audiências.
São coscuvilheiros, mas como expliquei antes, são-no duma forma aberta e adoptam sempre a postura do: mas não é da minha conta, por isso não me meto. O que cumprem. Não se metem mesmo.
Falando quer dos meus colegas, quer do senhor que me vem arranjar o telefone a casa, ou da menina do service-desk do prédio, ou ainda do mecânico, refiro o seguinte que é fruto da minha experiência:
Não são pessoas de “solução”. Pra eles, ou está escrito no processo ou a desorientação e o caos chega rapidamente. Isto quando contraposto à cultura Portuguesa do desenrasca, arranja uma solução e tira daqui e põe dali pra manobrar a situação, não funciona lá muito bem. Mexe-lhes com o sistema nervoso. A eles e a nós!
Quando as coisas estão bem escritas e bem definidas, são cumpridores e o que fica feito, fica bem feito. Se o que lhes é pedido lhes for explicado e bem documentado, eles executam primorosamente. Pra fazerem alguma coisa eles têm de concordar com o que estão a fazer. Se entretanto quisermos mudar as regras do jogo pra dar alguma flexibilidade à coisa, se é preciso abrir uma excepção, eles ficam muito stressados! Como a “peça” não encaixa no “puzzle” dizem logo que não funciona. Têm uma checklist pros possíveis problemas que podem acontecer, se o problema que surgiu não está na checklist, não sabem o que fazer. Como Portuguesa confesso que me apetece abaná-los e invariavelmente a minha resposta é: THINK! Juntamente com uma alta carga de nervos.
Ir a uma Instituição Pública pedir uma explicação é um exercício de paciência. Aliás, tudo quando seja serviços nesta terra, seja os serviços institucionais, sejam serviços ao público como restaurantes, bares, turismo, o que seja!, é um exercício de paciência. Se não fizermos a pergunta correctamente não nos sabem responder. Até aqui ainda vai, o busílis vem quando não sabem dar solução à questão e como tal pura e simplesmente nos olham nos olhos e dizem: I really don’t know Mam, and I can’t help you. E é que não ajudam mesmo! Nem tentam! Ou tá nas FAQs, ou não sabem responder. E não tentam ajudar porque é uma perda de tempo e dá trabalho. Eu tenho de ser capaz de encontrar a solução sozinha. Invariavelmente também, isso passa por meter-me no site e traduzir as partes que me interessam e encontrar algo que lhes explique como solucionar a questão. Se não tiver no site e se eles não souberem responder, tenho de repetir tudo desde o início ao Chefe deles. Eu ir falar com o Chefe é tranquilo e: uma perda de tempo. Regra geral o chefe também não vai saber ajudar.
Se eu conseguir apresentar-lhes uma solução, dentro das regras, e que lhes permite solucionar o meu problema, abrem imenso os olhos e dizem-me: OK!! Sure! In that case, we can do it!
A seguir vão esbarrar com o Chefe ao qual têm de explicar o que lhes acabei de dizer, e lá voltam eles a dizer: I’m sorry Mam, it’s not in the book, we can’t do it.
Sinceramente, é EXASPERANTE.
Mas é uma lição aprender como dar-lhes a volta, e fico muito contente porque o tal exercício de paciência ao fim de dois anos deu os seus frutos e agora já não começo a berrar qual peixeira. Respiro fundo e pergunto: any ideas? How can I solve it then?
E às vezes lá vem uma forma by the book, dez vezes mais complicada que a que eu sugeri, que normalmente me faz perder dinheiro, mas que é a que pra eles faz sentido.
Enfim, o truque está em: saber fazer a pergunta. E isso leva tempo a aprendermos.
A nível pessoal, não é fácil fazer um amigo Holandês, tal como em Portugal também não fazemos amigos por dá cá aquela palha nem somos tão abertos quanto gostamos de dizer. Digam-me lá quantos amigos estrangeiros têm no vosso grupo em Portugal? Pois é, bem me parecia: nenhum.
No caso dos Holandeses temos duas situações em que nos podemos encontrar:
1) Conhecemos o Holandês quando ele foi de férias a Portugal. Simpáticos como somos, durante aqueles dias levamo-lo a jantar fora e apresentamo-lo aos nossos amigos. Dependendo da ocasião, até pode vir aos anos do primo ou da Tia e conhece mais umas pessoas. Tudo isto pra nós é corriqueiro, normalíssimo, é mais um pro “molho”, é normal. Mas pra eles é o mais surpreendente que possam sonhar, eles ficam a achar que nós os tratamos como reis/rainhas e que somos o máximo e que somos uns borgas (porque saímos até às 5 ou 7 da manhã) e que somos realmente: a puta da loucura!
Neste caso, quando nos recebem na Holanda, não têm mais o que nos fazer e levam-nos a todos os lados, apresentam-nos os amigos todos, a família, o cão, o gato e o piriquito! Dão-nos de jantar, oferecem-nos a casa, são: DO BEST!
Quem tem amigos Holandeses que conheceram quando viviam em Portugal acham que os Holandeses são o povo mais porreiro, mais descontraído e mais hospitaleiro que já conheceram! Nem sequer se lembram que em Portugal lhes fizeram o mesmo, e assim que eu abro a boca pra dizer uma palha que seja sobre os Holandeses (por exemplo, que são “alérgicos” a guardanapos) saltam-me logo em cima a dizer que eu sou uma mal-agradecida, que eu não conheço Holandeses, que eu vivo cá e só tenho amigos Portugueses, e que assim e que assado.
A minha reacção: deixo a malta a falar sozinha e espero que venham pra cá viver. O resto resolve-se por si só. O bom filho, à casa torna.
2) Conhecemos o Holandês na Holanda: são simpáticos, a casa deles é um santuário familiar, logo só seremos convidados pra um jantar ou festa caso fiquemos meeeeeesmo muito amigos já que serviço é serviço, conhaque é conhaque. Isto eu acho muito bem, pra ser sincera. Qualquer holandês tem uma agenda (pelo menos, quando não tem duas ou 3) que cumpre religiosamente. Espontaneidade: ZERO! Se eu acabar o trabalho às 5 e me apetecer tomar um café, ligo a um Holandês e ele diz-me: vou ver na agenda. Passado 3 segundos diz: olha, posso na próxima quinta-feira!
WTF?!?!?! Nós: mas eu estava a perguntar se querias ir agora! Eles: AGORA??? Nem pensar! Tenho que ir ao ginásio, depois vou lavar o carro, ou vou ter com um amigo, ou…..
A agenda deles é horrorosa. Se marcarmos o café pra próxima 5° feira, estejamos nós com dores de dentes ou dores do período daquelas que mal nos conseguimos arrastar, temos que ir! Faça chuva ou faça sol! Porque é uma ofensa combinarmos alguma coisa e cancelarmos no último minuto tal como fazemos em Portugal. É que nem sonhar em cancelar! Ora vamos lá a ver: como car* é que eu sei se daqui a 15 dias me apetece ir ao cinema?!?! Sei lá eu se amanhã tou cá! Quanto mais daqui a 15 dias!
Ou seja, pra quem é Português, esta agenda holandesa torna as coisas bastante complicadas. Temos duas hipóteses neste caso: ou nos adaptamos, ou fazemos amigos Portugueses, Espanhóis, Italianos, enfim, de outras nacionalidades flexíveis e espontâneas como as nossas.
Pra nos adaptarmos temos de ser muito consistentes e persistentes e irmos combinando na agenda duns encontros pros outros e conseguirmos ganhar um espaço na agenda e no coração deles e passarmos a vê-los de 15 em 15 dias porque claro, pra fazer um amigo como deve ser, precisamos de vê-lo amiúde.
Eu tenho 4 amigos Holandeses (fora os meus excelentes colegas de trabalho que quem gosto mesmo muito, 3 feitos cá, e uma feita em Portugal. Pra combinar alguma coisa com eles só de agenda. Resultado: há mais de 8 meses que não vejo 3 deles e o quarto há já quase um ano que não consigo combinar nada com ele.
Isto já vai muito longo, mas não quero deixar de dizer o seguinte: eu não pretendi ofender ou julgar a cultura Holandesa. Se foi essa a imagem que vos passei, desenganem-se. Eu só quis mostrar as diferenças culturais. Nada do que os Portugueses fazem é perfeito, assim como nada do que os Holandeses fazem é perfeito.
As culturas são apenas muito diferentes.
E eu tenho aprendido muito com eles e crescido muito como pessoa, mas acho que também eles têm aprendido muito comigo. Aprendemos a aceitar-nos.
Nem tudo é mau! Nem tudo é bom! Haja balanço. Em Portugal também temos muita gente que não presta pra nada e temos pessoas excelentes! Temos coisas muitos boas e coisas que desesperam qualquer um!
Pra terminar, bora lá imaginar um Holandês a viver em Portugal(e como li numa revista semanário uma altura) a tentar imitar-nos: eu tenho um amigo que tem um amigo que …. (pick one) é canalizador, que é pintor, que faz mudanças, que tem uma esteticista espectacular, que conhece não sei quem que consegue desenrascar não sei o quê!
Groetjes!

Mas tu nao trabalhas? Eu nao ando com tempo para telegramas e tu fazes-me subir o liquido da espinha com estes testamentos 🙂
Bem, quase tudo o que disseste espelha um pouco a imagem que tambem tenho dos holandeses. Mas ao contrario de ti, os meus colegas de trabalho holandeses nao sao nada energeticos e digamos que dezenas ja foram os almocos que 3 holandeses passam o tempo todo a falar holandes. Pelo menos tem a bondade de responder em Ingles quando pergunto algo! Mas la esta, estava muito mal habituado. Nao se metem na vida dos outros, mas tb n deixam ninguem meter-se no ciclo de amigos deles. Genericamente falando, mas tal como tudo na vida existem excepcoes!
Continuava o comentario, mas tenho que ir trabalhar. Uns com emprego e outros com trabalho!
Andorinha, quanto a viver na Holanda não posso falar porque apesar de já ter lá ido várias vezes, foi sempre em passeio ou trabalho por um par de dias. Agora, quanto ao que descreves em relação a relações profissionais, não podia estar mais de acordo contigo. Em quase 3 anos a trabalhar para uma empresa holandesa, foram os melhores tempos da minha vida profissional sem sombra de dúvida.
Concordo contigo em tanta coisa, e também acho que são apenas diferenças, e que algumas demoram a aprender-se!
De facto, os guardanapos é coisa que me faz espécie, mas mesmo muita..mais, o facto de nunca mas nunca lavarem a caneca do chá, já andam encardidas até mais não…mais se parece com um culto religioso!
Das minhas colegas, tenho uma que é mais amiga do que colega, mas para combinar coisas fora da Philips, preciso de marcar na agenda…e sim, tb concordo que se está na agenda, não à volta a dar e cumprem a rigor!
Quanto a eficácia profissional,não podia estar mais de acordo,mas o que gosto realmente aqui é de toda a informailidade e simplicidade no dia-a-dia, é preciso, faz'se,pergunta'se ou executa-se! E sim, a frontalidade é impressionante,às vezes até dói!
Realmente isto foi mesmo um testamento, mas andava há tanto tempo a adiar…
Teixeira, tenho trabalho q nunca mais acaba, mas hj deu-me praqui! E como nao faço 4 horas de carro, tenho tempo 😀 Sou tão mazinha, man! :)))
Jibóia, principalmente se fazias horários de holandês! Abençoada altura!
Mary, não sabia da cena das canecas! loooooool mto bom! A informalidade associada à frontalidade que dói produz bons resultados, acho eu! E eu prefiro que doa a só saber dali a 6 meses. Assim muda-se já a forma de trabalhar e já tá. A única coisa q me chateia é que eles são frontais, mas recebem com pouca graça a frontalidade dos outros! 😉
gostei de ler 🙂 é sempre bom ler as experiências de alguém que vive noutro país e nos dá a sua opinião sobre esse país 🙂
..Um testamento que espelha a realidade holandesa!
Trabalho numa empresa de limpesa [daquelas que so tem seis mil empregados]faco parte dos servicos moveis que inclui lavagem de vidros e, o que ainda me continua a meter confusao e como tao facilmente conseguimos entrar num qualquer gabinete de um alto quadro de qualquer instituicao para fazer o nosso servico e ser respeitado e aceite como somos[no fundo nao somos mais que empregados de limpesa].SERA TAMBEM ASSIM NO NOSSO PAIS ?
Ou tambem existirao diferencas ?
Ui… isso agora era mais um testamento 😀
Bem, estavas inspirada! LOL
Acabei de recomendar este texto num mail de resposta a uma rapariga que vem para cá e entre outras coisas me perguntou o que achava dos holandeses. 🙂
Dos meus colegas da Alemanhã um deles é Holandês, e é exactamente como tu dizes. Divertido, frontal.
Os alemães passam-se com ele, eu divirto-me e qdo os alemães fazem cara fei ado que ele diz, eu rio-me a dobrar… dele e dos alemães… maldade, mas ele é mesmo engraçado.
Holland or…..Robotland.
Inspiradíssima! 😀
A moça quando ler o post ha-de continuar a querer vir na mesma, espero eu, mas só se for porreira, ah!
Reflexos, eu também tenho amigos alemães e só são amigos porque os conheci fora da Alemanha. E são do BEST. Mas again, também acham que sou a puta da loucura pq os convidei pra tudo. Mas os alemães pra trabalhar são do mais boooring que há 😀 Mas mto profissionais, até chateia! :))
Funnelweb, gosto da frase duma míúda brasileira que conheço que diz: a Holanda é uma fazenda Hightec!
Para mim uma das coisas mais giras, eu que agora tenho uma família holandesa… é que nos convidam para ir a casa deles, por exemplo, num domingo á tarde, e nos dizem de antemão que somos esperados das 15:00 ás 17:00. Ou seja, informando imediatamente a hora a que devemos… bazar! Não que eu seja apologista convicta desta técnica.. mas digamos que ás vezes dava jeito fazer isto em Portugal;))
Já agora, andorinhas leiam "Com os Holandeses" do J. Rentes de Carvalho.