Eu gostava de gostar de viver em Amesterdão como há gente que gosta de viver no Rio de Janeiro, em Paris, em Nova York ou em Roma e que se apaixonaram pelas cidades e as acham magníficas, fabulosas e estrondosas, que se enchem de gosto ao mostrar a cidade aos amigos e os levam pelas mãos a correr aos seus sítios favoritos, porque são tantos que dois ou três dias não chegam para mostrar tudo. Também há quem seja apaixonado por Londres apesar do clima, ou quem se tenha apaixonado até pela cidadezinha em que vive na Suiça, a cidadezona na Austrália ou o recanto mais pacato na Noruega.
Mas que vive apaixonado pelo sítio que o acolheu. Isso é talvez o que mais falta me faz em Amesterdão: paixão por isto.
Já disse muitas vezes que no dia que me for embora só cá volta pra visitar os meus amigos, de resto vai ser virar a página e seguir viagem. Vou ter, como me chamar Sofia, muitas saudades da vida e da qualidade de vida que cá tenho e acima de tudo dos meus amigos, mas também da forma de trabalhar. Mas saudades de não ter vontade de sequer partir, não.
A culpa deste post não é do post anterior, é de ter andado a passear pelo FB duma amiga que vive no Rio de Janeiro e ter ficado nitidamente com inveja da luz que ilumina o sorriso dela e dos elogios que ela tece à cidade onde vive. Passou um ano e ela nem deu por ela e eu ao fim de um ano já dizia (é ver os registos de 2009) que já estava bom, que já podia voltar. Que muito bem e muito contente, mas que a minha cidade era outra. O que eu gostava de adoptar outra cidade e a pena que eu tenho de não conseguir adoptar Amesterdão. Mas é que pura e simplesmente não me entra na alma, não há maneira. Que pena que eu tenho.
Há dias assim…
… hoje acordei sem vontade nenhuma de cá estar. Aliás, já quando vim de Portugal, fi-lo sem vontade.
Estou farta de viver na Holanda. Estou farta de viver fora de casa, longe do sol que me aquece e das pessoas que me irritam na minha língua. Quero estar mais perto. Quero mar, quero Tejo, quero ……..
Estou farta destas paredes, desta vista, desta planície que não termina mais. Estive de férias duas vezes, uma em NY e outra em Portugal, 15 dias de cada vez, e nem assim me passou a neura.
De momento não há nada que eu possa fazer pra mudar, mas estou pelos cabelos.
Eu gosto de Amesterdão, gosto muito dos meus amigos, mas sinto que já não estou cá a fazer nada.
Tipo, missão cumprida, deixem-me pôr na alheta, caramba!
E não é falta de sol, é falta do que fazer. Agora ando a mudar de casa, a alombar chão e gastar dinheiro na mudança, voltar a empacotar os tarecos todos e voltar a montá-los no outro lado, numa casa fantástica, mas uma vez acabada a mudança, já não vai haver nada de novo. É um dia atrás do outro e estou enjoada. Literalmente enjoada.
Profissionalmente sinto que já fiz o que vim cá fazer. Não sei como mudar, mesmo aprendendo Holandês não há nada de interessante que queira cá fazer. Mudar de empresa não se coloca porque nenhuma me dá as condições que me dá a minha. Até me podem dar um ordenado semelhante, mas não as mesmas condições que fazem com que, no fim, a balança penda sempre pra ficar em vez de sair.
Quisás por isso, por já não haver o desafio, me esteja a sentir como no dia em que me vim embora de Lisboa: farta.
Preciso de mudança, só não sei qual. E lixa-me saber que estou cá bem mas que estou armada em Variações.
……quero-me ir embora.
Cinco anos de Holanda
Pra quem vinha por dois anos, três no máaaaximo, já cá cantam cinco.
1
2
3
4
5
CINCO. E não me posso queixar, até me tem corrido bem, tenho amigos (dos bons), há saúde em casa, tenho três (1, 2, 3) cães, uma casa fantástica, muitas viagens no pêlo e uma qualidade de vida incomparável.
O que me falta? A esplanada da Graça e o sol e o Tejo. A minha família. Os meus amigos que já estão espalhados pelo mundo inteiro. A minha comida. A minha língua. O meu País, que está em frangalhos, cheio de chico-espertos e corruptos, mas também carregado de boas pessoas, de gente inteligente, de gente afável e telenovelas pirosas, mas que são a minha gente, a minha terra, e o sítio para onde quero ir. Falta saber dentro de quanto tempo. Se calhar ainda conto mais 5, mas espero bem que não.
Mas se contar, tenho a certeza que os contarei feliz. Como sempre 😉 Let the dice roll! E que os meus lemas estejam contigo! Good things are going to happen! Sometimes wrong choices bring us to right places!
Going Abroad: It’s a State of Mind – retirado do Internations.
Going Abroad: It’s a State of Mind!
Emotional Preparations
Go for the Right Reasons
Examine Your Motivations
What Happens When You Live Abroad
É tudo isto, bem descrito como eu seria incapaz de fazer.
Este “eu só quero estar aonde eu não estou” como dizia o grande Variações.
Written by Chelsea Fagan
Sabemos quando batemos no fundo….
Descobri que posso ver a RTP e a TVI no iPad e estou em êxtase.
O optimismo andou escondido, mas hoje, no primeiro dia do ano, apareceu
No último ano, talvez porque 2011 foi um ano horribilis, parece que me esqueci do meu positivismo aprendido e treinado.
O último a sair que apague a luz!
Foi isto que me disse um amigo do meu irmão depois de eu lhe relatar a minha chegada ao aeroporto do Porto.
Eu fui no dia 22, sábado, a pensar que teria um dia mais calmo que a sexta-feira.
O avião estava cheio, mas está sempre. É um Fokker 100, não cabia nem mais uma agulha lá dentro.
Levei os 3 cães comigo e quando cheguei ao Sá Carneiro fui buscar os cães à bagagem sem formato.
Lá estavam a Petzi e o Bitoque completamente histéricos. A Juicy tinha ido na cabine comigo na mochila vermelha. Estava lá também um piloto giro à brava que me pediu pelas alminhas pra eu tirar os cães da caixa pra ele os ver e eu fui uma otária e libertei-os. Foi o caos. Fizeram logo xixi (limpa Sofia!) e o Bitoque fez cócó no caminho pra saída. Apanhei o “sim senhor” do chão (já disse que fui muito estúpida ao libertá-los?), deitei-o no WC e segui com os dois pela trela e a Juicy às costas. A Petzi lembrou-se de largar o calhau a meio do corredor “Nothing to declare”. Lancei mão dos lenços de papel novamente e apanhei o dito cujo do chão.
Furiosa comigo mesma e com o giraço do Piloto, saio pela porta das chegadas e fico cegueta com os flashes e os telemóveis todos apontados a gravar o vídeo da chegada de alguém que não era eu.
Costumam estar umas cem pessoas por lá àquela hora.
No dia 22 estavam certamente bem mais de 300 a puxar pras 500.
Nunca tinha visto tanta gente naquele aeroporto. Estava tudo à espera dos filho(a)s, maridos, amigo(a)s. Tinha aterrado também um avião que vinha de Lisboa e outro de Londres. E eu a ser filmada porque tinha um cão numa mochila e mais duas gotas de água no chão. De repente há um senhor e uma moça que desatam a bater palmas à minha passagem.
Eu não sabia se rir ou se chorar. De repente aparece-me à frente uma amiga da Candeia. “Olá, tás boa?”; “Eu estou, e tu?”; “Estou à espera do João, está em Londres, mas vamos passar o Natal cá em cima”; “Ah.” (cabeça a mil: pois Sofia, faz sentido, eles casaram no ano passado, faz sentido, sim, ele foi agora mas ela ainda cá está). “Então e tu Sofia, chegaste agora mesmo não foi?”. “Maria, tenho um cagalhoto no bolso”.
Acho que ela pensou que eu tinha andado a fumar o que não devia antes de me meter no avião, mas eu estava era a suar por quantas tinha porque estava demasiado agasalhada pros 12 graus do Porto, stressadíssima porque os cães estavam histéricos porque apanharam um susto enorme na descolagem (de tal modo que se ouviu os latidos deles na cabine) e ainda por cima estava naquele preciso momento a chegar à conclusão que a reportagem que tinha lido no ionline naquela manhã não era exagerada como eu pensava.
Estava completamente siderada, em transe, eu não queria acreditar. Não tinha palavras.
O ionline foi à Portela entrevistar as pessoas que chegavam pro Natal: a nova vaga de emigração apenas comparável à dos anos 60.
Este gajos dramatizam sempre, fonix! Que exagero! Também não é preciso tanto!
Ou assim pensei até aterrar e ver aquele espectáculo todo.
Chegada a Braga larguei os cães em casa e vim pra rua onde decorriam a festa de encerrramento de Braga Capital Europeia da Juventude. Fui ter com o meu irmão. Comigo estavam os meus Primos mais novos de 24 e 27 anos. Foi a primeira vez em 16 anos que nos juntamos os 4. Um vive em Angola, e eu aqui. Os nossos irmãos em Portugal. Finalmente juntos e com idade pra beber uns canecos e assim foi.
O meu irmão estava num jantar com os amigos dos tempos da faculdade. Todos eles de Economia e Gestão. Eles tinham montado os seus próprios negócios, tinham lojas de delicatessen, restaurantes, empresas próprias ou exploravam as dos Pais. Quatro deles tinham emigrado no ano passado.
A pergunta que mais se ouvia na rua não era o típico Bracarense “E quê?”, mas sim “E tu, onde estás?”. Moçambique (resmas, paletes, contentores de Bracarenses em Moçambique, acho que o Farol, o Viana e o Bracara lá devem lá estar em peso), Angola, Rio, São Paulo, França, Suíça, Londres e como não, Holanda.
Inacreditavelmente, no dia em que celebravam a Juventude de Braga, nas ruas só se via malta da minha idade ou mais velha. “São os que ainda têm algum poder de compra porque se aguentaram bem no tempo das vacas gordas e ainda têm bons empregos; ou então emigraram já com emprego garantido e as coisas correm bem. Como tu”. Esta foi a resposta que levei quando me espantei pela quantidade de gajos da minha idade que vi na rua. Todos mais gordos e muitíssimo mais carecas, já agora. Ser mulher é altamente. Aquilo era a festa da mangueira. Por cada seis homens havia uma mulher. Outra que também não entendi.
E foi assim que relatei a loucura do aeroporto. Que relatei o meu espanto com esta profusão de emigrantes e gente espalhada pelo mundo inteiro e o Gil me disse: pois é, isto agora está assim. O último a sair que apague a luz.
O “berdadeiro” emigrante
Traz consigo uma mala a mais so pra poder fazer chegar ao Pais de acolhimento as delicatessens da santa terrinha, a saber: um belissimo queijo da serra, um kilo de presunto, couves Portuguesas e tronchudas pra congelar nao va apetecer um cozidinho a Portuguesa, 4 ou mais chouricos e alheiras e se ainda conseguir traz vinho e aguardente feita pelo Primo, Tio ou Avo.
Eu, alem disto tudo (excepto o vinho) porque ja nao havia peso que aguente ainda trouxe: um mini-aspirador, uma maquina pra cortar o pelo aos caes e outra pra secar os xuxus e 5 livros novoa. E la estao 21 kilinhos e uma emigra muito satisfeita!
Isto é muito complicado de explicar.
Eu tenho pesadelos sempre que vou a casa sobre a estadia. Pesadelos à séria. Dias de pesadelos.




