Não costumo falar de política, nem da Economia, não por desconhecimento ou falta de atenção ou gosto. Sinceramente é raro discutir este tema a não ser numa tertúlia com amigos onde existe um debate e troca de ideias e não um monólogo, mas hoje vou abrir uma excepção.
Tal como os Pais, achamo-nos no direito de falar mal do nosso País, mas não permitimos que estrangeiros o façam. Quando falamos de Portugal com externos, gabamos sempre a beleza do nosso cantinho à beira mar plantado, a excelsa comida ou a amabilidade dos nossos conterrâneos.
Entre nós, é cortar na casaca até mais não.
Desculpem lá qualquer coisinha, mas vamos deixar de ser arrogantes.
Portugal é um País, como muitos outros, carregadinho de defeitos, de políticos de merda, de políticas orçamentais e monetárias (que desde a UE que não tem muita margem de manobra) defeituosas, de má gestão, de corruptos, de jornalismo sensionalista, de políticas educativas muito sui generis e pouco inteligentes, com uma falta de atenção e aplicação de medidas na Saúde que deixam escandalizados os mais pobres de espírito, mas ORA PORRA! Foi neste País que nasci, foi neste País que cresci, foi este País e as suas opções que fizeram de mim a pessoa que sou hoje, tanto ao nível profissional como pessoal.
Eu emigrei, contrariamente a muita gente, porque quis ver como funcionava o sistema cá fora, e não porque tivesse falta de oportunidades de crescimento de carreira em Portugal.
Estudei um ano em Espanha e posso-vos dizer que vi o ensino universitário mais miserável e mais irrealista em termos de preparação para o mercado de trabalho possível.
Sei que há países e universidades onde o ensino é melhor que o que recebi na Universidade de Coimbra, mas na comparação de performance entre mim e os meus amigos oriundos de tantos outros países, a minha estava bem acima da média. Há boas e más universidades e bons e maus professores em todos os lados e nem sempre ser-se inglês quer dizer que se tenha estudado em Oxford. Nem sempre ser-se americano quer dizer que se tenha estudado em Harvard. Nem sempre ser-se espanhol quer dizer que se tenha estudado nos melhores Colégios Mayores. Nem sempre ser-se italiano quer dizer que se tenha tirado o curso na Católica de Milão. Nem sempre ser-se português quer dizer que se tenha tirado o curso no Técnico.
Mesmo assim, todos trabalhamos em conjunto e achamos que o outro tem valor. Só não nos valorizamos é a nós.
Os melhores técnicos informáticos que conheço, para vossa informação, tiraram o curso na Universidade do Minho, na Universidade de Aveiro, no Instituto Superior Técnico de Lisboa ou na Faculdade de Ciências de Lisboa (entre outras). Tenho umas saudades dos Técnicos que deixei em Portugal que vocês nem sonham! Tomara eu ter UM deles aqui a ajudar-me a levar pra frente os meus projectos. Bastava UM para eu me sentir mais confiante quando apresento um deadline. Os holandeses não são despreparados, mas não têm a capacidade de “tocar várias teclas dum piano”, são especializados num ponto único e não é essa especialização que os faz mais produtivos ou eficientes.
Quando vou a um médico na Holanda sei que não tenho listas de espera de 3 anos e que sou atendida às horas em ponto, mas ir lá ou ficar em casa, a diferença é muito pequena pra não dizer nula. São uma autêntica nódoa em conhecimentos, e caso não saibam, a Holanda é dos países com maior taxa de mortalidade de cancro.
Os comboios funcionam que nem relógios e a horas, é certo. Há uma quantidade e qualidade de transportes extraordinária, mas sabiam que as linhas de comboio alemãs mesmo aqui ao lado são miseráveis e que ainda usam comboio de 1800 e troca o passo? Também sabiam certamente que Londres foi das primeiras cidades a ter metro e que nós estivemos 30 anos debaixo duma ditadura e que temos muito que andar. É certo que em cada obra que é feita há sempre um filho da puta que limpa uns milhões e os mete ao bolso. Sabiam que os dividem com os empresários estrangeiros que vão “investir” em Portugal? Ai, se calhar não…é que as Ilhas Caimão e os cofres na Suiça estão cheios é de capital português!!
E a taxa de desemprego em Portugal? Impressionante!
E a quantidade de gente que eu conheço que diz a plenos pulmões: eu em Portugal ganhava 500 euros por mês pra fazer o que faço aqui por 2000. Sim, mas quando pra cá vieste não te importaste de trabalhar como secretária, limpar casas e/ou escritórios, ser barman ou trabalhar num restaurante, mas em Portugal: NEM PENSAR! Isso lá está ao nível da minha educação?! Porque o fizeste aqui então?
Porque aqui é o País das oportunidades!!!E porque ainda não encontrei emprego na minha área, mas vai surgir!
Pró raio que vos parta!
Se dão ao litro CÁ, porque é que não deram ao litro LÁ?
Sabem por acaso quantas pessoas há na Holanda, portuguesinhos da silva, que já emigraram há um ano e que não saíram da cepa torta e estão cá a ganhar trocos mas por cá ficam, porque afinal de contas, eles vivem no estrangeiro e os colegas/amigos ficaram em Portugal a ganhar 500 euros e a ser secretárias?! Mais que as Mães!
Nós somos aquilo que fazemos de nós. Nada cai do céu, o litro dá-se cá dentro e lá fora, não é só lá fora caramba!
Se querem um País melhor, façam por ele!!
Tornem-se empresários individuais, abram as vossas empresas para exportar as vossas ideias e fazer o que mais gostam. É duro? Dá trabalho? Há pois é? Quem foi que disse que trabalhar não dava calos?
Mexam-se! Cá ou lá, não me interessa! Não falem por falar, façam o favor de ter cérebro activo e corpo militante e não apenas língua viperina. Ninguém é mais nosso amigo que nós mesmos.
E quando falarem mal do País onde nasceram, lembrem-se: treinadores de bancadas há muitos, Mourinho há um.