Aqui há uns meses li um texto (de cuja origem não me lembro) que dizia algo como “as pessoas estão tão preocupadas em exteriorizar que se esquecem de interiorizar”. Isto sobre o facto das pessoas passarem o tempo todo a gravar os concertos com os telemóveis.
O que é facto, é que esse dito texto mudou a minha maneira de estar nas redes sociais.
Eu sempre tive o blog, sempre partilhei demais o que faço e do que gosto, por isso o Facebook não foi uma epifania para mim.
Mas é uma revelação para muita gente.
As pessoas partilham demais, há demasiada falta de decoro e privacidade, e exageram no que mostram ao “seu mundo”.
No entanto, o facto de eu Sofia, achar que é partilha a mais, não invalida que tenham todo o direito de o fazer. E eu todo o direito de o ignorar.
Só que o mural do FB não é um muro opaco, é uma porta transparente que põe a nú se a pessoa se sente sozinha, se está infeliz ou despreocupada, mostra claramente o evoluir de relações interpessoais que deveriam permanecer na esfera privada.
Quando alguém vai de férias com outrém e passa os dias a postar fotos de tudo o que vê (falo dos posts com mais de 10 fotos por dia), os motivos são claros e limitados:
– informar a família de que está tudo bem a cada passo;
– mostrar aos outros o que atingiu e o quanto se está a divertir em God knows where, vulgo, esfregar na tromba do outro que fez a viagem A, B ou C;
– sente-se tremendamente sozinha, e por isso partilha para obter reacções que a façam sentir acompanhada;
– mostrar a alguém “que ficou em terra” quem é e o que faz em viagem, uma espécie de folheto de venda pessoal que mostra o quão “cool” se é;
– puro e simples exercício de narcisismo.
Na maioria das vezes, o que para mim acontece, é que há uma falta de respeito enorme pela(s) pessoa(s) que nos estão a acompanhar, seja na viagem, seja no jantar, seja no concerto ou na peça de teatro, porque se convidamos ou fomos convidados por alguém pra fazer uma certa actividade, então é porque queremos estar com essa pessoa, não com o resto do mural do FB ou do Instagram. E se estamos constantemente a postar o que estamos a fazer, é porque possivelmente não estamos satisfeitos com a companhia.
Pelo menos é assim que eu me sinto. E foi isto que o tal texto sobre “exteriorizar em vez de interiorizar” me fez pensar.
É natural, se vejo algo de cortar a respiração ou que me emocionou, que o partilhe aqui no blog (no meu caso) ou no FB ou no Instagram, mas porquê partilhá-lo naquela hora ou naquele momento e passar o resto da noite atrás da password de wifi do restaurante ou do bar pra poder partilhar em real time?
Se fui a um restaurante extraordinário e amei a comida, posso até tirar fotos aos pratos, coisa que já fiz muitas vezes, e partilhar depois juntamente com uma resenha do restaurante e devidos links com contactos, para que outros possam experimentar aquele restaurante quando lá forem. E quem diz isso, diz partilhar o local e nome do restaurante, juntamente com um pequeno comentário como “recomendado” ou então “intragável”.
Se vou de férias e adorei uma determinada paisagem, tiro fotos, aponto, e depois partilho para que outros possam usar a mesma rota, quisás, ou abrir o apetite a outros para que visitem aquele sítio em particular. Faço-o imensas vezes no blog, e leio com todo o gosto os blogs de outros e pesquiso as suas experiências e escolho o que fazer em viagem com base nisso. Mas fotos de pés na areia não me dizem nada. Ou uma selfie que diz “praia” ou “Canárias”, também não me diz puto sobre o sítio onde estavam e se gostou ou não.
Se vou a um casamento, que necessidade é que eu tenho de publicar no mural dos noivos, ou identificá-los para que tal aconteça, que estou lá naquele momento? Reparem, se só se convidaram 50, 100 ou 150 pessoas pro casamento, é porque os noivos não queriam convidar mais gente para aquele momento íntimo. Ou se calhar até queriam, mas não puderam fazê-lo financeiramente, por isso deixem-nos a eles, aos noivos, publicar uma foto deles com o texto que lhes apetecer, sobre aquele acontecimento na vida deles, e depois de eles publicarem, postamos uma foto nossa, mas again: depois! Não tem que ser na hora, naquele momento.
Eu sou culpada destes pecados todos, mas mudei a minha forma de fazer as coisas depois de entender que, ao estar tão preocupada em exteriorizar a cada momento o que estava a fazer, não estava a aproveitar o momento actual, e principalmente, não estava a apreciar as pessoas com quem estava. E se calhar até estava, mas se calhar e muito possivelmente, não.
Quando fui de férias a Marrocos este ano em Maio, pus uma selfie na hora da partida, com uma cara de morta viva, estava arrebentada, mas a dizer que estava fora. O objectivo da foto era informar as pessoas que não me ligassem, que não me mandassem emails, whatsapp ou mensagens. Estava FORA. OFF. E estive. Postei uma foto uma semana depois de vir, uma foto do amanhecer no deserto, que para mim foi O momento e que recomendo vivamente.
Não o fiz pra “cagar postas de pescada”, pra fazer inveja, pra meter nojo, ou pra me auto-promover como viajante profissional. E enquanto viajei fiz questão de aproveitar os momentos para conhecer as pessoas com quem fui, e o certo é que fiz amigos, coisa que não acontecia há anos em viagem. Dá que pensar, não dá?
Estamos sempre “ligados”, sempre “on”, sempre a pensar no que os outros pensam, se fulano de tal e beltrana de tal vão gostar daquela foto, daquele momento, ou ficar roídos por não estarem lá. E não, o mural do FB, não é o vosso diário de bordo, é o vosso expositor.

Concordo contigo. Mesmo. Não sou pessoa de me expôr nas redes sociais nem no blog, pelo menos de forma directa. Às vezes lá deixo escapar qq coisa mas ramente acontece e quando o faço é um terramoto (como quando publiquei uma imagem a dizer "life sucks" e o meu telemóvel não parou de tocar). E detesto que a minha vida seja exposta no FB por outros. As únicas fotos do meu casamento na net foram lá postas por outros que não nós….
E de facto o FB é uma forma de controle que me irrita: toda a gente sabe onde está toda a gente. Ele são posts a dizer que se vai entrar no cinema, o que se jantou, com quem se jantou… uma canseira. E depois as amizades fora da rede ficam esquecidas, abandonadas e considera-se que aquele contacto no FB substitui o telefonema…
Enfim, uma tristeza. Prefiro o encontro ao final do dia para beber um café, conversar um bocadinho. Prefiro os telefonemas. Prefiro um email personalizado.
Mas isso sou eu que fiz do meu perfil do FB o perfil do meu gato 🙂
Sim, especialmente pq quem não está no FB fica de fora, o que confesso que às vezes tb faço, mas faço um esforço por não o fazer.
Pra mim é handy, pq senão não consigo comunicar com as 900 pessoas espalhadas pelo mundo inteiro. Mas cada coisa tem o seu propósito, acima de tudo o que me aborrece é "real time". Pq é que não pode ser depois? Tem q ser naquele exacto momento?
No sábado passado houve um casamento aqui na terra. A noiva ainda estava em casa e já havia fotos dela vestida de noiva no facebook. Mas que raio é isto?!?!? Eu não percebo,juro que não.
Em Outubro fui fazer a descida do Douro e não tenho fotos disso no face,então uma conhecida: foste ao Douro????? Não há fotos no facebook! Nem sabia que tinha ido!
Pois lá está,o objectivo era esse. 🙂
Bolas, se alguém pusesse fotos minhas antes de chegar ao altar, rifava-os!!!
E nem mais, não há que dizer às pessoas TODAS que conhecemos o que fizemos, nem com quem, mto menos logo na hora.
Eu publico bastantes coisas, confesso, principalmente coisas sobre os sítios que visito, mas tal como disse, a intenção é a mesma que no blog, partilhar experiências que considerei muito boas, mas não necessariamente TUDO.
Honestamente, além das cenas dos casamentos, o que mais comichão me faz, são as fotos de férias, porque se passou de partilhar um momento, pra partilhar tudo e mais um par de botas, ao ponto de sabermos o que comeram, a que horas, e com quem.
Aqui há uns meses fui jantar a um restaurante fabuloso em Amesterdão, e partilhei aqui o sítio e as fotos que a minha amiga tirou pq a experiência foi mesmo TOP, foi claramente o melhor restaurante onde comi em Amesterdão. Mas durante o jantar tive que proibir uma das minhas amigas de ter o telemóvel na mão, não porque estivesse a tirar fotos aos pratos, mas pq passou o jantar todo a ver quem é que tinha feito like, e senti que ela não estava ali connosco, mas com os amigos "lá fora".
Note-se que eu adoro estes meus amigos de paixão, e já lhes disse pessoalmente várias vezes: larga-me essa merda! Assim, letra por letra. Antes de o dizer aqui, disse-lhes isto pessoalmente. Este post não é um recado pra eles, é um desabafo pessoal. Pq sinto que não estamos juntos naquele momento.
O tempo real a mim enerva-me porque sou uma maricas e acho sempre que dizer que estamos de férias é um pedido para nos assaltarem a casa (o que até é parvo porque só tenho amigos/conhecidos confiáveis como "amigo de FB"). E concordo que seja uma falta de educação. E porque não há pachorra. O FB tem n coisas boas. E podermos partilhar coisas com n pessoas ao mesmo tempo é fantástico Mas sim, há (ou devia haver) limites
Sabias que qdo me assaltaram a casa, fizeram-no em 40 minutos, em pleno mês de Agosto, enqto eu fui buscar uma amiga a casa dela? Não é preciso estar de férias ou publicar no FB, eles controlam as nossas entradas e saídas à porta de casa. Eu tenho mais receio que me vejam sair de mochila às costas ou mala de viagem, q de postar no FB ou no blog.
Tenho que fazer uma desentoxicação de FB, sabes? Ando a pensar nisso há calendas!