Hoje mudei de edifício. Mudamos para o outro lado da rua, logo a transformação não é assim tão grande, mesmo assim deu para ver comportamentos e reacções. Recebemos um email 4 dias antes a dizer: quarta-feira mudem-se pro andar X no edifício A. Há caixas ao pé das secretárias para esvaziarem os armários. Foi assim. A frio. Sem anestesia.
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Lembro-me que quando mudamos de Alvalade pro Oriente foi uma tragédia grega, porque os filhos estavam nas escolas mesmo ali, porque o marido ou a mulher trabalhava ali ao lado e vinham os 2 no mesmo carro, porque há anos que compraram a casa ali ao pé só pra não terem que fazer mais que 3 estações de metro, e o que dizer do que iam sofrer os senhores da padaria, da churrasqueira, da perfumaria, do talho que era tão jeitoso, daquela loja onde éramos clientes há 10 anos e já sabiam o meu número e faziam desconto e tudo e mimimimimimimimimimimimi.
Foram meses de tortura, com todos a queixarem-se e os poucos que andavam contente com a mudança, caladinhos, não fossem alguém arrancar-lhes a pele por estarem felizes porque se não era conveniente pra maioria, também não podia ser conveniente pra eles!
A ideia que eu tenho é que os Holandeses não vivem ao pé do emprego. Vivem onde gostam. Também não é necessariamente ao pé dos sogros ou dos Pais por causa das crianças.
É onde podem comprar e onde gostam da casa. E de X em X tempo, consoante os acontecimentos da vida, mudam de casa. Regra geral mudam de casa quando vivem sozinhos por vários motivos (chegam a mudar-se uma vez por ano), mudam quando se juntam/casam, depois quando têm filhos (porque vão para sítios onde os miúdos podem brincar com a natureza. Muito gostam estes gajos dum sapo, senhores!), consoante o número de filhos que tenham ou uma ou outra razão, podem mudar mais 2 ou 3 vezes, e finalmente, mudam quando estão perto da velhice e os filhos estão fora de casa, e compram uma casa de rés-do-chão, se possível sem escadas e com um quarto apenas (que é pro casal, não há cá quarto pros filhos ou visitas! Pro sogro/sogra/Pai ou Mãe, esquece lá isso, é o lar que é pra onde querem ir os velhotes ó pá, vou agora eu ficar aqui com o chouriço em casa! Adiante!).
O certo é que a mudança de edifício foi feita com tão pouco alarido, que eu hoje até fui pro antigo e esqueci-me que iamos mudar. É que ninguém se queixou! E as caixas foram cheias até às bordas, e não houve ninguém a “chorar” porque aquele disco que consegui comprar em 1976, com todos uns 128K, ia ter que ir pro lixo.
Lembro-me ainda que quando mudamos de Alvalade pro Oriente tive uma ideia peregrina que foi adoptada: tinham direito a uma caixa os “mobiles” e os “fixos/serviços centrais/administrativos” tinham direito a duas caixas. Tudo o resto que era acessório devia ser dispensado e deitado fora, ou levado pra própria casa.
A quantidade de lixo gerada era absolutamente inacreditável! O destruidores de papel encravaram várias vezes e os caixotes do lixo esbordavam com tirinhas e tirinhas e tirinhas de papel branco.
Eu também levei uma caixa. Quando cheguei ao Oriente, pus tudo num armário e nunca mais lhe mexi até que passado ano e meio tive que mudar de edifício outra vez. Deitei tudo fora, ficaram só 2 ou 3 dossiers.
Quando vim de Lisboa pra Amsterdão peguei nesses 2 ou 3 dossiers e fi-los em tirinhas. Não trouxe nada comigo excepto um disco rígido com informação pessoal.
Estou cá há dois anos e meio e hoje mudei de edifício novamente.
O meu armário estava vazio.
Trouxe o computador e a agenda às costas, e contentinha da vida sentei-me noutra cadeira, encostei-me a outra mesa e estou noutro edifício.
Ao longo de todos estes anos aprendi a deixar pra trás o que não interessa, a deixar de me agarrar ao passado e aprendi a agarrar-me à mudança. A mudança é leve. Tudo o que era acessório ou supérfluo ficou pra trás. Não tenho cá a folha, a foto, aquele post it e mais a data de traquitanas que tinha antes por isso agora: é fácil seguir em frente.
13 de Outubro de 2010
PS: Estou contente porque neste edifício há mais movimento, mais pessoas, há gente de mais Países e acima de tudo, mais novas. Nada contra os mais velhos, mas tenho 3 colegas de bengala, não estou a brincar. A média de idades era de 47 anos. Agora pelo menos tenho malta que me anima o dia!


O segredo das mudanças está em sabermos nos adaptar a elas, e isso engloba qualquer dominio da nossa vida, quer sejam mudanças fisicas ou psicológicas! bjs
POis olha, por aqui ameaçam que mudamos na 2ª feira. Vou para a beirinha de casa – cerca de 150metros – e o que me assusta??? O que me assusta mesmo é q vou estar junto dos da 3ª idade…e nem é o por isso, é mesmo porque sendo isto Portugal, as bengalas sao mesmo isso – bengalas nas quais estão apoiados, e cheias, cheiinhas de vicios… Medo, muito medo!
@PG – sim, mas falar é fácil. Aprender a mudar é que já é menos. Eu não tenho nem nunca tive questões com a mudança. E tou cada vez melhor na coisa ;))
@Claúdia, tou perdidinha. Vais ficar a 150 METROS de casa?! Mas mudas pro pé dum lar de 3° idade? 😉 Eu gosto dos meus colegas + velhos, são + pragmáticos, não têm aquela coisa das tricas, sabes? Mas qdo lhes dá pra ficar pecos… ai ó pá, q o Nené ao pé deles é um menino!
Gostei deste post. As mudanças são óptimas para nos livrarmos do supérfluo e nos cingirmos ao que é realmente importante. 🙂
Epá, fiz a mudança de Alvalade e só levei a mochila do portátil.
Em Alvalade tenho um Armário e já há 3 anos que não sei da chave dele… (também acho que só tem manuais de learning)…
A mudança assusta… é verdade, mas continuo a achar que a mudança é sempre boa.
Como é que ainda tens um armário em Alvalade?! Ou queres dizer Oriente?
Eu cá, gosto sempre de mudar e de aproveitar para deitar um monte de coisas fora. Parece que fico mais leve e desempoeirado.:)
Então e o Macintosh em plano de fundo…ninguém fala dele!!!
Mas sim, é uma marca fabulosa com produtos resistentes às intempéries dos tempos, tal como outra que conheçemos, soube "mudar". Enfim…cê lá vie…e temos que aceita-la com a mesma normalidade do ar que respiramos.
Gostei do post.
O MAC é como eu: cheio de design! ;))
Este ano fui pela primeira vez a Amesterdão…fiquei 4 dias…e senti que tinha vivido lá a minha vida inteira!!!
Vim para Lisboa com um nó na garganta…e no aeroporto, as minhas ultimas palavras em solo holandês foram " é aqui que quero viver…é aqui que quero criar os meus filhos…"!
Desde então nao tenho feito outra coisa, senão "magicar" uma maneira de me fazer apanhar novamente o avião com destino a Amesterdão…
Ao ler este blog, não só reforcei a minha decisão, como desatei o nó…e estupidamente encheram-se de lágrimas os meus bonitos olhos!!!
É roidinha de inveja que te desejo as maiores felicidades do mundo
Olá Sara,
Faz-me só um favor e: nada de invejas! 🙂
Lembra-te do ditado que diz: Deus te dê em dobro tudo quanto me desejas! :))
A mim aconteceu-me exactamente a mesma coisa. Senti que queria viver aqui porque já "cá tinha vivido". Mas eu não quero que os meus filhos cresçam aqui. E tu também não vais querer.
Mas se quiseres mesmo muito cá viver, aconselho-te duas coisas:
1) que comeces por te inscrever num curso de holandês em PT pq com a mudança de governo na Holanda eles estão cada vez mais a contratar apenas pessoas que sejam Dutch speakers.
2) Empenha-te a fundo e investiga o top 10 das empresas holandesas, vê o que consegues encontrar em http://monsterboard.nl/ que te agrade na tua área.
3) Usa e abusa do pensamento positivo e imagina a tua casa em Amsterdão, faz pesquisas na net, e vê que tudo se resolve sozinho e por magia parece que tudo, mesmo TUDO, se desata.
Muito boa sorte é o que te desejo! E qdo cá chegares, apita! Há tooodo um mundo de gente portuguesa e estrangeira e imensas peripécias e muito frio e mau tempo compensado com amizades, à tua espera 🙂