Lobotomia

Há 15 anos atrás entrei na Universidade de Coimbra. Comigo entraram 3 raparigas do Norte, duas de Valença e uma de Viana do Castelo. Como éramos todas muito nortenhas e andávamos no mesmo curso, juntamo-nos. No meu primeiro ano passávamos muito tempo juntas, e íamos juntas de casa pra Faculdade todos os dias.
No fim do ano houve uma grande bronca entre as 3 e a melhor amiga da minha então colega de quarto. Pelos vistos, a Joana gritava a pulmões, furiosa mesmo, que a Lita se tinha metido com o namorado dela. As outras duas nortenhas defenderam a Joana durante duas semanas e depois foi o descalabro. Zangaram-se as comadres. Quando perguntei o porquê as nortenhas não quiseram falar e a Lita e a minha colega de quarto contaram-me uma história mirabolante de como a Joana teria dito que tinha um namorado que era um moço de quem tinham ficado amigas há pouco tempo. O moço dizia que não conhecia a Joana e fugia dela como o diabo da cruz.
Achei aquilo tudo muito natural: o gajo era um g’anda cabrão!!
Como a Joana não era assim propriamente um deslumbre de rapariga, o fdp evitava-a! Dizia que tinha vergonha dela! Inacreditável, pensei eu. Grande fdp.
No ano seguinte mudaram-se todas de casa, mas eu continuei a viver na mesma.
No segundo ano da Faculdade, a Joana passou a dividir o quarto com a Xana, uma miúda com a qual na altura eu não podia nem com molho de tomate. Eu continuei a ir com a Joana pra Faculdade todos os santos dias, e a voltar, hora de almoço e hora de jantar, mas nunca mais falei com as meninas lá de casa. Raramente lá estava, diga-se a verdade.
Em Fevereiro do meu terceiro ano há uma discussão entre duas das miúdas do grupo delas, e uma delas passa a aparecer no meu quarto com frequência. Na primeira visita, conta-me tudo o que me tinha escapado e fala-me do “menino” da Joana. Eu conhecia o dito menino e expliquei à Olga que a outra não o conhecia, quanto mais ser namorado dela. O Luís era o melhor amigo do Artur, o amigo meu de infância e liceu que estava também em Coimbra na mesma Faculdade que nós. Lembro-me de no final do primeiro ano estar no Cortejo da Queima das Fitas e ela ir comigo atrás do carro de Economia e dizer: aquele gajo ali é muuuuito giro.
A Olga não acreditou em mim. Achou que o Luís devia ser outro cabrão como o fulano do nosso ano de caloiras.
Apresentei-lhe o Artur, e na frente dele perguntei se algum dia tinha visto a Joana.
Sim, na Faculdade, com a Sofia. Fora isso, ela nunca saiu connosco, não conhece o Luís, nunca sequer falou com ele.
A Olga começou então a prova dos nove:
– mas ele não vai almoçar a casa da Tia ali aos Olivais todas as terças?
– Vai. Como é que sabes que a Tia vive nos Olivais?
(tinha-o seguido durante semanas)
– mas e à quarta-feira não jantam juntos?
– à quarta é noite de póker lá em casa, aliás, à 4° e nos outros dias todos!
(ela ia jantar todas as quartas-feiras sozinha à cantina menos frequentada por nós)
– então e à sexta, não almoça com vocês?
(a esta respondi eu: não! Almoça sempre com umas amigas de Viana na cantina do ISCA!)
– e na Queima do ano passado? Não estavam zangados? É que estivemos ao pé de vocês a dançar uma noite inteira e ele olhava pra ela!
(devia ser o ar de vou-te comer com batatas fritas! Se te apanho ó bom, és todo meu!)

Continuamos a juntar peças durante mais 2 dias e a má-disposição ia crescendo à medida que nos apercebíamos de cada mentira, de cada passo que deu, de toda a premeditação, da qualidade e entreteia das mentiras. Era muito filme.
Nunca me mentiu porque sabia que eu nunca acreditaria. Louca, mas não burra.
A Xana fritou quando soube de tudo. Uma tipa como ela, com mais de 7 anos de Coimbra, não tinha percebido nada!! (Oh pra mim cheia de pena, snif snif)
No dia dos namorados perguntou à Joana qual o plano das festas. Ir almoçar a um sítio surpresa, “tinha dito ele”.
A Xana esperou e à hora do almoço apareceu na Faculdade. Viu-a por lá, obviamente. A Joana ficou uma vara verde, mas sem nunca se descair, disse que tinham ido almoçar a casa dele, com o irmão dele e a namorada, que ele tinha casa vazia porque a Tia tinha saído de propósito, mas que lhes tinha deixado bacalhau à espiritual (todos os pormenores) preparado e depois tinham ido dar uns amassos pro quarto. Tinha-a deixado à porta da Faculdade há uns míseros minutos porque disse que lhe queria fazer outra surpresa.
A Xana fez de conta que se foi embora, e juntamente com a Eduarda seguiu-a discretamente.
A Joana foi a uma florista, comprou um ramo com 24 rosas, e voltou pra Faculdade.
As outras duas foram pra casa a bater mal.
Quando a Joana chegou a casa disse-lhes que depois de elas terem saído, ele tinha aparecido com aquele ramo magnífico! Era ela a mulher mais afortunada do mundo, or what?!
Confrontada com a verdade e com o ror de mentiras que se prolongava há quase ano e meio, jurava a pés juntos que era verdade, que namorava com o Luís. Chorava copiosamente, era a cara da verdade, da pureza, da tristeza, do desentendimento. Só quem viu é que é capaz de entender o novo nome que ganhou a loucura no meu dicionário.
Eu falei pessoalmente com o Luís que apanhou o cagaço da vida dele e que só não foi falar com ela porque eu interferi e lhe expliquei que ela não fazia mal a uma mosca.
Era só uma pessoa tremendamente infeliz.
A Joana mudou de casa.
Eu acabei a Faculdade e nunca mais a vi.
Passados uns anos encontrei outra Colega da Faculdade no autocarro de Coimbra por Porto pra casa de quem a Joana se tinha mudado.
As histórias mirabolantes eram semelhantes, mas desta vez com contas de telefone astronómicas (com quem falaria ela nunca percebemos) e metia idas ao Porto e relatos de sexo escaldante com um suposto namorado que novamente, ninguém conheceu.
Os Pais dela só descobriram o que se passava (e mesmo assim duvido que saibam da missa a metade) passados 6 anos de termos entrado em Coimbra. Foram lá buscá-la porque ela nunca tinha acabado o curso, e há 2 anos que dizia que só lhe faltavam duas cadeiras.
Um mentiroso é sempre apanhado.
Será possível curar-se um doente? Alguém que recria o seu mundo de fantasia ao ponto de acreditar verdadeiramente nele? Eu acho que não.
No anos 50 (e hoje em dia) chamavam a esta gente maníaco-depressivos, mas nos fiftie’s faziam-lhes lobotomias. It’s just a thought you know. Just a thought.

Leave a Reply