As minhas parcas férias chegaram finalmente

Hoje é o último dia de trabalho durante os próximos 10 dias. Já estou mal habituada porque “à Holandesa” já acho que são poucos dias, abaixo de 15 dias é coisa pouca, mas com 3 canitos pequenos em casa é pro que dá e não me posso queixar. Mas que me sabia bem mais 5 dias, lá isso sabia.
Começa a arrefecer na Holanda, o Outono está aí e ainda estamos no início de Setembro, e isso aborrece-me. Outono é a partir de 1 de Outubro, Setembro devia ser ainda um mês quentinho. Como não é, vou voar até paragens mais quentes: Portugal.
Ver família, amigos, conhecer pessoas que há muito quero conhecer, e acima de tudo, ver o Tejo. As saudades que eu tenho de ver o Tejo…
Não há forma nem maneira, sempre que volto a Lisboa apetece-me voltar de vez. Sempre.
Mas depois penso que cá posso trabalhar a partir de casa e entrar às 9 e sair às 5 e passear os meus cães, e ir ao ginásio, e jantar com amigos, e ler livros, estudar outras coisas e esvai-se-me a vontade. Qual balão cheio de ar que se esvazia rapidamente e fica murcho e tristonho, é assim que o meu peito fica sempre que garanto a mim mesma que esta é a melhor opção: Amesterdão.
E custa-me que assim seja.
No outro dia o Tolan publicou um texto em que perguntava porque é que os nossos governantes e jornalistas não faziam reportagens que atraíssem os jovens a ficar em Portugal em vez de fazer programas como o Portugueses pelo mundo em que mostram o bem que se está cá fora.
Não vou entrar na discussão que se gerou na caixa de comentários do post dele, vou apenas relembrar que o que mais custa no regresso não é a falta de oportunidades, nem o facto de nos descerem o ordenado, é a falta de qualidade de vida.
Eu estaria disposta a voltar por metade do que ganho mas ia ter de abdicar de tudo o que consigo e posso fazer agora. Apesar da distância, hoje em dia tenho mais tempo para os meus Pais. Falo com eles todos os dias e quando eles me telefonam não me estão a incomodar ou a interromper a jornada porque às 17 ou 18 já acabei e posso falar sobre a minha horta, sobre as tropelias dos cães, sobre o maravilhoso jantar que preparei.
Apesar da distância tenho mais tempo pra combinar coisas com os meus amigos porque não estou enfiada no trânsito durante hora e meia pra fazer o regresso a casa. Lembro-me sempre que saía às 20 em vez das 17 para não apanhar a carga de trânsito Tagus-Lisboa. São 3 horas da minha vida diárias que dedico a um trabalho que vai-se a ver e daqui a 8 ou 10 anos dão-me um chuto no rabo e dizem: obrigadinha pelo esforço mas agora dá a vez a outro, sim?
Eu quero voltar, mas não quero voltar pra um ambiente (seja qual for a empresa) em que acham que sair às 17 é tirar a tarde, em que acham que só se trabalha se estiver “debaixo de olho”, em que o meu trabalho e esforço não é tido em conta pela quantidade de trabalho produzido e entregue a tempo, mas pelo número estúpido de horas que passei dentro dum escritório.
Quero voltar pra poder disfrutar tranquilamente duma esplanada das 18 em diante sem estar preocupada que nas próximas 4 horas o meu email vai crescer exponencialmente e que vou ser tida como pouco esforçarda ou até incompetente por não ter respondido na hora, no acto, no minuto do MEU tempo livre.
Enquanto as mentalidades dos chefes deste País não mudarem, enquanto as pessoas não deixarem de passar 3 horas de pé na sala do café a fumar cigarros na varanda enquanto discutem filosoficamente merdas que podiam fazer sentadas numa call em 15 minutos, não volto.
Não preciso do big fat car, nem da vivenda construída em tamanho ultradimensional com lugar pra 3 carros e um jardim no qual não passo tempo nenhum. Não preciso do cartão dourado nem de fazer viagens ao México e à República pra dizer que estive e que fui e que vivi.
Preciso de ter tempo de qualidade pra mim, pra aproveitar o que posso enquanto a minha saúde o permite, não é depois de velha ou depois de reformada. Quero poder passar tempo com a minha família e os meus amigos e os meus cães e a minha horta orgânica no quintal, na minha casa a ouvir música, a ler um livro ou a ver um filme, de preferência antes das dez da noite.
Enquanto as coisas não mudarem, não volto. O mundo é a minha casa e serei feliz em qualquer sítio onde estejam e tenha ao alcance os meus bens mais preciosos. O mais importante deles todos: o meu tempo.

15 comments:

  1. Há tanta gente a não perceber que estar 20h no local de trabalho não é sinónimo de estar a trabalhar 20h!! E a olhar de lado se sais ainda com dia pela frente para aproveitar porque de facto fizeste o que te competia… Quanto à vontade de voltar de vez, também a sinto na voz da minha irmã sempre que nos vem visitar (e não tarda vai ser tua vizinha) e custa tanto dizer-lhe que vá que está bem melhor que nós… e a verdade é que a frustração de estar por cá empurra-me/nos cada vez mais para outras paragens…

    Que aproveites no nosso Portugalito! Boas férias!

  2. Boas Feriaaaaaaas!!!! (So nao digo que inveja porque este fim de semana tambem hei-de andar pela terrinha :D)
    Mas como sei o quao horrivel 'e passar um "verao" na Holanda espero que aproveites muito, que bebas muito sol e muito mar e muito azul, daquele que so ha em Portugal 😀 E muita familia e amigos!

    (e em relacao ao resto sou vou dizer que concordo plenamente contigo: nao 'e o dinheiro nem as oportunidades, mas a mentalidade (no local) de trabalho… mas nao penses muito nisso: aproveita as ferias 😉 )
    Beijinhos!

  3. Aproveita bem o Sol e acumula muita vitamina D. Quanto ao post, nem vale a pena dizer que acabaste de escrever o que a maioria dos portugueses que trabalha fora de Portugal sente em relação a voltar a trabalhar no mercado português. Por vezes podem parecer exigências de "dondoca" para os patrões ou aqueles que pensam que mandam, mas no fundo se as pessoas são bons profissionais e já fizeram o que lhes competia, merecem o seu descanso, a sua qualidade de vida e a sua esplanada ao fim do dia. Infelizmente, ainda há muito que mudar na mentalidade portuguesa. Beijinhos

  4. Boas Ferias…aproveita bem que por estes lado o sol está em força:) Relativamente ao resto sinto que expressastes e muito bem aquilo que eu penso quando digo que gostava de partir para fora deste meu Portual. Muitas vezes quando falo a reacção de certas pessoas é "aqui também ganhas e tens uma vida calma" Mas essa é a questão não é só ganhar mas sim ter VIDA. Ter qualidade de vida ter momentos de lazer e tempo para os aproveitar. Muitas vezes o dia a dia é casa-trabalho-casa e pouco mais…! Onde está a qualidade de vida? Onde está a realização pessoal? Já para não falar no ambiente a nível de trabalho. Neste teu post mostras exactamente a razão pela qual desejo tanto sair de Portugal. Obrigado pela partilha porque me identifico muito com as tuas palavras. (Só falar mesmo partir para esse mundo fora.

  5. Há alguns anos dir-te-ia que não era bem assim.Que aqui também há qualidade de vida. Mas quando olho para mim, que trabalho onde quero, que adoro o que faço e que até tenho algum reconhecimento, vejo que não tenho tempo de qualidade com a minha família nem com os meus amigos, que ando sempre a correr e que para ter algum género de vida própria ando sempre toda queimadinha (pura pdi, eu sei) e que no fim de contas o reconhecimento nem é por aí além, que quem não faz metade do que faço (e com 1/10 da qualidade – não me vou armar em modesta que sei bem o que valho) tem igual reconhecimento.
    Para mim sair de Portugal não é opção- ou melhor foi opção não sair- porque sem os "meus" pertinho não era capaz de ser feliz (não tenho espírito de imigrante- se saísse do país era para viver a sério) e além disso tenho responsabilidades das quais não me posso demitir.
    Digo há imenso tempo que a culpa da falta de produtividade é das chefias intermédias, que não só não sabem trabalhar como não sabem mandar.
    Beijos

  6. Tenho pensado imenso nessa mentalidade de "sair às 17 é tirar a tarde" e ainda ontem estava a dizer a um amigo que não é isso que quero para mim. O tempo é mesmo o nosso bem mais precioso e a produtividade não tem de todo a ver com o tempo que passas no escritorio a passear pelo Facebook ou a ler as notícias, infelizmente há muito essa mentalidade não só em Portugal mas no sul da Europa em geral (tenho imensos amigos italianos que me dizem o mesmo). Quando sair daqui (porque estou em querer que a Holanda não é o meu país "final") quero um sítio onde percebam isso.
    Aproveita as férias! Lisboa e o Tejo apelam imenso ao lado emocional de "casa", é verdade, será por isso que me chamam, para se meterem comigo, "expat", mais do que emigrante, se calhar sou mesmo expat 😛 Beijinhos!

  7. Boas Férias,"enche" os teus olhos de Lisboa, goza esta luz que é tão única mas, em termos de qualidade de vida, continua a ser Amsterdão 1- Lisboa 0…A propósito deste texto, http://www.citador.pt/textos/amote-portugal-miguel-esteves-cardoso, que coloquei no Facebook, o que se gerou de discussão entre apoiantes do Portugal "bom" e os que conseguem ver que o que aqui é de louvar não devia ser excepção…O que é hoje a tua vida foi uma aposta alta mas desde que consigas dizer sem pesar "O mundo é a minha casa ", essa é uma vitória bem merecida! Um abraço, Sofia,carrega baterias por aí!

  8. Boas férias Andorinha! Dizia-te para aproveitares muito, mas já sei que sim. Desejo-te muito sol, muitos amigos, muitos abraços e muito carinho.
    (tenho uns mails para te mandar, eu chego lá!)
    Beijinhos e boas férias **

  9. Também sempre achei que em Portugal se começa a trabalhar demasiado tarde, para logo a seguir ir tomar o pequeno almoço, ler o jornal e… almoçar… Claro que depois só dá mesmo para ficar até às tantas. Felizmente eu tenho um trabalho onde começo muito cedo mas acabo também cedo. Saio às 5. Sempre dei muito valor a isso. Não sei quantificar em euros, mas são bastantes e não abdico deles. :))
    Quanto às férias, olha, para além da minha inveja, APROVEITA!!! E se por acaso passares por aqui perto…. avisa. :))
    beijos

  10. Como te compreendo. Tenho um post escrito há uns meses sobre este mesmo tema, só ainda não o publiquei porque o meu tasco está inactivo ou digamos, qualquer coisa como "idle" 🙂

  11. Parabéns pelo post ! Concordo com tudo o que escreveste.
    Se não gerisse um negócio de família que tem os dias contados, se não tivesse de assumir as minhas responsabilidades para com os empregados e se a minha profissão fosse possível " noutras línguas " ponderava sinceramente emigrar …
    O nosso país tem tanto potencial mas a incompetência de quem nos tem governado deixam-nos desmoralizados e desnorteados 🙁
    Bom fim de semana e Boas férias
    ( a vantagem das férias é que dá para aproveitar o melhor que o nosso país tem para oferecer sem outro tipo de preocupações, por isso aproveita ! )

  12. Também eu imigrante com chefes alemães, confesso que me faz imensa confusão o não sair à hora porque o chefe/patrão repara. Também eu fujo de chefias à portuguesa, e não é para estar aqui a armar-me em fina. É mesmo porque infelizmente, na grande parte dos casos, quem não fica até tarde, então é prque não é bom. Ja para não falar dos modelos de gestão, que meu deus, é melhor estar caladinha!

    Leio-te há muito tempo e é a 1a vez que comento. Gosto de te ler por imensas razões, calhou ser nest post, com o qual concordo tanto! (isso, e porque também estou de férias)

    Daniela

  13. Tens toda a razão Sofia. Por isso é que fiz bate pé aqui no escritório para alterar o meu horário. O facto de entrar às 10h e sair às 18h (em teoria, porque aqui há sempre horas de entrar, mas nunca de sair), fazia com que, para poder ir ao ginásio e às aulas de música tivesse que chegar a casa sempre depois das 21h. E eu trabalho a 5 minutos de casa!!!

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