O Medo

O medo é algo que foi incutido na casa do meu Tio Avô. Tudo é perigoso, tudo é potencialmente letal, tudo é passível de correr mal porque sim, porque há que reduzir as expectativas a zero. É que há medo de falhar, e assim é como se “almofadassem” a dor.
Medo.Sempre medo. E foi assim que a minha Mãe e as minhas Primas foram educadas.
Acho que aprenderam a dizer “Cuidado!” antes de Pai e Mãe.
Um bom exemplo é a minha primeira viagem de avião. Os meus Pais levaram-me ao Canadá quando eu tinha 12 quase 13 anos. Quando entrei no avião ia felicíssima. A minha Mãe estava literalmente em pânico. Sentei-me no assento do meio, e a minha Mãe no corredor. À janela ia uma senhora de idade. Peguei num livro, abri e comecei a ler. A minha Mãe cravou-me as unhas no braço e “fecha essa merda! que vamos descolar! E??? Fecha! Não fecho, que queres tu que eu faça enquanto o avião despega? Mas tu não tens medo??? Eu não. Medo de quê?”
E ainda hoje não tenho. O vôo foi um inferno, com a minha Mãe a não me querer deixar ir à casa de banho num vôo de 8 horas porque podia ser que o avião caísse. Adiantava-me muito se o avião caísse eu estar sentada ou de pé! Não que é perigoso! Oh Senhora, são 8 horas de vôo! Eu preciso de ir à casa de banho! A Senhora que ia à janela não ajudou porque foi 8 horas a rezar o terço ao meu lado. Fomos e viemos sãos e salvos e tanto eu como o meu irmão continuamos a fazê-lo. A minha Mãe não, porque tem Medo.
Medo. Sempre Medo. Medo de tudo.
Eu cresci com aversão ao Medo. E a medrosos. Frases como: cuidado que é perigoso! são frases que me levam à loucura e me fazem perder qualquer sentido da razão num fósforo. É claro que por a mão em cima do fogo é perigoso porque queima. Há senso comum, e depois há outra coisa que é: medo de ficar com marcas, ou assim dizem. Medo. Sempre Medo.
Nunca fiz bungee jumping porque a dita adrenalina que existe ao atirarmo-nos de algo muito alto não existiu quando me atirei dum penhasco com 10 metros de altura na Grécia. Quando entrei no mar não senti um “frisson”. Nadei até terra e pensei: isto é estúpido.
No entanto já fiz parapente e adorava fazer ultra-leve. Voar é bonito.
Não tenham medo de ter medo, mas não tenham medo de tudo. Não leva a nada, desaproveitamos meia vida a ter medo da reacção das outras pessoas, do que os outros vão dizer ou pensar, medo de entrar num avião, medo de mudar, medo de sair de casa. Não tenham medo. A probabilidade de cairem dum avião é igual à probabilidade de terem uma doença estranha sem sair de casa. É menor até. E entretanto a vida já passou.
Gosto de pessoas valentes, que enfrentam de caras os desafios e acreditam. Confiam. O mal de muita gente é querer Controlar. Tentam controlar porque não confiam, e não confiam porque têm medo. Eu confio em que 50% dos nossos problemas se esvaiam em segundos se deitarmos fora 50% dos medos que temos. E isso não é assim tão difícil. É só pararem de imaginar filmes futuros. O futuro ainda não chegou. O passado já está lá trás. Eu sou um ser único e individual e tudo o que me acontecer vai ser diferente do que aconteceu às outras pessoas. Até porque a reacção que eu vou ter vai ser diferente, se não numas coisas, em outras. E não é suposto nós sermos eternos. Mas eu quero morrer velhinha, e que os meus morram velhinhos também. Mas pra quê chegar a velha se não viver?
Também tenho medos como toda a gente, e também fico paralisada perante o medo como todas as pessoas.
Mas recuso-me a gerir e pautar a minha vida por ele.
Eu tenho medo de ter medo, por isso enfrento-o e não deixo que ele me ganhe.
Esta escolha é a minha e faz de mim uma pessoa mais feliz. Façam a vossa.

10 comments:

  1. Nunca percebi o medo de andar de avião. E adoro voar. A primeira vez que andei de avião tinha 10 anos. Fui sozinha para os USA. e já tinha vindo sozinha do Algarve para Lisboa de Bus. Acho que só conheci o conceito de "medo" quando cresci. Ou então o medo associado à morte… dos outros (a minha vida é estranha!).
    Concordo contigo 100%. Não nos devemos deixar vencer pelo medo. Já há tanta coisa que nos limita e sobre as quais não temos controlo que é tolo deixarmo-nos dominar pelo medo.
    beijos

  2. Quando fiz artes marciais de competição aprendi que o medo pode ser o nosso melhor amigo, mas também pode fazer-nos perder o combate.
    Pode ser o melhor amigo se o respeitarmos e usarmos para ver onde esta o perigo, mas depois temos de saber largar-lhe a mão e seguir em frente o nosso caminho.
    Ficar agarrado ao medo é perder sempre! Ou a experiência nova que podíamos ter ou dar-mos é um passo atrás quando devíamos era dar um passo em frente.

    Epá… mas convenhamos, como diz o ditado português "quem tem cú, tem medo" e todos nós temos medos diferentes que uns não percebem e que os medos dos outros para nós também não tem lógica… mas são reais.

  3. Amigo, faz-me um favor e pensa lá, mesmo bem pensado, porque é que tens medo de andar de avião? Sabias que há cursos oferecidos pelas companhias aéreas pra perderes esse medo?
    Como disse à bocado, às vezes não é medo, é que pura e simplesmente não nos entusiasma. Eu qdo tive em NY fiquei no 44° andar do hotel. Olhei cá pra baixo e fiquei enjoada, mas foi pq me veio à mente as Twin Towers. Quem tem cú, tem medo 😀
    Mas não deixei de dormir no hotel por achar q era mto alto, entendes?
    Ter medo é natural, paralisarmo-nos por termos medo é que já não é bom. Na minha opinião, claro 😀 beijos!

  4. Como te tinha dito… eu não tenho medo de andar de avião, nem de fazer rappel ou pêndulo, (Bunjing Jumping nunca fiz por falta de oportunidade) tudo o resto fiz durante anos e anos e ainda hoje se surgir a oportunidade irei fazer. No entanto descobri à pouco tempo que tenho vertigens, e foi numa coisa tão simples como andar na roda gigante do parque do Tibidado em Barcelona. No entanto esse medo ainda não me impediu de fazer o resto, (apenas não posso olhar para baixo antes de começar a fazer :P).

    Mas o que eu queria dizer é que este medo me fez aceitar melhor o medo dos outros. 😉

    (Por exemplo a minha irmã tem pânico de estar perto de qualquer animal que tenha penas, isto sim é idiota.)

  5. Desculpa, eu li que tinhas medo de andar de avião 🙂 Vertigens tb o meu Pai tem e vêm mtas vezes de desiquilíbrios de visão, pode ser físico, nao é necessariamente mental.
    A tua irmã não é idiota, mas perde toda a capacidade de amar q têm os bichos. Uma pena.

  6. E é por estas e (muitas) outras coisas, que eu gosto de ti!

    O meu maior medo é o de falhar e já cedi a ele muitas vezes. Hoje, luto contra ele todos os dias, de uma maneira ou de outra, com toda a determinação ou com algumas incertezas, às vezes em coisas mais insignificantes, outras vezes em coisas realmente importantes e olha que até me tenho dado bem 🙂

    Beijinhos

  7. Elsita, o post que escrevi a seguir é pra ti. Vais gostar de conhecer o Sebastião e tens uma óptima desculpa pra voltar a Lisboa. Casa já tens 😉
    Beijoquinhas grandes!

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