Gamorra. Nápoles – nunca mais lá ponho os pés. Disse isto antes de ler o livro.

Não foi à toa que me dei ao trabalho de fazer um post com duzentas mil fotos sobre as minhas férias na Costa Amalfitana.
E nenhuma delas foi colocada casualmente.
Repararam nos iates de luxo? Eram aos milhares. Estes são só alguns.
Repararam nas casas em Capri? E nas casas de Procida? Deram pelo contraste?
Ainda faltam as de Nápoles.
Nápoles é uma cidade riquíssima em história, teve o mesmo impacto em mim que Istambul pois transmite imponência, respeito pela relíquia cultural que é, que foi.
Tal como Istambul, é cheia de colorido e suja.
Mas Nápoles é mais que suja, é muito suja, extremamente suja, imunda. E tem o maior número de indigentes por metro quadrado que já vi. Chegamos a andar em grupos de 8, e nem assim me senti segura. Eu que não sou nada de paranóias (quem me conheça que ateste, por favor), tive sempre a impressão que estava a ser observada, seguida. Não só pra me roubarem a máquina, como pra me violarem, cuspirem, insultarem, não sei. As pessoas andavam todas de carro, nas ruas só andavam maltrapilhos. O comércio estava metade aberto, metade fechado. Fechado à séria, com portões de correr em algo mais forte que zinco. Blindado. Ninguém andava a pé, só de motorino/vespa ou de carro. Sempre. Fora os turistas, os idiotas e provincianos dos turistas. Carteiristas é mato, mas isso eu já sabia. Com esses podia eu bem, afinal de contas, vivi na Graça. A um idiota que ia connosco, depois de o termos avisado umas 3 vezes, limparam-lhe 500 euros do bolso das calças. Mas quem? Quem é a besta que anda com 500 euros em dinheiro no bolso??? Pra quê?!
Saiu-lhe a lotaria ao carteirista.
Ninguém me tocou, mas estive sempre com medo.

A louca (na verdadeira acepção da palavra) da espanhola que me fez companhia no primeiro dia achou que era seguríssimo vir a pé da estação de comboios até ao hotel, afinal eram só 750 metros. Só são dos piores de Nápoles.
A estúpida que vos escreve achou que o Hotelshuttel do aeroporto me deixaria mesmo à porta do hotel (como em Lisboa)e pela primeira vez não apanhou táxi.O shuttel deixou-me a uns 200 metros da porta, no meio duma praça. Em 200 metros fiquei com a nítida sensação de que o que me estava a valer era a experiência ganha na nossa Lisboa. Estava no meio do “Rossio, em direcção à Almirante Reis”.

De Nápoles fui pras ilhas, e voltei nos últimos dois dias. Estavam 39 graus, não se podia andar em lado nenhum. Enfiei-me no único sítio onde me sentia segura. Os autocarros de Hop-in Hop-off. Não tinham ar condicionado e os lugares cobertos eram ainda mais abafados que os do topo. Fiz as 3 linhas que havia, a vermelha, a azul e a verde, tudo sentada na parte de cima, com um chapéu enfiado pelas orelhas abaixo e a pensar que ia morrer de calor, mas queria ver Nápoles. Nunca mais lá ia voltar. Não fiz hop-off uma única vez.

Eu tenho grandes amigos Italianos que conheci em erasmus. Enquanto lia o Gomorra lembrei-me de várias situações, episódios, coisas que se passaram comigo. E lembrei-me continuamente de Nápoles, é claro.

– Lembrei-me que sempre nunca gostei da pinta do italiano de Nápoles que fez erasmus comigo. Fumava na altura, 10 charros de haxixe por dia. Como quem fuma tabaco. E não tenho ideia de ele andar pedrado o dia todo. Era mal educado, vestia bem, mas era diferente. Ignorava toda a gente, e era extremamente interesseiro. Não me lembro do nome dele. Dava-se bem com um pintas do Porto de quem eu também não era grande fã, mas que era bom moço.

– Lembrei-me que diziam que o Pier Luigi que era filho de mafiosos, ou estava ligado à Máfia. Lembro de ser o único sobre quem se dizia isto e a quem os próprios italianos diziam isto. Falar em Máfia era suficiente pra se sentirem insultados. Era palavra QUASE tabu. E eles raramente levantavam o tema. Mas com o Pier Luigi era diferente. Era uma jóia de rapaz, eu achava-o muito bonito (tinha uns olhos verdes(ou eram azuis?) brutais), mais velho um pouco que os demais, estava a estudar Medicina mas gostava de borga. E ele não se sentia insultado, mas não gostava e sorria de uma forma…diferente, quando lhe diziam estas coisas. (Johnny, be my guest pra meter a tua colherada, a minha memória já não é o que era).

– Lembrei-me dos discursos do Stefano, do Roberto e do Marco sobre Itália e de eu não entender puto do porquê deles estarem tão zangados na altura. Afinal, eramos uns putos!

– Lembrei-me que quando estive em Londres com o Giovanni (que é de Puglia, Siciliano), entramos num snack-bar pra comer uma fatia de pizza e um sumo de laranja (que há uns 8 anos atrás me custou 1600 paus!). Estavam lá uns italianos, dois rapazes e duas raparigas, aí com uns 18 anos cada um. Um dos rapazes era muito bonito. Começaram a falar connosco, e quando perguntam de donde somos (o Gigo e eu estavamos a falar espanhol), o Giovanni diz (em inglês!) que é espanhol e eu portuguesa. Os meus olhos abriram-se até às bordas. Como é que o gajo ia acreditar em tal coisa? E porquê a mentira?
Porque são de Nápoles, e não te preocupes que eles nunca vão perceber que eu sou italiano.
Achei aquilo tudo ridículo, principalmente o Gigo achar que não parecia italiano, mas o certo é que os gajos caíram que nem patos. No fim da refeição deles pediram a conta, e depois de pagar receberam o troco. Era um pratinho de alumínio. Eles retiraram o dinheiro, despediram-se de nós com um Ciao, e o que era bonito, cuspiu uma escarreta muito verde pra dentro do pratinho e diz em alto e bom som: The tip!
Eu ia vomitando. O Giovanni encolheu-se mais um bocado e disse-me: percebes agora?

– Lembrei-me dum tipo que conheci cá e que me disse que só vai a Itália porque tem de visitar os Pais, porque senão nunca mais lá punha os pés. E de eu lhe ter dito: jamais renegues de onde vens. E o tipo ficou todo furioso comigo.

– Lembrei-me das palavras dum ex- italiano com quem andei, que era de Milão. Ele diz que o Sul é um terceiro mundo. Não é Itália. Ou melhor, é, mais que o Norte até, mas que parou no tempo, que tem 30 anos de atraso de desenvolvimento. E que sente vergonha do sul. E de eu ter achado isto uma palermice e um snobismo exagerado.

– Lembrei-me dos italianos que nos receberam agora nos portos quando amarravamos e dum que me disse: Io sonno il cappo.

“Eu sou o Chefe. Ele só faz o que eu mando. E eu não o mandei dizer que não havia luz.”

Isto depois de termos estado 4 horas sem luz uma vez amarrados em Porto. Ele disse que nós nunca tínhamos estado sem luz porque ele não tinha dado por ela. Ele não estava lá, mas se tivesse falhado a luz, teria dado por ela.
Senti-me num filme. Depois da frase então, foi pagar, agarrar no braço da Carmem (e nas orelhas também, porque a tonha queria ter ficado lá a discutir), e pirarmo-nos bem depressinha. Foi na ilha do bar chillout que está nas fotos e foi antes do belo do gin tónico.

– Lembrei-me das duas chinesas que vi nesse mesmo porto de Izquia que se prontificaram pra me dar uma massagem por 5 euros. Quando lhe dei 10 e disse: guarde o troco, a mulher forçou-me literalmente a deitar-me e deu-me mais 15 minutos de pancada nas pernas, pelos outros 5 euros. Foi uma cena muito estranha, muito marada, nunca tal me tinha acontecido num Porto, e esta era a sétima vez que eu velejava.

Lembrei-me de muito mais, senti muito mais, revivi muitos sentimentos, um misto de revolta, com nojo, com um conformismo final e um encolher de ombros because they actually are anyware, até na Holanda. Com uma raiva pela continuidade que os chineses dão ao que os cabrões da Camorra lhes ensinam a fazer. Raiva da ganância, da ambição, da competição, da loucura, do desprezo pela vida humana, e pena, muita pena, do desespero de todos os que nascem naquela zona e fazem parte do Sistema.

Agora ficam as fotos de Nápoles, onde eu nunca mais vou por os pés.







(Esta casa não parece mesmo a casa dos Bicos no campo das Cebolas em Lisboa?!)

































Mas comi mesmo muito bem, só de ver a foto daquela espécie de bagel gigante de pão de centeio, com azeite, mozzarella de buffala e presunto…



Bonita Nápoles. Podre Nápoles. O pôr-do-sol é magnífico. Nunca mais aí volto. Mas gostei.


16 comments:

  1. Quando li que o autor do livro andava sempre com guarda-costas e no anonimato para escapar à Mafia fiquei para morrer. Conheci uma rapariga de Milão que, apesar de não contar histórias da Máfia, contava coisas sobre a moda e a maneira como as pessoas ligam ao que vestem e ao que parecem que me deixaram chocada… Parece-me que Itália é um microssistema muito interessante (e assustador).

  2. Em 2004 também andei por Itália de férias. fui de carro, sem grandes planos de viagem feitos. Adorei tudo. Mesmo o Sul. Assentei arraias em Pompeia e depois fui a Nápoles, Capri, Positano e claro Pompeia, que foi de tudo o que vi por lá, o que mais gostei. Mas saí de lá com a mesma sensação. Senti um alívio imenso quado finalmente me dirigi para norte. A sujidade das ruas, o caos urbanistico, o caos do trânsito, e as pessoas que olhavam para nós sempre com aspecto de descofiadas. Enfim,… De facto aquela gente estraga a extraordinária região onde vivem.

  3. Waterfall … ou alguém lhas estraga por eles…lê o livro, recomendo mesmo vivamente.

    Goldie, ele pôs a Camorra "em cuecas", com nomes verdadeiros e tudo. Explica o sistema, inclusivamente o da moda e o das falsificações e até originais feitos na região de Nápoles, diz tudo, não cala nada. Ele sabia que a Camorra ia atrás dele. O fulano é completamente louco ao hipotecar a vida dele assim, mas eu confesso que admiro o grande par de tomates que ele tem. A mudança pode ser feita por palavras, é esse o lema dele.
    Quanto a Milão e sua gente, são completamente moda-dependentes. Tenho uma amiga, a Eleonora, que me disse um dia (tavamos em erasmus): já não posso usar aquele casaco porque é da colecção passada. O casaco era lindo! Eu fiquei com cara de parva a olhar pra ela e disse-lhe: dá-mo a mim! Ela mandou uma gargalhada e como tinha pago couro e cabelo pelo dito cujo, não pode fazer tal coisa. Mas nunca mais o ia usar. This is Milan. Tenho vários amigos de lá, e têm dinheiro, logo fazem tudo assim, foi assim que foram educados. Eu lembro-me de andar na escola e pedir aos meus pais que só me dessem calças da Levis ou da El Charro (lembras-te?), e tb me lembro do grandeee manguito que me fizeram. Eu andava num colégio de betos e achava sempre que era uma pelintra ao pé daquela gente. Hoje em dia rio-me 😀 Mas o livro é muito mais que isso. Devias ler pra compensar aquele que nunca mais acabas 😀
    Beijinhos

  4. Ah! A minha melhor memória de Nápoles é estar aflitinha para ir fazer xixi e sair do carro toda lançada e o Roberto gritar que era melhor eu levar os lenços de papel, mas deixar a carteira porque senão roubavam-me! Claro que iamos À vez ao wc sob pena de eles deixarem o lugar vazio do carro para a malta se lembrar que era mesmo ali que tinha deixado o carro originalmente e que não, não era um efeito visual ficar sem nada!
    Mas a um amigo do Roberto aconteceu uma única. Estava ele no carro, numa bomba de gasolina, roubaram-lhe as 4 jantes e ele nem deu por nada! Eles são muito bons profissionais, temos que admitir ao menos isso!

    Baci!

  5. Excelente post sobre uma cidade e uma cultura que tambem nao tenciono voltar a visitar. Como tu, achei uma cidade lindissima mas super insegura. Ia num grande grupo organizado e tinhamos policias com metralhadores a escoltar-nos! Surreal, especialmente num pais europeu! So me tinha acontecido no Egipto e na Jordania…
    Estou mortinha por ler o livro e o teu post relembreu-me que ja devia ser para ontem! 😉

  6. Wow! Que post interessante.

    Eu tive um colega de curso que esteve um semestre em Nápoles e também se queixou que a cidade era um caos e que todas as semanas desapareciam pessoas :S

  7. Pedro, eu recomendo Erasmus a TODA a gente. Eu fiz, e ainda hoje, 10 anos passados, foi o melhor ano da minha vida.
    No teu caso: não vás. Não vás mesmo. Tenta outro sítio, vê se há vagas noutro sítio. Se quiseres e tiveres mesmo mesmo que ir, então fala com todos os erasmus que estiveram lá nos anos anteriores e pede todas as dicas e contactos possíveis e … boa sorte….
    Eu se fosse a ti, não ia. Desculpa.

  8. Bem querida Andorinha, nao sei o que te dizer perante tantos argumentos da tua parte. Fico triste pelo teu trauma.

    Estive em Nápoles, sozinha, em 2006. Estive 1 semana na Campania, sempre sozinha, a andar de um lado para o outro.
    Gostei de Nápoles, aliás, amei Nápoles, o que permaneceu sempre na minha memória.
    Morei depois 3 anos em Milão, cidade em que as rivalidades com o Sul são constantes, e onde os Milaneses demonstram diariamente o seu ódio em relação aos napolitanos. E desde sempre habituei-me a defendê-los. Nápoles tem uma cultura extraordinária: a comida, a música, o cinema. Os grandes génios do humor italiano são de Nápoles. A própria língua -sim, o napolitano é uma língua – demonstra toda a riqueza daquela região.

    Agora regresso, depois de 4 anos, e estou ansiosa!

    Beijo

  9. Obrigado por essa coleção de preconceitos raciais e de mentalidade. Como meio Napolitano que vive no Porto agora posso-lhe dizer que vejo coisas a acontecer tb aqui. Mas so’ uma coisa: aquela que a senhora chama “casa” é a Igreja do “Gesù Nuovo” (Jesus Novo). Não se preocupe que o mundo vai continuar na mesma sem si e a sua mentalidade, e lamento ter que dizer que frequentar muitos Italianos do Norte faz mal à saúde.

    1. Sabe que ser racista é não gostar duma raça, e que eu saiba os Napolitanos podem ser de várias raças, não são uma raça em si. Pode-me chamar xenófoba, mas também não se aplica porque Nápoles não é um País, mas uma região de Itália.
      Mas deixo que me chame preconceituosa, não me importo.
      Não sei se reparou, mas a maioria dos meus amigos Italianos até eram do sul, não eram do norte, aliás: não são do Norte, são Sicilianos na sua grande maioria ou Romanos.
      Pode ficar chateado comigo à vontade porque não gostei de Nápoles e não costumo gostar de Napolitanos, nem toda a gente gosta de amarelo. Eu tive uma má experiência em Nápoles e já estive em Itália pelo menos 5 vezes, tanto no Sul como no Norte, e nunca tive tanto medo como na sua cidade. E quando digo isto a pessoas que gostam ou são Napolitanos respondem: não foste acompanhada, em Nápoles não se anda a pé, e é preciso estares com alguém local. Acho que isto diz tudo sobre a segurança duma cidade em que não se pode andar sozinho ou a pé.
      É uma pena, porque é uma cidade cheia de história e magnífica, nunca comi tão bem como em Nápoles, mas difícil de se conhecer por conta própria.
      Eu não sou do Porto, mas conheço-o bem, e posso-lhe dizer que o Porto, comparado com a sua zona, é pra meninos.

  10. Aceite as criticas ninguém lhe disse que Nápoles é uma cidade segura, é o tom que utilizou francamente um bocado excessivo. Esclarecido isso, é uma opinião e como tal vou respeitar as opiniões.
    Cumprimentos

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