Esta coisa do voluntariado nas prisões mexe-me com o sistema nervoso.
Tornar “leve” o jugo de quem cumpre pena de prisão não me parece coerente.
Eu sei que também há nas prisões gente inocente, mas não me estou a referir a esses.
Também não acredito que a miséria extrema leve as pessoas a cometer actos insanos e que como tal: coitadinhos. Coitados são as vítimas, não são os agressores.
O ser humano é dotado de consciência e racionalidade e não me venham cá com a história de que a sociedade é que os transtorna.
Eu acredito que há uns que nascem com mais faculdades intelectuais e outros com menos. Nas prisões há pessoas inteligentes e pessoas burras.
Um ser inteligente que está preso é com toda a certeza um ser perigoso. Porque não só sabia o que estava a fazer, como o fez por requintes de malvadez e falta de princípios e escrúpulos. E enquanto estou de acordo que seja possível incutir princípios e como tal minimizar este mal, já os escrúpulos é algo que também creio que nascemos com ou sem. Pode até ser hereditário, digo eu.
O certo é que o lema é tentar regenerar os nossos (de Portugal) presos através do voluntariado, coisa que eu acho ser a maior perda de tempo à face da história. Porque ninguém regenera ninguém.
E eles estão lá pra cumprir uma pena por actos agravados. Têm tempo livre que chegue para pensar no mal que causaram a outrém sem terem alguém a levar-lhes cigarros ou com quem conversar sobre o Pai, a Mãe, a filha e o filho. Até porque eles estão-se borrifando pros outros. O preso é o ser mais egoísta à face da terra.
A questão é que eu acho que eles não se sentem culpados e o que é pior, não acho que eles tenham sequer noção de que o que fizeram é incorrecto.
Porque há coisas que estão na natureza da pessoa. E eu acho que quem se dedica a actos criminosos nasceu com uma capacidade inata para o fazer. Quando levaram os seus “deveres profissionais” menos a sério, foram parar ao dito “xilindró”.
Eu faço voluntariado com os filhos dos presos. As minhas crianças tiveram ou têm os Pais presos porque lhes batiam, ou batiam na Mãe, ou os violaram, ou violavam outros, ou assaltaram casas, ou supermercados, ou carros. Nunca nenhum dos meus miúdos me disse: o meu Pai ou a minha Mãe era inocente.
Já conheci miúdos na Candeia que foram parar a reformatórios. Nenhum deles tinha cérebro, todos burros como portas.Tinham antecedentes de agressão, mas se a tal se devesse, então porque é que só um de 6 irmãos é que terá tornado criminoso?
Mas havia um inteligente. E esse tem requintes de malvadez. Toma uma medicação porque tem um problema do foro psicológico, mas desconheço qual. A única coisa que eu sei é que os olhos dele me dão medo desde o primeiro dia. Há dois anos continuava a fazer Candeia porque havia uma amiga nossa que acreditava que podia fazer a diferença, e até porque, com a medicação estava controlado. Depois do acampamento eu escrevi uma carta à Direcção da Candeia em que expliquei por A mais B, que havendo tanta criança a quem poderíamos fazer bem em lista de espera, porquê continuar acolher alguém que já sabíamos que o next stop ia ser a ver o sol aos quadradinhos?! É que pra mais o tipo deixou de ser um puto pra passar a ser um “armário” com 17 anos e com um “caparro” que não queiram saber. Se aquele gajo se passar da marmita, são precisos mais de 4 homens pro segurar. O sonho desse miúdo é ser preso. A sério. É ser preso pra ter um tecto e comida à borla, e poder fazer levantamento de pesos todos os dias. Violado? Se calhar viola em vez de ser violado. E quando sair da prisão? Sem medicação, sem estudos, vai fazer o quê? As senhoras e senhores do voluntariado de presos ensinar-lhe-ão quisás o que todos nós tentamos há 18 anos? Ah não! Dão-lhe amor!
Minha gente, a ver se nos entendemos: o amor tudo cura.
Mas gente sem coração não consegue receber ou dar amor.
Se está preso por algum motivo é, ou acha que é por falta de amor?
Lorpas.

Não acredito no arrependimento. Levam uma vida a fazer porcaria e depois é o perdão fácil :S
Mas que texto tão duro 😛
Eu avisei q estava com TPM…. 🙂
Compreendo tudo o que dizes.
Já fui visitadora e compreendo mesmo o que dizes.
No entanto, qual é a alternativa?
É que não há prisão perpétua nem pena de morte (nem abro discussão sobre isso).
Isto é, ELES mais tarde ou mais cedo serão NÓS.
Mais tarde ou mais cedo estarão entre nós.
No fundo, no fundo a reintegração tem de ser feita por motivos puramente egoístas – o da nossa segurança e preservação.
Angela, eu não acredito na reintegração via voluntariado. Acredito numa reintegração via laboral, isso sim. Um dos miúdos que acompanhei é um preto de 2 metros, mto escuro, sem o palato do céu da boca. ele connosco é absolutamente extraordinário: protege-nos, brinca, é a simpatia em pessoa, dá lições de moral aos mais novos repetindo o que nos ouve dizer, é de escangalhar a rir. Mas é só qdo está connosco. Qdo não está, rouba carros. Porque pouca gente lhe dá emprego porque lhe têm medo, e neste caso não há motivo. O certo é que eles são julgados várias vezes, principalmente cá fora. Eu acho muitíssimo bem que na prisão haja cursos de marcenaria, de electricistas, de tudo e mais um par de botas, e haver onde os colocar no fim da pena seria o ideal. Isso sim é reintegração.
Ai que eu podia dizer-te tanta coisa. A primeira, é que tens p'raí 90% de razão. Mas nem todos os que estão presos são psicopatas ou sociopatas. Muitos foram lá parar por miséria, que os levou a roubar; ou vício. Esses podem ser recuperáveis. Muitos outros, não sei se por defeito congénito (por muito controverso que isto seja, é verdade que há crianças que são más, do piorzinho que há) ou por falta de apoio e amor nos primeiros anos de vida (há teorias de que a falta de vinculação materna e abandono emocional por parte dos pais pode levar a que uma criança se não consiga vincular emocionalmente, e fique um ser humano danificado, sem capacidade de empatia com o outro), nunca se vão recuperar. Vão sempre optar pela via mais fácil, para quê trabalhar se podem roubar ou traficar?
Mas não é fácil, pá. O trabalho de recuperação cabe, em primeiro lugar, aos técnicos que lá trabalham. Que não o fazem (seja lá por falta de meios ou de capacidade). E sim, o trabalho é essencial; dar-lhes formação profissional e ocupá-los. A maior parte passa o dia a fazer nenhum, e isso tb não é justo.
Olá
Concordo. Não em absoluto, mas concordo. Principalmente com a parte do trabalho. Se fosse possível que os presos trabalhassem, que aprendessem um ofício ou, ainda melhor, que os miúdos antes de se tornarem criminosos fossem encaminhados para escolas profissionais (há tantos identificados a quem não podem "tocar") tudo seria bem melhor.
Mas também acredito que o voluntariado seja positivo nalguns casos. Não muitos, é certo.
bjs
Eu não concordo que se deva dar formação profissional… A prisão não é uma escola. No entanto, e como sou e serie sempre a favor do voluntariado…
Proponho:
Que me voluntario para passar 1 dia por mês a coordena-los enquanto fazerem limpeza nas matas, tapam os buracos nas estradas nacionais, ajudam as equipas de limpeza, das várias câmaras municipais, a limpar os esgotos e os escoadouros que entopem tantas vezes e provocam inundações.
E se pensarmos bem ainda arranjamos mais mil e uma maneira de "pagarem a dívida a sociedade", aprenderem pela prática algum trabalho útil que possam fazer no futuro, ajudam a sociedade a avançar prevenindo problemas e acidentes que são bastante recorrentes tanto no inverno como no verão.
Depois disto, acho muito bem que, aqueles que mostrarem trabalho e dedicação então possam ser dirigidos para uma formação mais profissional como recompensa e que depois possam ser inseridos na comunidade.
I. quando escrevi este post lembrei-me de ti mtas vezes pelas coisas que ouves e consideras todos os dias. Eu não acho que todos os presos sejam sociopatas ou psicopatas, mas não tenho a sensação de que tenham roubado por miséria. Ou pelo que eu entendo como miséria. Por pobreza de espírito, isso sim já acredito.
Acredito sinceramente que há seres que nascem maus, mas aí íamos entrar em discussões filosóficas e há muitos anos que não leio Piaget. É a minha crença, e ainda bem que há quem não concorde com a mesma porque no fundo são eles que acreditam quando já não há esperança, e o mundo precisa de gente que acredite desse modo.
Blue, deste uma excelente ideia sobre um possível caminho no que seria algo de útil na recuperação dum preso (acho eu). Até porque há muito trabalho que precisa de ser feito nas nossas matas e País e já que os meus impostos também servem para pagar as instituições prisionais, já que lhes pago a comida e a dormida, então que façam algo pelo bem comum e pela sociedade. Eles estarem sem fazer nenhum, como diz a I., não é justo.
Eu só não percebo é porque é que isto ainda não foi colocado em prática?
Pat, os miúdos pequenos pre-criminosos são encaminhados para as escolas profissionais. Todos eles fazem obrigatoriamente a um curso, desde informática, até marcenaria, cozinheiro, empregado de mesa, auxiliares de jardins de infância, jardineiro, técnicas de contabilidade e administração, no outro dia houve um que me disse que estava a fazer psicologia de qq coisa, que achei mto engraçado 🙂 Tenta-se que eles gostem do que estão a fazer mas nem sempre se consegue. O dinheiro fácil fala mais alto.E bem se tenta dar escolaridade a todos, mas não "entra" em todos. Também fala mais alto a "adrenalina" que conseguem a fugir da "bófia". E há uma falta de acompanhamento muitíssimo grande por parte da família, e mesmo dos técnicos que estão nas instituições e q não são em número suficiente. Fora o facto de que alguns dos técnicos deixam mto a desejar…mas isso é outra conversa tão longa como esta.
Que resposta agora deste tão ponderada… o TPM já deve estar com os níveis mais baixos 😉
Besitos
Coelho
LOL Bingo 🙂
Olá,
eu fiz voluntariado para me sentir humana e para ainda acreditar no ser humano.
Fiz o Curso de Direito e naquela fase em que lidava obrigatoriamente com os mais abjectos dos abjectos, e para manter a minha sanidade, tive que encontrar o equilibrio pelo voluntariado.
E, sim, acredito que quando lidas com O mal é quase impossível não ser tocada pelo mal.
Não acredito em diabos e demónios de caudas e linguas bifurcadas, mas que a presença do mal se pode revelar em certos momentos entre nós. Assim, como a presença de Deus se revela e se manifesta pelas nossas acções.
Ser voluntária, foi em determinado período da minha vida, um testemunho de fé.
Escolhi afastar-me do Direito, da advocacia e viver mais em paz comigo.
Compreendo quando chamas lorpas e quando dizes que há casos perdidos (os psicopatas pedófilos não existem só nas séries de TV e que terminam presos pelo FBI).
Simplesmente, não dá para uma pessoa se render.
Parece-me que a tua abordagem é de quem não se rende.
Nem abordagens certas,nem abordagens erradas…diferentes.
Abraço
Olá Angela, por favor não me leves a mal no "lorpas", eu sei que estava a ser um bocadinho (muito) uma besta, até pq pelo caminho, insultei-te não só a ti, como a grandes amigos meus. TPM, eu juro 🙂
Eu sou voluntária, acho que deu pra perceber pelo texto 🙂 e muito dedicada aos meus miúdos. Tão dedicada que me atrevo a ficar irritada com os sacanos dos Pais (presos muitos deles) que os largaram e às Mães à sorte deles.
Como ser racional, acho que todos merecem a oportunidade de melhorar. Como ser emocional, não consigo evitar a vontade que me inunda de lhes dar uma carga de pancada cada vez que mentem aos filhos.
Obrigada por continuares aí 🙂
Um abraço!
Sofia