O regresso

(É favor colocar a música a tocar enquanto lêem o post, sim? Agradecida)
A um dado momento tudo se normaliza e aos poucos a vida entra numa rotina. 
Nunca fui boa em rotinas.
A minha volta a Amesterdão foi decidida num dia de Fevereiro deprimente e foi uma decisão rápida e urgente. Urgente porque estava em causa a minha sanidade mental. Precisava de deixar de me isolar. O período de retiro e introspecção durou de Novembro de 2008 a Fevereiro de 2011. Durante dois anos e meio aprendi a viver sozinha, a ter uma Petzi e assumir a responsabilidade dum compromisso com “algo”, acima de tudo aprendi a estar bem comigo mesma. Hoje em dia sou mais segura de mim, de quem sou. Aprendi a gostar da minha própria companhia.
Não estou de todo segura para onde quero ir e o que quero fazer.
Não sei se esta vai ser a minha última casa durante esta estadia (sempre temporária) nos Países Baixos.
Mas sei que tomei a decisão correcta quando durante uma semana o meu telefone voltou a tocar todos os dias, com convites contínuos para jantar, ir ao cinema, dar uma volta, sair à noite, fazer brunch e jantar em casa de amigos, e a minha reacção foi de alegria e vontade de sair e fazer mais.
Voltei a receber sms’s a horas indecentes a perguntar se não queria dar um saltinho à “xicoteca”, a jantar em casa de amigos ao Domingo, a andar de bicicleta pelo parque.
Finalmente não chego a casa ao fim do dia para continuar ligada à net. Voltei a ler livros, a apanhar sol na minha (magnífica e magnânima)  varanda, a comentar o meu dia com a Nice (que também tem sido importante nesta reviravolta do regresso), a passear a Petzi com sol, a andar de tram e aproveitar cada momento.

Hoje tinha combinado ir “brunchear” com uns colegas do trabalho que vivem aqui ao lado, uma francesa e um australiano. Pedalei até ao ponto de encontro e esperei meia hora até que decidi desistir. Tinham adormecido. Voltei para casa e no regresso decidi não voltar logo a casa, aproveitar o dia de sol e ir explorar a zona ao pé de casa que dá acesso ao Vondelpark. Da minha casa até lá são exactamente 7 minutos a pedal lento. É incrivelmente perto. Nas orelhas levava os phones do iPod carregadinho com a minha música, e deixei em modo aleatório. Entro a pedalar no Vondel ao som da banda sonora de “You’ve got mail”. De repente salta para o “Somewhere over the rainbow” cantado pelo Harry Conick Jr. Melhor só se fosse um reclame dos pensos Evax. Foi mesmo um momento mágico em que tudo fez sentido. Em que senti um SIM enorme dentro de mim e uma certeza absoluta de que realmente este recomeço tão improvisado e urgente faz todo o sentido e que estou pronta para aproveitar esta cidade ao tutano. Absorvi o parque, as pessoas que corriam, os que passeavam, os que apanhavam sol e abri os olhos com vontade de mais.
Tudo se vai compor. Cada peça.
O regresso foi feito ao som de “I’ve got you under my skin” com um Sinatra que cantou a plenos pulmões enquanto eu me emocionava com a minha boa estrela.




8 comments:

  1. Estes são de factos momentos mágicos na vida de uma pessoa.
    E infelizmente, querida Andorinha, há tanta gente que vive vidas inteiras sem estes conflitos, sem estas frustrações de escolhas, medos e inseguranças de um futuro que pode ser aquele que nós quisermos. Mas também de renascimentos, destes retornos às origens.
    Senti o mundo da minha mão quando decidi ir morar para Itália…e voltei a sentir o mesmo quando me mudei para Lisboa. Agora, volvidos quase 2 anos nesta bela cidade, sinto-me a cair numa rotina…e não estou a gostar. Sinto falta destas borboletas no estômago de início de uma nova vida.

  2. Juro que enquanto lia quase me emocionava até chegar à frase: "Melhor só se fosse um reclame dos pensos Evax"… LOL
    Sê muito bem vinda a Amesterdão!

  3. Olá Rafa,
    Não sei se toda a gente precisa destes renascimentos. Eu com certeza que sim. É assim que cresço e me reinvento.
    Mais ou menos de 3 em 3 anos tenho esta coisa de mudar a minha vida de cabeça pra baixo e voltar a fazer tudo do zero. No entanto descobri nos últimos anos que PRECISO de uma determinada rotina, e daí também a Petzi, pra me obrigar a ter alguma que me faça sentir os pés mais agarrados à terra.
    Ontem não tive borboletas no estômago, ontem tive certezas de que pertenço a esta nova vida que acabo de reinventar. As borboletas não são (mais) uma necessidade, às vezes são uma consequência. Essa foi outra descoberta: que posso fazer as coisas sem me alterar por completo e ter o estômago em revolução. Acho que é da idade :))) Beijo grande!

    I. tens que vir pedalar comigo pelo Vondel 😉

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