A minha chefe belga vai escorrer óleo pra outro lado

Foi o que ela nos disse hoje numa conference call que durou 15 minutos. 
Quando acabou a chamada diz a minha colega: mas ela está em Amesterdão hoje! Porque é que não fez uma reunião com todos em pessoa? 
Ah pois é bébé, foi mesmo por telefone … não fosse dar-se o caso de nós não podermos dar asas à alegria de a ver partir. 
A gaita é que nós não sabíamos que ela cá estava e até fomos um bocadinho entusiastas demais. Rezemos pra que ela estivesse numa sala o suficientemente longe da nossa.

Estás sinceramente a precisar de férias quando…

Acabei de telefonar pra um dos meus colegas para colocar uma questão. 
Como não queria incomodar perguntei-lhe se estava de férias ao que ele respondeu: não, uma vez que se girares na cadeira me vais poder ver!
Ouço a voz dele em eco, viro-me e … lá estava o gaijo!
Agora estão todos a gozar comigo!
Ligam-me a perguntar se estou de férias, ou dizem piadinhas como: então Sofia, tou-te a ver, mas estás de férias?
Cromos!

A língua

Aos poucos vou começando a entender o Holandês, mas não o suficiente para seguir uma reunião completa. A dado momento desligo o chip porque fico extremamente cansada de tentar compreender algo de que metade me passa ao lado.
Lembro-me todos os dias da minha colega Winnie de Hong Kong, que ao fim de três anos na empresa em Portugal dizia uns olás, uns tudo bem, somava um obrigada, bom dia e boa tarde e o resto era disparado em Inglês. Na altura achei incrível, como é que era possível ela ainda não falar a nossa língua passado TRÊS anos!?! Um ultraje, ela era muito preguiçosa e realmente não queria aprender, só pode. O marido Português, ainda por cima! Já devia palrear a língua lusa há meses! Quanto mais há anos!
Agora bato na boquinha com muita força e lembro-me da minha Mãe a dizer “elas pagam-se pela língua menina!”, e fico mortificada cada vez que peço a vinte Holandeses que façam uma reunião em inglês por minha causa. Há sempre três ou quatro que suspiram e fazem cara de frete, e outros dois que sorriem desejosos de agradar e traduzem um pouco, e por fim há ainda a grande e enorme vontade que tenho de atirar os quatro marmelos de trombas pro meio dum arraial de Chineses ou Coreanos. O pior é que eu não sei se os sacanas não se safariam e eu ficaria com cara de tacho. O certo é que me apetece atirá-los aos bichos, embora eu ache que eles estão cobertos de razão, e eu devia mesmo já consegui entender um bom pedaço, afinal em Maio perfaço os benditos três anos, e é o que se vê.
Mas eu acho a língua feia, arranha a garganta, não é melódica, não tem o efeito que uma língua italiana provoca em nós.
Eu nunca compreendi aquele pessoal que para ocupar horas vagas vai aprender Mandarim, ou Neerlandês, ou Árabe (como a minha chefe Belga). Penso sempre que deve ser malta mal fodida e com tempo a mais. A sério.
Como é que depois de um dia de trabalho se vai ter aulas duma porra intragável como o Holandês?!
A ver se me pagam o curso das freiras, senão estou aqui, estou no ir pra minha terra. É que já não há desculpa que me valha e eu RECUSO-ME a pagar três mil euros por um curso.
(por favor não me venham com os cursos da Volksuniversiteit que aquilo é mortificador, em mau, em muito mau)
Sendo assim, volta e meia, tenho de aturar alguém que “está com pressa” e não tem paciência, nem tem nível de inglês que me consiga acompanhar. O complexo de inferioridade deles vence.
Aqui pra nós, estes gajos falam inglês mal e porcamente. Só sabe isto quem cá vive. Quem visita acha que eles são craques. Errado. Os tipos são uma nódoa. Se soubessem a quantidade de vezes que vejo os olhos deles crescerem depois de eu falar enquanto vejo com perfeita noção que o gajo deve estar a ficar com o cérebro feito em merda só de me tentar compreender… ui, mãos cheias, pés cheios, mãos do primo, da tia e da avó e não sobravam pra contabilizar!
É fim de dia, estou cansada, amanhã tenho um dia muito grande pela frente, com muitos Cloggies de olhos abertos e cérebro alerta para compreender o inglês que lá terei que debitar.
Abençoados sejam os Portugueses e a língua Portuguesa.
Amén.

Vinde a mim as criancinhas

Sossegadinha que eu estava no meu projecto novo, entro numa sala a pedido para ir conhecer um colega, e lá dentro estão dois tipos até relativamente bem apessoados, um perto dos 40 e outro com um penteado parecido com o do David Luís do Benfica. Como sou uma das únicas 4 mulheres da sala (para não variar), sorriem com os dentes todos e tropeçam uns nos outros pra me cumprimentar. Até porque eu hoje fui maquilhada e de vestido. Um dia destes ando lá de saco enfiado na mona. É muito nerd por metro quadrado.
Lá cumprimento os colegas, apresento-me com direito a mini descrição de curricula, mando umas piadas e tal e volto pra minha mesa.
Saio de fininho às seis da tarde e vou à casa de banho antes de chamar pelo elevador. Phones nas orelhas, podcast a bombar e ” Hi, so you are new here?”
Já está.
O David Luís entrava em acção, de mega sorriso em punho, olhos verdes cor de esmeralda e cabelos balançantes.
Atendendo à existência de tesouras no Universo  lá tirei os phones das orelhas a custo e vim à conversa no elevador. Já à saída e no contexto do “estás cá há muito tempo?” sai-se com um: não, não, só há dois e meio, ou seja, desde que saí da Universidade.
E o meu cérebro processa à velocidade da luz e numa fracção de segundo: excuse me? Menos de trinta? Like… again? Já chega.
E devo ter tido o meu pensamento espelhado na minha testa, porque ele desandou nos calcanhares com a sua simpatia enquanto eu me dirigia ao meu carro com um claríssimo NO FUCKING WAY a explodir-me no peito.

Porque é que reparam sempre em mim gajos tão novos? Eu não preciso de malta de bengala, mas será necessário que tudo o que é puto me curta? Eu já sei que pareço mais nova e que há poucas moças novas e solteiras na empresa, mas se for fora do contexto laboral acontece-me exactamente o mesmo. É sempre o imberbe que me acha piada. Vá lá que é sempre o imberbe muito giro. Mas é sempre a mim que vêm. Que nem abelhas ao mel. Terei de passar a andar com uma placa ao peito a dizer: admissão reservada a pós-trinta?

PS: Henk, this is not to be comented but here 😉

Coisas que nunca vão mudar

As minhas chefes dizem que eu sou “hard to manage”.
“We give you a project and we don’t have to worry, it will land perfectly and on time. Which is great! But we don’t see how you are doing it in the meanwhile, so it’s hard to manage someone that never comes to us with problems. You always fix it on your own. And that’s hard to manage.”
E eu abri muito os olhos e disse: tá beeemmm.
Basicamente dizem que eu recorro pouco a elas.

Os holandeses continuam a não entender o conceito de “desenrascar-se sozinho”.

Como diz o Vasco Palmeirim: NÃO PERCEBO!