O certo é que a melhor coisa que aprendi nos últimos tempos, e para a qual faço um esforço titânico, é a não me comparar com ninguém, nem deixar que me comparem. Fica-se assim numa posição de espectadora, no nosso mundo, em que nada nos demove de quem somos verdadeiramente.
Acho que a coisa mais difícil na vida é gerir expectativas. Principalmente as que os outros têm de nós, mas muito também sobre as que temos sobre os outros. Noventa por cento das vezes a nossa tristeza advém da destruição dos sonhos que tínhamos sobre como seria a nossa vida com outra pessoa. A expectativa que tínhamos sobre como seria namorar com ele, viver com ele, ter filhos com ele. Mesmo que nem às paredes confessemos, porque mulher independente e garbosa de tal jamais vai dizer que pensa em marido e filhos. Mas pensamos. E fazemos projecções e sonhos. E quando de repente levamos com um balde de água fria a tristeza bate porque tudo o que imaginamos não se vai concretizar. Ficamos tão agarradas ao quão maravilhoso ia ser que nos esquecemos do quão real é o presente e aquele olhar, aquele toque, foi só um olhar e um toque naquele dia, que para a pessoa foi um momento e para nós um sonho, tudo o que nós queríamos e daí a sonharmos acordadas e divagar são dois passos.
O exercício de não comparação com outrem e de gestão das expectativas para o dia de hoje, e não do futuro, é o meu work in progress, e chama-se dominar o meu ego. Tenho 34 anos e passei os últimos 20 a sonhar com o quão fixe ia ser se aquela pessoa fosse A pessoa. Nos últimos 4 ou 5 anos tenho feito um exercício de limpeza de hábitos e maneiras de pensar que me levavam a repetir padrões. Nos últimos 6 meses tenho feito o tal exercício de contracção do ego. Tê-lo bajo control, posso desde já dizer que é uma coisa diária. Todos os dias acontece algo que me irrita e apesar de ainda dar lugar a umas acções impulsivas, já não desato a resmungar durante horas com as pessoas e o mundo nos meus reconhecidos ataques de fúria aos quais os meus amigos acham imensa piada (e eu não). Páro. Páro mesmo tudo o que esteja a fazer. Sento-me e respiro fundo 3 vezes. A seguir penso: porque é que estou irritada? Não é porque é que outros me irritaram, é porque é que EU ainda me sinto irritada? A grande maioria das vezes seguem-se ilações que são duras de assumir mas que se resumem a: porque me comparei com a fulaninha e acho que sou melhor que ela. Ou porque aquela pessoa em questão me fez sentir inferior. Mas inferior a quê? A quem? E o que se passou foi há quanto tempo? Dois anos? Oito anos? O que me adianta a mim ficar chateada com o que já aconteceu há oito anos atrás e que não faz qualquer sentido agora? O que é a realidade do momento presente? Neste momento eu sou uma pessoa diferente e melhor do que o que era há oito anos atrás. E aquele acontecimento há tantos anos deu-se com pessoas que hoje em dia também são diferentes. E se não são diferentes, se não mudaram, mudei eu. E eu decidi que se calhar, “peut-être” já não faz muito sentido eu continuar a lidar com aquelas pessoas, porque o mundo avança, a vida muda, e acima de tudo, a minha maneira de ser mudou, logo a identificação que eu tinha com aquela pessoa: já não existe. Sendo assim, porque diabo vou eu zangar-me com alguém que já não me diz nada? Porque é que vou ficar irritada com algo que já aconteceu e que não afecta em NADA o meu dia de hoje?
Nem sempre é fácil, mas aceitar os outros “just as they are” e que NOS aceitem, exactamente como somos, é o sonho de qualquer pessoa, até da Bridget Jones. Porque um dia vamos acordar dentro dum casamento em que, como dizia a senhora do post que publiquei há uns tempos, e vamos estar sozinhas na mesma, mas com o dobro da roupa para lavar. E vamos ter que estar disponíveis para dar e dar, sem pedir em troca, pura e simplesmente gostar de tomar conta de outrem, de amar incondicionalmente (o que inclui gostar de um riso à porco, por exemplo). E quem estiver connosco vai querer futebol, jolas com os amigos e um colinho e um miminho, e a comida pronta, e em troca dar-nos-ão outras coisas que não nos ensinaram que existe como um ombro e um abraço, e um pragmatismo que reduz os nosso problemas a zero, e uma piada que nos faz sentir bem no dia em que tudo correu mal. E o apoio e admiração incondicional da pessoa que somos. E o fazer-nos sentir especiais só porque gostam de estar ao pé de nós e partilhar as coisas do dia-a-dia connosco. E tantas outras coisas que só os homens sabem dar, à sua maneira.
Quanto mais falo mais chego à conclusão que o que me aconteceu antes de chegar a este ponto foi bom. Foi preciso. Se não tivesse escorregado nas pessoas erradas, não saberia achar o certo. Que venha ele! :))
Como disse e bem esta lady aqui: http://www.huffingtonpost.com/
“Because ultimately, marriage is not about getting something — it’s about giving it. Strangely, men understand this more than we do. Probably because for them marriage involves sacrificing their most treasured possession — a free-agent penis — and for us, it’s the culmination of a princess fantasy so universal, it built Disneyland.“

De uma pessoa que passou por uma e está hoje na outra, digo-te eu que sim, acontece e é possível. E mais vale tarde que nunca. 🙂
E eu acredito em ti 🙂 beijos
O Mundo é um lugar estranho. Muito estranho. Passamos metade do tempo, ou mais, a tentar entendê-lo, o a outra metade a tentar viver nele o melhor que podemos. Bom fim-de-semana. 🙂
Eu gosto do meu mundo 🙂 qto mais me tento entender, mais fácil fica viver nele.
Revi-me neste post, gostei bastante.
🙂
Sabes, somos todas iguais. Pelo menos eu e tu. Passei a vida toda, toda até aqui claro, a comparar-me com a melhor amiga que me ficou com o rapaz, ou a imaginar como seria se eu fosse mais gira, ou mais alta e magra, ou com um nariz mais pequeno ou umas mamas maiores. E se com aquele namorado não tivesse feito daquela maneira, se não tivesse reagido assim daquela vez.
Agora quando me vejo nos mesmos erros paro, aponto e mudo. Nem sempre consigo claro, mas relativizar é a chave. Se calhar não estou a fazer muito sentido mas cada vez me chateio menos (o Diabo seja cego, surdo e mudo – e não sou supersticiosa), cada vez imagino menos. Claro, não dá para apagar os sonhos e agora estou aqui e tenho casa e salário e sou grande e o príncipe? Mas tudo se vai resolver. Podia ser mais feliz? Acho que podia, imagino que podia. Mas sei que poderia ser imensamente mais infeliz, já fui. Respeito-me mais (até ao dia diz a voz cá dentro).
Será da mudança de estação? Estou assim como tu.
Gostei do teu texto. E gostava imenso de ser menos impulsiva do que sou. Só eu sei o quanto esta impulsividade me trama a cada passo. Quem dera ter a capacidade de parar e não me irritar. Infelizmente acho mesmo que corro é o risco de simplesmente não me chatear porque as coisas às vezes deixam de ter importância.
Mas concordo em absoluto que tudo o que nos acontece só nos prepara para o melhor 🙂 e para não aceitarmos menos do que o que merecemos.
beijos
@Margarida, vai tanta coisa condensada nesse comentário. Ontem tive um ataque de fúria com a minha chefe. Ela tinha razão no que disse, mas não no como o disse. E o tal exercício do porquê a irritação foi feito, e eu sei que a minha fúria foi ego. Mas passou. E antes levava mto tempo a passar e agora não. Ou seja, o que eu falei no post aplico a tudo, a relações, a trabalho, a tudo. No ponto de vista da relação, este fds (q isto paga-se logo) tive q exercitar este post inteirinho, e estou mto orgulhosa de mim mesma pq me portei mto bem. Escrevi-o pq preciso de me lembrar disto mais vezes. Só qdo aprender a não me comparar é que vai estar tudo bem. No teu caso, qto menos imaginas (logo qto menos te recordas e comparas), melhor 🙂 E se consegues ser feliz com -30 graus, ó rapariga, és feliz pra vida!
Pat, deixa que a minha impulsividade tb é reconhecida. Está mais domesticada. Mas ontem faltou-me um bocadinho assim — pra mandar a minha chefe pro car@.. e o certo é q hj, ja nao tem importancia nenhuma. Gostei mto do não aceitar menos do que merecemos. É mesmo isso.
beijos grandes às duas meninas
Amei o texto do principio ao fim. As palavras são tão certas com a realidade.
Está um texto muito bom! E se não te importas vou guardar as palavras com a devida autoria.