Falta saber de onde vem a força

 Hoje encontrei na rua uma das minhas amigas de infância. A Mãe dela tinha um olhar divertido, meio envergonhado, meio ausente e não me reconheceu. Conhecia-me há 28 anos. A Mãe da minha amiga está muito doente e eu percebi imediatamente pelo olhar. Tinha uns olhos traquinas, envergonhados. Sorriu muito quando eu lhe disse que ela estava muito bonita e não percebeu que eu comecei a tremer.
Não sei bem como é que se chama a doença, mas é um tipo de esclerose que avança muito rapidamente e causa inclusivamente demência.
A minha querida amiga terá de ver a Mãe passar por uma espécie de Benjamin Button. Nos próximos meses vai deixar de andar, perde a coordenação motora completamente e aos poucos a consciência. É como “morrer em vida” pensei eu.
Quis entender como é possível querer-se continuar a viver, que sentido faz neste caso o que disse no outro dia sobre o impacto na vida dos outros. Pus-me no lugar da minha amiga. A Mãe vai perder toda a independência, vai ter uma morte lenta, mas vai poder continuar a ouvir os sons dos netos, vai poder usufruir do imenso amor e carinho que os filhos lhe dedicam, do toque dos que a amam, vai conscientemente continuar a sentir que a amam e a ser amada. E não há mais que isto. Isto é tudo e é muito.
Novamente pensei nas queixas comezinhas do dia-a-dia e na sorte que tenho. E pensei na força que tem de ter a família dela para conseguir vê-la desaparecer tão rapidamente e tão impotentemente. E tentei mesmo fazer o esforço de me ver em situação idêntica e fritei.
Sem ter pensado ainda em tudo isto entrei na loja onde ia buscar os sapatos e tremia que nem varas verdes. Tinha uma tristeza no peito do tamanho do mundo e telefonei-lhe à minha amiga umas horas mais tarde. Tudo o que tu precisares, disse. E ela é que me disse a mim: não te preocupes, já estou habituada. Não estás nada, ninguém se habitua a isto. E pensei que há forças infindáveis que nem sabemos onde vamos buscar, mas que aparecem na hora necessária e que faz com que algumas mulheres sejam caracterizadas pelo ênfase na frase: Ah Mulher ! Mostra o que vales!
Eu costumo dizer que não tenho amigas do frasco de verniz. E não tenho. Porque não as admiro. Tenho amigas valentes, determinadas, carinhosas, fortes e cheias de garra. E essas não são a barda do frasco de verniz, mesmo quando são iguais à Julia Roberts.

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