
Em Lisboa eu bufava, eu ficava azul às bolas se me diziam: vens da Província não é?
Era a mesma coisa que me porem um selo na testa de labrega. O sorriso desaparecia e dava sempre lugar a um: perdão? A CIDADE de Braga é Província? Eu trago algum cesto de roupa à cabeça ou trabalho lá na sua casa a esfregar tachos?
Se era um Cliente ou um Superior substituía por: eu pensava que esse termo tinha desaparecido…até porque nunca entendi bem a definição LISBOETA de Província….
No meu entendimento, com tanto filme dos anos 40, a pessoa da Província era aquela que vinha p’ra Lisboa servir os Senhores. Muito boa pessoa, mas vinda lá das berças. Ora usar esta expressão nos dias de hoje só pode ser um insulto, não tanto à minha pessoa, mas à minha cidade e a todos os que lá habitam. Eu amo Lisboa, mas viro uma verdadeira onça quando me vêem com a conversa de que Lisboa é Lisboa, o resto é paisagem.
É verem-me por as mãos nas anquinhas, rodar a baiana e sair da frente. Com muita, muita rapidez. Pra mim provinciano é aquele com uma mentalidade tacanha, de aldeia.
Quando fui viver pra Breukelen disse que tinha ido parar à Holanda rural, mas também que o sítio onde eu morava era uma espécie de Estoril cá do sítio, o que não deixa de ser verdade. As casas lindíssimas e senhoriais, 95% da população era holandesa e tinha bom aspecto. Havia efectivamente muitos pastos, muitas vacas, muitas ovelhas, muitos produtores de queijos mas todas pertencentes às grandes e bem bonitas quintas que ficavam ao lado da minha casa.
Aqui há uns tempos uma amiga minha brasileira disse a seguinte frase que para mim é um must: “A Holanda é uma Fazenda Hi-Tec.”
Ou seja, basicamente, podes tirar o holandês da Holanda Rural, mas não podes tirar o rural do Holandês. Tou a falar do meu antigo Senhorio. O Mocinho deve ter praí a minha idade, mais ano menos ano. Vive na Tailândia. Foi sempre muito simpático, até ao dia em que chego de férias em Junho e tenho um email seu de 3 linhas, curto e grosso, a comunicar-me que a varanda tinha inundado duas vezes porque EU NÃO A TINHA LIMPO, que a entrada da casa esta IMUNDA, que a minha cadela cagava na varanda DURANTE DIAS E EU NÃO LIMPAVA, que EU FAZIA BARULHO DE NOITE COM OS TACÕES e o detalhe: QUE OS VIZINHOS SE TINHAM QUEIXADO DE TUDO ISTO.
Ora eu fui à lua e vim em 3 tempos! Chamei pela puta da vizinha cínica do lado, ela sorriu muito, perguntou-me que tal as férias, eu fiz o sorriso mais amarelo que consegui, e ela lá me explicou que o tubo das águas que passa na minha varanda tinha inundado a dita, que tinha havido umas chuvas torrenciais durante duas semanas, que como eu não estava em casa e eles não tinham chave (era o que mais faltava!!!), que tinham tido de saltar pela varanda porque, coitadinhos dos vizinhos de baixo, tinham levado com a água toda. Continuando com o sorriso amarelo perguntei se já lhe tinha acontecido a mesma coisa, e ela responde que sim, que por isso é que tinham posto uma colherzinha ali mesmo ao pé do tubo porque impedia o filtro de acumular folhas e assim já não entupia.
Não sei se tão a ver que a merda do filtro tava obviamente limpo, assim como a varanda, tal como EU A TINHA DEIXADO. Foi tudo questão de por lá a puta da colher e que não chovesse torrencialmente, óbvio.
O resto é LÓGICO que não se aplicava, pelo que mandei um email ao meu senhorio a desancá-lo por ter acreditado nos vizinhos. Expliquei tintin por tintin, ele não pediu desculpas (os holandeses lá pedem desculpas?!), mas disse que ficava contente que estivesse tudo regularizado.
Um rapaz inteligente e novo, acreditar em tricas dos vizinhos, é algo que me transcende. Não consegui entender.
Até que fui devolver a casa e os Pais deles estavam lá pra verificar na entrega. Percebi finalmente donde vinham todas aquelas cortinas pirosas, os suportes de plástico azuis da casa de banho, aqueles móveis dos anos 80, aqueles sofás horrorosos azul eléctrico, percebi tudo tudo tudo quando vi os Pais do Mr. Wilco. Pareciam tirados daqueles filmes dos anos 80 americanos, do tipo que vão viver pra Flórida para aquelas casas que eles compram na velhice, onde depois usam camisas às flores o tempo todo e vestem como se tivessem parado no tempo. Cocoon!!
Eu entreguei a casa, fiz mais sorrisos amarelos quando a Senhora me perguntou com um sorriso ainda mais amarelo (ao ver que tava tudo guardado dentro dos móveis pra ela colocar de novo nos sítios. Sim, porque eu e a Ni escondemos todo e qualquer tareco que tava naquela casa, inclusivamente pratos e copos) se eu não gostava da decoração! (Are you f* kidding me?)
Há uma semana atrás recebi uma conta da companhia da electricidade completamente absurda referente aquela casa. Mandei-lhe um email a pedir pra rever o que se passava com a instalação eléctrica já que eu tinha uma factura equivalente a 5 famílias holandesas todas juntas. Ele respondeu que ia ver com o Pai, e que , ó, by the way, os Pais lhe tinham dito que eu não tinha entregue cartas muito importantes do Governo e que se não fosse a Mãe dele ter telefonado lá pro sítio e ter explicado tudo, teriam de ter pago as penalidades.
Como já lá não tou, e como sou escorpião e pra tal já tinha engolido “provincianismo” a mais (quem caralho é que aos 30 e muitos acredita e REPETE o que os Pais dizem de forma tão escarrapachada?!), escrevi, com cc da Senhora Mãe dele: não fazia ideia de que tinha cartas do Governo, até porque nenhuma delas era azul (é a cor das cartas dos impostos), e as da Câmara Municipal (CM é GOVERNO?! Deves achar que eu sou burra!) pensei que eram meramente informativas uma vez que EU já tinha pago os impostos.
Além disso, uma vez que a casa era OFICIALMENTE ALUGADA, não devia o Senhor pedir nos correios para dirigirem esse tipo de correio para casa dos seu Paizinhos?! Assim podia evitar situações destas, certo?
Mais um brilhante sorriso amarelo e um mental grande: Fuck you ó meu ganda postal, que continuas a ouvir vizinhos e tricas e ainda tens a veleidade de acreditar nos exageros da tua Mãezinha que só se quer mostrar como capaz de tomar conta da tua casa. É que estes Pais holandeses contrariamente aos normais, nota-se mesmo que querem o filho debaixo das saias. E tu, ó meu ganda burro, não és capaz de ver isso?! PROVINCIANO!!!!

O resto nem vou comentar porque não vale a pena, quanto aos papéis oficiais isso deve ser mesmo o senhorio que é bronco porque a minha casa só chegam coisas sem importância em nome do senhorio, o resto de certeza que vai directo para ele…
Também acho que a "provincia" está na cabeça das pessoas e não no sítio de onde vêem. Mas o teu ex-senhorio só pode ser provinciano do mais saloio possível…
(isto fez-me lembrar: "Olha, aquela vai à terra!" 😉 )
Beijosssss
Eu pensava que o meu marido era um escorpião venenoso e de mau-feitio, mas parece que há pior. lol
Tia Maria, mau-feitio e venenoso, não. Eu não gosto é de injustiças, muito menos de gente com ideias e mentalidades curtas quando esperava que tivessem vistas! O meu antigo Senhorio é um conas e um influenciável! E a Mãe dele faz lembrar aquela do Everybody Loves Raymond, sabes como é?
Para te por a rir um bocado depois desse stress todo com esses Cocon's: sabes o que eu sempre detestei qd via os turista a passear pelo Porto? Sandálias e meias nos pés para não terem frio, tá claro… gozava à farta com essa endumentária… Sabes o que me saíu na rifa como sogros? pois…
então pra te rires mais um bocadinho, diz-me: o teu sogro é como este senhor da foto de bigode?
http://andorinhaquevoa.blogspot.com/2008/09/holanda-rural.html
Obviously, the effing landlord (…and his mum…and the neighbours) spoke in 'double dutch'.
Em relacao aos escorpioes, que fique bem claro de uma vez por todos, sao todos excelentes pessoas e nao tem nada MAU FEITIO, nem sao nada VENENOSOS…..;)
ah, minha cara Andorinha, como eu te compreendo. A raiva que me dá quando certos Lisboetas (não são todos obviamente mas mais do que alguma vez imaginei) tratam os ditos "provincianos" como burros. Como se não houvesse informação lá nas cidades longe de Lisboa, como se todos fossem uns coitadinhos, incapazes de pensar, de ter opinião válida. como se lá na provincia, mas aldeias e cidades ainda se vivesse no séc. XIX.
Fico absolutamente passada…..
Quanto ao teu antigo senhorio…. bem que grande cromo. Ainda bem que se livraram dele….
beijinhos
Pat
Eu tenho histórias hilariantes sobre isso, mas uma das pessoas que dizia essas coisas de vez em qdo vem-me cá ler, e não quero ferir susceptibilidades, até pq é uma pessoa especial e de quem gosto mto, mas havia alturas em q me apetecia rifá-la! 😀
Descobri o blog agora enquanto procurava perspectivas de pessoas reais a viver na Holanda neste momento e só agora li este post (felizmente, se for para a Holanda, não será para Breukelen e não me devo cruzar com o seu adorável senhorio).
Sobre o conceito de 'província' usado em Lisboa, não vale a pena levar a mal pois nem sempre tem a conotação negativa que as pessoas pensam; qualquer dicionário de língua portuguesa lhe dirá que 'província' se refere a toda e qualquer região de qualquer país que não seja a sua capital. Ou seja, Braga é província mas também cidades como Nova Iorque, Milão, Barcelona, São Paulo ou Rio de Janeiro são província nos seus países. Não tem que ver com mentalidade tacanha mas sim com uma classificação administrativa.
(Acrescento que não sou de Lisboa, ainda que de momento esteja a viver cá; cresci numa aldeia e também eu julgava que a associação entre mentalidade de aldeia e tacanhez já não se usava…)
Olá, tudo bem? Eu estava mesmo fula neste post, até tenho vergonha de tanto palavrão 🙂
O certo é que o meu senhorio era como um soco, mas a estas alturas do campeonato, além de já não o ter, tb já conheço os Holandeses um bocadinho mais e sei que são muito coscuvilheiros e adoram saber o que se passa em casa dos outros, por isso é que os meus vizinhos ficaram danados por eu não lhes dar confiança. Também sei que, apesar da afamada frontalidade, há mtos que não gostam de conflitos e como tal queixam-se ao senhorio e não ao inquilino.
Continuo a achar que Breukelen foi o sítio mais bonito onde já vivi, mas efectivamente a aldeia não é o meu lugar.
Vivi 8 anos em Lisboa, e sei que província pode ser dito com essas duas conotações, e uso o termo provinciano qdo quero referir-me a alguém de mentalidade pequena, não necessariamente de aldeia. Eu continuo a não gostar que me perguntem se venho da província, capital ou não, Braga é uma cidade muito antiga, mais antiga que Lisboa, não é "paisagem".
Viver na Holanda não é difícil, é só diferente 🙂
Boa sorte!