Perguntam-me muitas vezes como é que são as chefias Holandesas. Quando tento explicar que, apesar de serem aparentemente frias, são mais humanas que muitos chefes Portugueses, as pessoas ficam intrigadas e depois do “wow, a sério? Ele/ela disse isso?” surgem mais perguntas sobre a cultura em si.
Esclareçamos que em todos os Países, Culturas e Nacionalidades existem chefes competentes e incompetentes. Chefes que nasceram para ser chefes (os que eu denomino como People Managers) e aqueles que nasceram para serem meros executores de ordens superiores sem qualquer uso de critério (os maus chefes). Eles existem em todos os lados, em todas as organizações, é escusado discutir.
No entanto, embora aqui também existam maus chefes como em todo o lado, existe uma cultura de humanização do chefe:
– Regra geral eles apresentam-se de um modo muito acessível, sem Doutores ou Engenheiros que suportem o cargo.
– Quando é necessário dirigir-mo-nos a eles, podemos fazê-lo de forma aberta.
– Se temos um problema pessoal ou familiar e o expomos de forma concreta, dão-nos tempo (por lei temos direito a 15 dias para cuidar de familiares, sendo que têm que ser gozados de uma assentada, e recebemos 75% do valor diário de salário relativamente a esses dias) para o solucionar e não nos telefonam 20 vezes a pedir informações sobre o nosso trabalho.
– Falarmos com eles sobre férias e sobre os filhos são o maior desbloqueador de conversa que existe.
– Não são pessoas de ir a casa da família todas as semanas (nem pouco mais ou menos), mas fazem um esforço por compreender que a nossa (minha) cultura é diferente, e como somos latinos (e “com o sangue mais quente”), temos maior necessidade de estar perto, logo permitem que possamos trabalhar remotamente ou em situações de crise ou em períodos críticos como o Natal.
– Respeitam incondicionalmente o nosso período de férias, e quando vamos de férias, vamos mesmo, ou seja, há alguém que nos substitui e durante as abençoadas 3 semanas que vamos, não há telefonemas, nem pedidos de acesso ao email, nem nos telefonam para o telemóvel pessoal. Que é pessoal, e como tal eles não têm, nem querer ter, acesso ao número.
– E o que eu mais gosto: sabem apreciar as qualidades dos seus recursos e somos reconhecidos pelo que fazemos. Em Portugal multiplicamo-nos em 20 postas e pedaços e mesmo assim o chefe diz: podias ter feito melhor. Isto não foi suficiente. Mas tá bom. Até chega.
Aqui não. Aqui somos reconhecidos quando trabalhamos e pelo esforço que fazemos. E o que é melhor: dizem-nos isso! E sabe muito bem chegar ao final do ano e saber que somos reconhecidos. E nem é pela bela da palmadinha nas costas, é mesmo porque no mínimo, não nos fazem sentir desvalorizados para se valorizarem aos próprios.
Para tentar explicar um bocadinho este texto de uma forma prática, deixo-vos as palavras que recebi esta manhã do meu novo Big Boss. Espero que assim seja mais esclarecedor do que estar aqui apenas a tecer elogios aos Holandeses.
“My name is XXXX, an IBM-er since May 1997, currently living in Haarlem after having moved 27 times in 40 years across 7 countries. The “Francophones” in Belgium will no doubt be happy to hear that due to my French wife, I also speak fluent French, as does our 5 year old son.
Ever since the first days on the job, I have been impressed with the Services Delivery team. The level of professionalism, passion to deliver the best 24/7 service to our customers and dedication to IBM’s success, is equal to the best this company has to offer.
It is clear to me too that very few IBM-ers outside this team realize the breadth and depth of what you mean to our customers. It may very well be that you and your capabilities are the best kept secret inside IBM, something we should all work on changing.“
É por coisas destas que ainda cá estou. É que esta “diferença” em particular, pelo menos para mim, é muito importante.


Não é à toa que o nosso país está cmo está: há graves falhas a nível de liderança. A maior diferença acho que está precisamente nessa falta de reconhecimento do mérito, na falta de ênfase no sucesso individual ou das equipas (mas há sempre grande realce nos falhanços).
E acho (sinto) que há muita prepotência, as chefias confundem facilmente a liderança com o poder pessoal sobre os outros. E as hierarquias (bem demarcadas pela deferência com que exigem ser tratados) o uso de títulos como o Dr. etc., mostram bem o nosso terceiro-mundismo.
No sector privado, muita coisa já está a mudar, mas no sector público….!
Eu não sei como é que é no sector público aqui, pra te ser sincera. Sei que falam pouco inglês e que nunca sou escolhida pra conhecer esses clientes pq nao falo holandes :)) Por isso não posso ter uma opinião formada concreta, mas olha que me pareceu tudo mto mais horizontal.
Não sei se é cultural, mas aqui a cena da prepotência não funciona. A frase: fazes pq eu tou a mandar… NUNCA a vi colar com holandês algum, pq eles sao habituados a questionar tudo desde pequenos. Tudo tem q ter uma razão lógica e um sentido. Tens de os convencer e negociar com eles. Tudo, mesmo tudo.
Nunca vi subserviência cá como se vê em Portugal entre Patrões e empregados.
O que não quer dizer que eles sejam mto melhores qualitativamente no trabalho, mas são com certeza pessoas mais felizes e mais realizadas. Menos amargos, sabes?
São mtooo mtoooo individualistas, não te enganes, ah!
Isto de 1° mundo e 3° mundo… é uma classificação difícil…!
AH!! Aqui vigora O PROCESSO!!
Se está no processo, eles fazem tudo, mesmo que seja mto estúpido. Se não estiver no processo, podes ficar rouca, louca, que eles estão-se a cagar pra ti. Asi de claro.
Gosto de pensar que por cá as coisas estão a mudar. Já há muito chefe que tem uma postura diferente. Eu, por ex, não me posso queixar muito (se bem que às vezes a minha chefe leva-me à loucura) porque sempre tive reconhecimento pelo trabalho e esforço. O meu maior problema foi quando comecei a trabalhar, vintes e poucos, uma miúda (nessa altura nem sequer usava saltos altos) a trabalhar num mundo de homens. Mas sei que sou uma previligiada…
e a pensar de acreditar que muita coisa está a mudar (como disse acima) sei bem que esta crise vai dar muitas "desculpas" aos patrões para fazerem um pouco de chantagem com os seus (escravos) trabalhadores.
beijocas
Andorinha, aí vigora o procedimento, queres tu dizer 😛
Como me revi nesse texto e no entanto nunca vivi na Holamda. Mas trabalhei numa empresa holandesa e é tal como dizes sem tirar nem por. Que saudades, que belos tempos me fizeste recordar 🙂
Pat, tive excelentes chefes em Portugal que reconheceram o meu trabalho. Mas não é tipicamente Português soltar um elogio. É tão pouco habitual como nós sabermos receber um :)) Hás-de reparar que, regra geral, temos todos imensa dificuldade em receber elogios. Isso é pq não faz parte da nossa cultura louvar os outros a não ser que façam algo de extraordinário. É como aquela cena da nota máxima daquela cadeira ser 15 e tiveste um 14, e eeeeeeeena, é mta bom. A nota máxima é 20. Pra que é que querem os outros 5 valores? Vai lá explicar a um Holandês que o prof só dá até 15… ah pois é 🙂
Jibóia, o meu sonho agora é voltar pra Portugal, mas pra trabalhar numa empresa Holandesa 😀 POR EXEMPLO, a Heineken!! Tem as minis da Sagres! Não era uma excelente empresa? Mentalidade holandesa, no sol da Tugolândia e com direito a minis. Oh doce paraíso!!
Andorinha, e eu vou como teu assessor 😛
Qual quê! Meu colega! Isso é que era! Assim podíamos arranjar os dois uma colega com tiradas "a la Carmen". Com minis, era a loucura!
Dois pontos a salientar nesta cultura.
1. Se somos reconhecidos também vemos esse retorno com mais responsabilidade + regalias + prémios + formação (o sinal + pode ser interpretado como ou/e. É sempre a subir, penso eu.
2. Mercado altamente flexível. Não interessa muito o teu background, no final (não é assim em alguns sectores), mas sim do que és capaz.
Daniel
Concordo 🙂 E já repaste que há imensa gente sem formação superior? Como dizes, o que conta é aquilo de que és capaz.
Escrevi um post recentemente sobre a relação dos franceses com a hierarquia. Ainda não é TAO avançado como ai, mas para la caminhamos.
E que giro… és uma IBM-er… eu sou uma Danoner 😉
Eu li esse post 😉 És uma Danoninha!
E tens muita sorte em não ser um actimel!
///cynic mode on
Good words by our new Big Boss. Every new Big Boss starts with good words, lets wait and see ….
///cynic mode off
Even though, this was just an example. There are good things that you learn to appreciate in management in the Netherlands (done by DUTCH!Not by BE) compared to management in Portugal.
Every new boss that hadn't his balls squeezed like oranges for juice by executives: starts nicely. 😉
AGREE
Remarkable to notice the difference in management attitude by NL and BE managers