O Hospital


O médico mandou-me fazer uns exames de rotina, e muito a contra-gosto lá marquei os ditos no Hospital do Oosterpark que ele me indicou aqui ao pé de casa.
Hoje lá fui às 11 e vinte a contar com o aspecto degradante habitual dos hospitais públicos e com uma manhã perdida até às 3 ou 4 da tarde.
Espantada, surpreendida, estupefacta será talvez a melhor palavra!
A zona do Oosterpark é supostamente uma zona benzoca, mas o hospital também dá serviço aos moradores de “Istambul” como eu chamo à rua onde vivo.
Meus amigos, o Hospital da Cuf Descobertas tem muito que aprender e melhorar comparado com este!
Para início de conversa, o Hospital PÚBLICO tem um parque de estacionamento por baixo, todo apetrechado com cadeiras próprias para levar os utentes mais debilitados para os andares superiores e o elevador está mesmo ali ao lado.
Fui atendida com toda a simpatia na recepção (em inglês “obscrosse”)e deram-me um passe com uma etiqueta que pelos vistos é o meu cartão de utente do hospital. Válido segundo a senhora, durante os próximos 30 anos….Eu lá fico cá 30 anos à chuva? Passaram-se!
Adiante! O registo foi feito em 5 minutos (filas não havia!) tiraram-me uma “pelingrafia”, deram-me o tal cartão e mandaram-me pro andar das radiografias.
Pelo caminho ia caindo de costas: restaurantes, cafetarias, lojas com presentes, postais e balões, uma florista e ainda … um cabeleireiro! As pessoas estavam calmamente sentadas ou dirigiam-se aos sítios onde tinham que ir, não vi ninguém a chorar, nem a gritar, nem com cara de quem ia morrer pro lado. O Hospital não cheirava àquele desinfectante que nos entra pelo nariz mas estava tudo imaculadamente limpo e organizado. Mais parecia estar num centro comercial que num hospital, não fosse a falta de letreiros de “Korting” (descontos em holandês) e pensava que estava no andar errado.
Tinha marcado as radiografias ESTA segunda-feira, mas caso não o tivesse feito, a senhora disse-me que teria de esperar…meia hora.
Às 11:45 fui atendida por uma senhora muito simpática que me explicou detalhadamente o que ia fazer. Em menos de 5 minutos estava despachada e saí cá pra fora onde esperei 3 minutos até ela chegar para me dizer que estava tudo óptimo.
Às 11:50 sentei-me num dos cafezitos, escolhi a sandes e o sumito de laranja, mais um descafeinado e um brownie para sobremesa, paguei o parque e ao meio dia e 15 estava em casa.
Valente Hospital! Assim dá gosto confiar no Sistema Social de Saúde.

MAS

Nem tudo são rosas no sistema de saúde holandês…os médicos detestam receitar medicamentos, mesmo que cheguemos lá com uma gripe horrorosa e 39 de febre. Mandam-nos pra casa com paracetamol e suar muito e beber muitos líquidos. Dentro de 2 semanas já deve passar, dizem eles…
E não pensem que se vai ao hospital por causa duma gripe: primeiro tem que se ir ao médico de família e só se ele achar é que se vai parar ao hospital para fazer exames ou ver um especialista.
A causa de morte numero 1 neste país é o cancro e têm uma taxa de mortalidade infantil acima da média para países de primeiro mundo.
Quando se vai à farmácia depois de se ter conseguido arrancar uma receita ao médico, dão-nos os comprimidos dentro de caixinhas especiais porque só nos dão um número certo: 3, 7, 10 ou 20 comprimidos prescritos pelo médico e nem mais um!
Às vezes entra-me nos nervos porque sei que o fazem para controlar custos, e se eu estou com febre e pago impostos, ora porra, passem pra cá os anti-inflamatórios e os anti-bióticos!
Por outro lado dou-lhes alguma razão. Assim ninguém se auto-medica. Mas que irrita, irrita.
Têm apostado na prevenção contra o cancro, vá lá…ou isso ou quinam todos dos ossos…nunca vi tanta gente per capita em cadeiras de rodas. Ou mini-motinhas melhor digamos. Cada modelo jamais visto que nem têm noção. Os velhotes deixam de andar de bicicleta para ter umas cadeiras que parecem umas vespas. Assim vão às compras, passeiam, vão ter com os amigos, continuam a vida deles, portanto.
Três dos meus colegas (numa equipa de 15) já tiveram cancro. Todos se safaram, mas todos têm sequelas. Tenho visto as mesas mais ergonómicas e as condições laborais de horário de trabalho mais bem pensadas.
Mas claro, tudo à posteriori…antes disso é: pega lá paracetamol e vai pra casa ver se te passa. Enfim…

Holanda Rural

Passei o Domingo passado em casa da B.e do I. por serem os anos dela. No domingo à tarde depois de uma nota bem passada com a malta em risota, decidimos dar uma volta.
A apenas 30 minutos a pé do centro de Eindhoven encontramos estas pérolas…

Ora escolham lá qual o melhor cromo:

1) Temos o vencedor da camisola amarela

2) A melhor camisa

3) E estes bigodes? E o pezinho de gesso?

4) ou será melhor o cabelo estiloso?

5) remato com o sonho de qualquer homem…

Estas fotos são reais e têm apenas 4 dias.
Está aberta a sessão de licitação!

Os Cuscos

Os Holandeses são uns coscuvilheiros!
Nunca pensei, mas é verdade.
Adoram uma boa coscuvilhice!

Diferença entre nós “Tugas” e os “Laranjinhas”:

– Tugas no corte e costura:
(Susurro quase que ao ouvido, metido num lugarzinho escondido ou mais discreto)
– Nãoooo contes a ninguém, mas ontem blablablabla! hehehehe!
– Então? Já sabes? Pois… se não sabes também não te posso contar… eh pa, pronto, mas eu sei que tu és de confiança! ontem blablablabla hehehehe!
– Oi…tenho uma coisa pra te contar, mas não podes contar a ninguém que ainda é segredo: ontem blablablabla snif snif! Já viste que cena?

Dez pessoas depois que não podiam contar a ninguém, assim que chega ao último candidato a guardião do segredo: já 90 sabem!

– Laranjinhas:
– (Em ALTO e BOM som) Sofia, já sabes o que se passou ontem? Bla! hehehehehe!
– (Em ALTO e BOM som) Sofia, já sabes o que se passou ontem? Blabla! hehehehehe!

Dez pessoas ao mesmo tempo ficaram a saber, logo não há necessidade de contar a 20, o tempo de trabalho ocupado com o assunto foram os 3 minutos dedicados ao conto e mais 45 minutos de café e risota perdida sobre outros assuntos!
Mas mais giro ainda, é que além de serem mais eficazes a espalhar a notícia, deixa-os de extremo bom humor!
Hoje o dia foi cheio de alegria e risota pegada, com a malta toda a contar histórias e piadas sobre os ausentes e alvos do mexerico!
Outra coisa engraçada, foi a questão das piadas: as piadas deles costumam ser sempre de extremo bom gosto, e há que dizer que os tipos têm um piadão inacreditável.
Não usam o duplo sentido da palavra como o português (adoro o nosso sentido de humor também, até porque como boa nortenha, a maior parte das vezes é por isso que começo na palhaçada e no descambe!), usam mesmo descrições das situações e das coisas, com muita expressividade e descontração. A juntar a este facto está o de alguns deles serem uns cromos de colecção de caderneta dourada, que só visto!
Estas roupinhas deixam-me fascinada! Não sei se gosto mais do aspecto à Roberto Leal- os gajos não têm culpa de serem:

loiros
olhos azuis
gostarem de andar na moda e este ano o grande hit ser o CASACO BRANCO com camisa e calças de ganga!

Pois hoje lembraram-se de fazer piadas com conotação sexual! Coisa que eu ainda não tinha visto os laranjinhas fazer!
Mas ainda assim, foram novamente, correctos e sem ser brejeiros, mas: CUSCOS!!
Acontece que aqui a Je decidiu comprar um postal pra uma amiga que faz anos!
Como não percebo puto do que diz nos postais, pelos vistos comprei um postal … que era de uma gaja pra um gajo, e não propriamente para uma amiga oferecer a outra! Eu achei piada à boneca que vinha no postal, pa! Armada em chica esperta pensei que percebia o que lá dizia e pronto! Fui alvo de galhofa durante 10 minutos!
Adiante: há um que vê o postal e (em ALTO e BOM som) me pergunta se sou lésbica.
Disse que não, expliquei o sucedido, começa a risota e há uma à minha frente que dispara pra outro com consequente resposta:
– Ó Freek, tu não és homossexual também?
– Não! Eu sou lésbico!
– Eu cá sou bissexual!
– Eh pa, disso tens que perguntar ali ao Mark (gay do grupo mas muito discreto…e que está sempre a dizer-me: I can have sex with a woman, but I can only fall in love with a man!) que o gajo é que sabe de bissexualidade!

Grande risota, eu com os olhos abertos até ao limite e espantadíssima por:
1) fazeram piadas de conotação sexual
2) a indiscrição dos gajos ao fazer a piada em alto e bom som
3) a descontra em falarem dos outros e o quanto adooooram uma boa coscuvilhice, porque quem não soubesse que o Mark é panasca, ficou hoje a saber com a certeza absoluta!

E enfim, coisas de diferenças culturais que me proporcionaram um dia muito engraçado e um reparo no mínimo caricato!! Viva o bom ambiente no trabalho!!!

PS: Não contem a ninguém, mas….agora é que tenho pena de não perceber pevide de holandês porque inúmeras vezes os apanho à gargalhada e deve ser em coscuvilhice de certeza!! hehehehehe!

Guia de sobrevivência na Holanda


Por onde comecar?
EU, SOFIA, FALA BARATO E DITO QUE FALO NÃO SÓ PELOS COTOVELOS, MAS TAMBÉM PELAS RÓTULAS….TOU SEM PALAVRAS.

Os holandeses pensam de tal forma oposta à nossa que a minha boca está aberta de espanto há duas horas aproximadamente.

Quem quer que venha para cá viver, antes deve ler os Undutchables: http://www.undutchables.com/

Talvez depois de verem excertos do livro me consigam compreender…

Vejam estas fotos, e garanto-vos que são inteiramente verdade, porque eu própria já as vi “in persona”.

http://www.undutchables.com/gallery.html

IM-PRESSIONANTE!

Yoga


Tou mais relaxada que nunca!
Que maravilha ter esta possibilidade e dentro do edifício, e por 15 euros por mês…
A aula foi em holandês mas bastou olhar para a professora para seguir os exercícios. Foram uma mistura de Tai Chi, com Pilatos e Yoga…só foi pena não conseguir compreender o que ela disse durante o momento de relaxamento e meditacão final…mas eu consegui à mesma!
Todos os dias excepto à quarta!
Obrigado meu Deus!!!

O trecolho (com cedilha)

Na quinta-feira senti uma ligeira irritacão no olho, na sexta não melhorou e inchou um bocadinho, mas mesmo assim fui dancar Salsa e rir-me desmesuradamente com a Ana e o David em Harlem. Os personagens que lá vi foram absolutamente hilariantes. Em Portugal, nem podres de bêbados estariam com tão boa disposicão!Conheci pessoas da China, do Irão, Holandeses e principalmente vi uma amizade a três cada vez mais consolidada e o mesmo sentimento de me sentir em casa com estes dois “caramelos vs anjos” caídos do céu durante a minha estadia.

Sábado o olho estava muito mais inchado, mas como boa Tuga tinha metido medicacão na mala e achei que me ia safar. Eu tinha enfiado na cabeca que havia de fazer um extreme makeover da minha casa e retirar das paredes as pirosadas que a minha Senhoria por cá deixou (só para terem ideia, o chaveiro era um quadro duma Sevilhana com folharecos amarelos fluorescentes e que dizia “Recuerdo de Espanã”!
Enfim, a Ana (decoradora demarcada nas horas vagas) pôs-me a casa um verdadeiro espectáculo! E lá fomos as duas pro Prixas e pro Ikea largar uns cobres e depois montar a casa toda. Arrebentadinhas que ficamos, mas muito felizes!


Domingo o meu olho direito parecia uma BATATA
! Veio o período de susto e toca de ver como é que funcionava o seguro. Fiquei PÁLIDA!
Tão liberais são os Holandeses, que permitem que escolhamos o nosso seguro, motivo pelo qual este nem sequer vinha no pacote tal como acontece em todas as empresas internacionais!
A paciente Ana lá entrou no site, fez-me a inscricão e explicou-me o que há para fazer para se ter direito a assistência médica neste País:

1) Ter seguro de saúde
2) Escolher um médico de família (no bairro a que pertencemos, e há milhentos)
3) Inscrever-me numa farmácia

Eu nem queria acreditar!!
Não tinha seguro, e mesmo que o tivesse, só o podia usar caso tivesse um médico de família, ao qual tenho que recorrer primeiro e só depois é que posso ir parar a um especialista, se o Senhor assim achar.
Pelo que ouvi de amigos, as experiências com os médicos de cá são de bradar aos céus. Eles são apologistas de quase nunca receitar medicamentos (desconfio que devem ter mesinhas debaixo das mesas), e de, em caso de gripe por ex., nos mandarem para casa deitar e suar durante 3 dias debaixo das mantas. Quando já não nos conseguirmos mexer, então arrastamo-nos até lá e pode ser que tenhamos direito a qualquer coisinha!
Não ia escolher um médico à toa! Liguei imediatamente para uma portuguesa que tinha vivido na mesma rua que eu 5 anos e pensei, a A. deve ter corrido os médicos todos em 5 anos, deve saber um decente!
E voilá, o meu instinto nunca falha, e lá me mandou pro Dr. Khoe, e na segunda lá fui eu à consulta.

Fui atendida uma hora depois (não tinha marcacão), e em 3 minutos de consulta tava diagnosticado o trecolho e lá vim eu pra farmácia inscrever-me e comprar o antibiótico pró olho. Como não tinha seguro (para grande espanto da Sra. da Farmácia…imaginem a fúria que não tinha eu!), tive que arrotar o preco completo, mas pronto, foram 8 euros, e correu bem.

O medicamento é fabuloso e o Dr. está aprovadíssimo!

Grande sorte! Foi a resposta de TODOS os portugueses que cá vivem.
Ontem não via um parafuso do olho direito porque desinchou mas ficou uma coisa epécie de borbulha imensa, e hoje já está mais fino porque a mesma arrebentou.

Para remate fiz questão de ir aos Recursos Humanos de cá onde me disseram com uma naturalidade absoluta que o seguro de saúde é uma escolha de cada um, embora seja obrigatório.
E uma cachaporra na cabeca??? Também será obrigatória!
Fui acompanhada por um colega americano e ambos nos queixamos da recepcão a dois estrangeiros convidados para trabalhar neste País e com tantos anos de casa.
Ficou registada a reclamacão e com uma grande lata disseram que não dispõe de ninguém que possa ajudar os estrangeiros a preencher a papelada……
Respirei fundo 30 vezes, pensei: esta cena já foi resolvida, o olho já está porreiro, mas livrem-se de algum dia eu ser vossa chefe de Recursos Humanos na Europa. Vão levar tantas……………………
Tudo nesta vida vai e volta.
Por isso deixo agora de reclamar e penso que Gracas a Deus a Anocas tava cá p’ra me ajudar como sempre e que Deus é um fixe por me mandar amigos destes!!!
E agradeco também o meu olho já estar bom pra eu voltar a mandar postas e pelo dia de trabalho de hoje que correu lindamente, com toda a gente a ajudar e a gostar da diferenca de abordagem desta portuguesa.
Chamaram-me lufada de ar fresco!