Ontem no escritório falei da situação de Portugal, pela primeira vez em dois anos, com os Holandeses.
Começou quando me perguntaram pelas minhas próximas férias e comecei a falar da minha ida a Portugal. Expliquei o que era o Santo António e os meus olhos começaram a brilhar quando iniciei a minha descrição: sardinhas assadas, o povo na rua, as marchas, o vinho carrascão, os amigos e os abraços apertados, O SOL, O CALOR, a praia, a Família, OS AMIGOS, OS AMIGOS, a imperial e os caracóis!
Devo ter sido tão expansiva que seguiu-se um: então, e quando voltas?
O sorriso desvaneceu-se e respondi sinceramente: não me parece que o faça em breve.
– Yup, we understand, Portugal is going to follow Greece, don’t you think?
O meu coração ficou pequenino, mas assenti que se continuarmos assim, não estaremos longe. Expliquei-lhes que a taxa de desemprego está nos 10%, a mais alta dos últimos 30 anos, que o IVA vai ser de 21% (o que inacreditavelmente, eles já sabiam), que a taxa de IRS vai aumentar (se bem que eu sou a favor dos 45% para rendimentos superiores a 150 mil euros), e que o Governo insiste nas obras do TGV, novo Aeroporto e uma Terceira ponte sobre o Tejo.
Enfim, eu não sou nenhuma douta na matéria, mas é o que leio todos os dias. Não vivo em Portugal, só sei que os meus amigos estão todos a aparecer que nem cogumelos na Holanda para trabalhar em áreas especializadas, para fazer Doutoramentos e Pós-Docs, trabalhar em Instituições Europeias, e que a fuga de cérebros em Portugal é uma realidade ainda mais premente que há uns anos atrás e que me revolta profundamente o Estado negar a mesma. Gosto de cá ter os meus amigos, mas não gosto de saber que estão a sair de Portugal porque sentem que são explorados a trabalhar sábados, domingos e feriados sem sequer terem a devida compensação monetária. Que o clima continua a ser fantástico, assim como a comida, mas que as pessoas não têm a possibilidade de os desfrutar condignamente porque só trabalham e só vêm o escritório. Isto tem-me sido dito repetidamente por cada amigo, por cada familiar, independentemente da área profissional.
Explicaram-me (eu confesso que não sabia) que quando o Euro entrou na Holanda o valor era de 2,27 Guilders por euro, e que (tal como em Portugal, na Espanha, na Grécia e noutros Países da Zona Euro) o que os comerciantes fizeram foi apenas trocar o símbolo do Guilder pelo do Euro, logo também os Holandeses perderam poder de compra.
Dizem os “Nostradamus” que o Euro vai desaparecer dentro de dois anos. Perguntei aos meus Colegas Holandeses se achavam que isso ia acontecer. A resposta foi curiosa no mínimo: Yes, probably for Portugal, Greece and so on. The euro will remain for Germany, Netherlands, and a few others, os burros do costume (dito por eles!).
Eu não penso que o Euro tenha volta atrás, mas nunca pensei na probabilidade de apenas alguns países do Norte o manterem.
Não quero com este post discutir política, nem bater no ceguinho e dizer “ai Jesus que Portugal tá tão mal e mimimi”. Só transcrevi a conversa porque achei interessante o facto dos Holandeses estarem ao corrente do que se passa no nosso rectângulo à beira mar plantado e de, pela primeira vez, ter tido uma conversa diferente da habitual “onde vais de férias? Como é que vai o Projecto X? Ó Sofia, podes ajudar aqui?”. Foi relevante. E como este blog é o meu “diário de bordo” da minha passagem pelos Países Baixos, achei que este momento era digno de nota.