Do que é que eu mais gosto na Holanda

Podíamos falar do preço das flores que é tão baixo que me permite ter flores em casa todos os dias, ou da frontalidade que os caracteriza, podíamos falar de eficiência nalgum que outro processo burocrático ou da informatização de tudo o que os rodeia, mas eu quero mesmo falar é dos meus Chefes.
Tenho três Chefes, duas mulheres e um homem.
– A minha Chefe funcional, a Ingrid;
– A minha Chefe de recursos humanos, operacional, vá, que é a Monique;
– O Chefe das minhas duas Chefes e por inerência, o meu Chefe também, o Michiel (lê-se miggggil)

Ontem mandei um email a um Chefe doutro País pelo qual, com toda a certeza, teria sido crucificada em qualquer País. A minha antiga chefe Belga dizia-me muitas vezes que tinha que melhorar as minhas “communication skills”, aparentemente sou “uma besta” ou em eufemismo: não sou politicamente correcta.
Pois o meu Chefe recebeu o email, e não só o mandou pras hierarquias como acrescentou: a Sofia é uma das melhores profissionais da minha equipa e o que ela escreveu é um alerta que não podem descurar. Recebeu-o um Húngaro que é o Chefe funcional da minha Chefe funcional Ingrid.
 O Húngaro mandou-o pro Chefe dele (Holandês) a dizer: acho isto inacreditável, parece uma teoria da conspiração. O Holandês respondeu ao meu Chefe Michiel dizendo: não aceito este tipo de emails e comportamentos na minha Equipa (da qual eu faço funcionalmente parte) e preciso de pessoas que digam “I can do it!”. A Ingrid mandou-me o email como FYI.
E eu, quando li aquela novela que lá ia, depois de 14 horas de trabalho no pêlo ontem e mais quatro horas hoje, a caminho das dez, não fui de modas e peguei no telefone e liguei pro Holandês que é Chefe do Húngaro que é Chefe da Ingrid e em dez minutos expliquei-lhe o conteúdo do email e também, que lhe estava era a salvar o pêlo.

Agora vêm as diferenças, e se preparem:

– Cenário 1 – o que se teria passado noutro País qualquer, principalmente em Portugal:

O meu Chefe directo teria sido trucidado pelo Chefe dele porque ele não tinha mão no recurso (a saber, Euzinha), chefe esse que me teria praticamente degolado pelo conteúdo do email sem sequer me consultar, aplicaria a chamada técnica de chefia de guerra: bate primeiro, pergunta depois.
O problema teria sido passado para segundo plano devido ao facto de eu não ter sido politicamente correcta e o meu email carecer possivelmente de objectividade pouco fundamentada (o que não é verdade, já agora vale a pena sublinhar, mas eu não lhes apresentei um estudo catedrático pra provar o que dizia no email).
Teria de fazer o dito estudo catedrático e posteriormente voltar a enviar novo email, livre de “subjectividade”, e revisto pelo meu chefe, não fosse eu escrever novamente algo politicamente incorrecto. O email seria enviado à minha Chefe, que depois o transformaria, e daí enviado pro Chefe dele, e por aí pra cima. Como o Chefe da minha Chefe e por aí pra cima recebem dezenas de emails, o meu email com o alerta teria levado dois meses a chegar “a Roma”, e o meu projecto ter-se-ia atrasado 4 meses, e os meus chefes massacrar-me-iam com o incumprimento do deadline durante esses 4 meses e os 2 futuros, e dir-me-iam coisas como: enquanto não acabares isso não podes voltar pra Portugal. Clarinho, limpinho, era assim sem tirar nem por. E a responsabilidade do problema passava a ser minha, porque eu devia era ter sido mais objectiva e ter mais communication skills.
Been there, done that. Don’t like it. O que eu faço nestas situações agora não é praqui chamado, mas digamos que eu tenho muita personalidade….adiante!

Cenário 2 – o que se passou hoje e mais concretamente, na Holanda com Holandeses:

O já acima mencionado, ou seja, reforço do meu email enviado para as chefias superiores com um voto de confiança, seguido de vários mal-entendidos. Sofia agarra no telefone e liga directamente pro chefe do Húngaro sem falar com os chefes dela. O Holandês pára tudo e sai duma reunião (isto é extremamente raro!) pra atender a chamada da Sofia, ouve-a com atenção durante 5 minutos, passa os próximos 5 minutos a definir um plano conjunto e programa-se a actividade que resolve o problema pra dali a 15 dias exactos. Dali a 15 dias há um plano, dali a 6 meses já não há a chamada “raiz do problema”. Sofia agradece, o chefe do outro agradece também, e desliga a chamada.
Passado 10 minutos e durante a tarde, Sofia fala pessoalmente com a Chefe Ingrid, com o chefe dela Húngaro, com o Chefe da chefe Michiel, e todos lhe dizem que fez tudo muito bem feito e que é por emails e telefonemas destes que gostam de a ter na equipa.
Sofia não quer acreditar no que lhe dizem, sua boca cai aberta até ao chão provocando uma pergunta do chefe Michiel que quase a atira pra uma síncope:
– Porque é que estás tão espantada por nenhum de nós achar que tu fizeste algo errado? Diz-me Sofia, porque agora estou deveras preocupado: tu achas que nós não te damos valor nesta empresa? (Do you feel unappreciated here?)

– What? I’ve never felt so appreciated in my life! This is why I LOVE working with you guys and I don’t mind doing it for the rest of my life! You even let me do it under my Portuguese sun, what more can I ask from you?!

Sofia recebe de volta um: I’m SO happy you are in my Team!! E um abracinho dos Chefes (juro!! physical touch!), e vem pra casa morta, torradinha destes miolos, mas com uma alegria e um sorriso de orelha a orelha que nem a p… da dor de cabeça que tenho, conseguem arrancar da sua tromba.
Liga à Chefe Monique, diz-lhe que está podre, pergunta se pode folgar amanhã. Do outro lado da linha ouve: Sofia, I completely trust your judgment, if you think its ok to have the day off, please do.

Corolário:
Se não és politicamente correcto, a Holanda é o País pra ti.
Se queres ter liberdade de iniciativa, a Holanda é o País pra ti.
Se atropelas as hierarquias e não tens paciência pra falar com dez chefes até chegares ao gajo que toma a decisão, a Holanda é o País pra ti.
Agora, se queres ter os melhores chefes do mundo, tens que trabalhar na IBM Holanda e eles têm que se chamar Ingrid, Michiel e Monique!
Mas aviso-te, se mos tentares gamar, eu arranco-te a cabeça ó filha da mãe!!
MY PRECIOUS!!!
MINE!!
MIIIIINE!!!

Eu adooooooooro estes Senhores. Muito, muito, muito!

6 comments:

  1. Inveja pura e dura. Tenho que ir para a Holanda. (também não sei se chego viva ao final da próxima semana (ando a ver se penso a curto prazo, porque a verdade é que estou à beirinha de flipar – e que quando atinjo o limite deixo de ser politicamente e socialmente correcta).

  2. Ai, é mesmo disso que eu preciso. Ando aqui a escolhar palavrinhas e a por florzinhas em todo o lado porque esta gente não aguenta uma critica. É de bradar aos seus senhores.

    Agora um aparte, é engraçado que a mesma empresa tenha uma filosofia de trabalho tão diferente de sitio pra sitio e que as opiniões sobre a mesma variem tanto. Das 4 pessoas que conheço que trabalharam na IBM, nenhum tem coisas boas a dizer lol. Ainda bem pra ti que as coisas são diferentes aí.

    E já agora, muita merdinha no regresso a Portugal 😉

  3. Numa empresa com mais de 400 mil empregados é natural que haja de tudo como na farmácia. Seja em Portugal, seja na Holanda, sempre trabalhei com excelentes managers (ok, tive um que já saiu e que era péssimo), mas estes 3 são top of the world. Têm uma confiança absoluta em mim que me deixa muito honrada e compreendem-me perfeitamente e aceitam-me exactamente como sou, sem tirar nem por. Aproveitam todos os meus defeitos e transformam-nos em vantagens para eles, sabem manter-me continuamente satisfeita. E nos dias em que não estou satisfeita, que também existem, digo-lhes abertamente e tenho, da minha parte, confiança absoluta, que se não fazem mais é porque realmente não podem. A minha maior satisfação vai chegar no dia em que eu conseguir por as equipas de cá e de Portugal a trabalharem mais de perto, tenho a certeza que foi por isso que vim cá parar.
    Tou cheia de força, carago! :))))
    Mto obrigada pela merdinha, é mto bem-vinda! (isto nao soa nada bem, lol, mas juro que é mesmo agradecida!)

  4. Atenção que eu também não sou uma empregada qualquer lol e nunca deixei que me dissessem o que fazer ou aceitei um não como resposta. Se eu acho que algo tem que ser feito, faço acontecer. Eu não conheço essas 4 pessoas, mas é mto fácil a malta sentar-se a reclamar e não reagir, e colegas desses tenho eu aos montes. beijos!

  5. Neste caso é numa área completamente diferente da tua (acho eu) e por isso mesmo os protocolos e gestão das equipas devem ser diferentes. Acho que neste caso era mais uma questão de visão e concordar com as políticas internas da empresa, que em muitas casos, punha o trabalho dessas pessoas em causa, ou stand by, vá. Não havia reconhecimento do esforço e quando assim é a motivação vai por água abaixo. Mas, como dizes, são 400 mil empregados e é complicado (se não impossível) agradar a todos. E corrijo-me são 5 e não 4 lool.

    Quanto à merdinha, é enviada de coração ahahah

    (na próxima visita a Lx convoco-te pra um café, pode ser? olha eu a fazer-me de convidada ahah)

    Cá beijinho

Leave a Reply