À Americana

Num dos meus documentos tem o seguinte texto (que faz todo o sentido), mas que eu nunca tinha visto e que me envergonho de nunca sequer de tal me ter lembrado ao definir uma política/norma de segurança.

Establish the process criteria for resetting CUSTOMER user’s passwords and disclosing them to authorized personnel  
(Normal and Deaf/Hearing-impaired as required)

Fabuloso!!

My luck!

Estou escondida numa sala no escritório porque sou alérgica ao ar condicionado e esta é a única sala onde ele não funciona praticamente. Mas a sala é necessária pra reuniões, por isso eu encolho-me num cantinho, explico ao “host” porque é que tenho que aqui ficar, ponho os phones nas orelhas e siga a marinha com a reunião deles.
Desta vez é um Cloggie e QUATRO Indianos. Seriously, esta gente tem problemas com água? No hotel já está incluído no preço, porque carago é que não usam e abusam do champoo e do detergente.
Estou aqui que desmaio com o cheiro. Sim, porque cheiinha de sorte como ando hoje, o único que fede literalmente foi o que se sentou ao meu lado.
Ai, tão lindo que é ir à Índia! NOT.

Jersey, UK

Nem sequer sabia onde ficava no mapa. Pensei que era Guernsey, mas não. É mesmo Jersey. Há umas quantas ilhotas todas muito próximas entre a França e a Inglaterra que são Paraísos Fiscais e têm a banca e as consultoras em peso lá instaladas.
Por motivos profissionais fui literalmente empurrada a lá ir.
No início fiquei animadita, mas depois vi os voos e vi que não dava pra ir e vir no mesmo dia e nem sequer dava pra ficar em Londres a visitar amigos numa noite de trabalho. Tinha que bater lá com os costados uma noite, numa ilha no cú do mundo, onde não conheço ninguém, com um voo de regresso no dia seguinte às 7 da manhã.

Antes de vos pregar uma seca que define as “joys” de viajar a trabalho, vou só falar um bocadinho do quão giro é levantar voo de Amesterdão em Abril e ver lá de cima os campos todos coloridos pelas tulipas, as casas todas certinhas e organizadas em bairros como se tudo fosse marcado a régua e esquadro (e é), com os lagos pelo meio, parques de bicicletas, os portos, tudo plano, tudo verde, uma autêntica casa de bonecas à escala; e aterrar numa ilha (Jersey) em que se vê do avião onde começa e onde acaba, rodeada de mar, muito verde, cheia de castelos antigos e casas senhoriais inglesas, com acumulados de casas aqui e ali, com muitos parques cheios carros e cheia de rebanhos de ovelhas.
E obviamente, influenciada pelo livro da Charlotte Bronté que ia a ler, transportei-me em segundos para o século 19 e imaginei como deveria ser tranquila e bem cuidada nessa altura.
Aterrei deliciada, confesso. Acho que esta foi a melhor (e única realmente boa) parte da viagem.

Os voos estão todos muito bem definidos e saí de Amesterdão às 10 da manhã pra chegar à uma da tarde (GMT, ou seja, menos uma hora que na Holanda) a Jersey. Não parei de porta a porta de gate pra gate. Os aeroportos de Londres e de Amesterdão são imensos, fiz “piscinas” dentro dos mesmos e foi sempre a correr e sempre a abrir. Queria estudar um bocadinho mas nem sequer tive tempo pra abrir o PC e fazer uns exercícios. É “sai de avião”, faz corredores kilométricos, de malas e portátil às costas para passar em novo check in, SMILE! pimbas mais uma foto e continuar sempre a andar até chegar ao gate rés-vés- Campo de Ourique e embarcar noutro avião.

Foi chegar a Jersey, fazer check in, engolir literalmente uma club sandwich, trocar os ténis pelas botas de tacão e começar uma reunião às 2 e meia e acabar às 7 e meia da tarde, non-stop. Chovia que Deus a mandava, foi chegar ao hotel e mandar-me pra dentro da banheira e pedir room-service.

Estava uma tempestade do caneco e o meu hotel estratégicamente escolhido ficava junto ao mar e a uma marina.
Fiquei no Radisson Blue Waterfront que recomendo vivamente caso algum dia lá queiram ir. Os quartos são impecáveis e o som do mar a bater embalou-me.

Fotos? Se virem as fotos do hotel vêem tudo o que eu vi de Jersey. Ah, e o mini mini aeroporto.

Pequena (grande) curiosidade, SETE % da população da ilha são PORTUGUESES, muitos deles Madeirenses. Mas há de tudo, fui recebida por uma Holandesa, servida por uma Húngara, o Italiano serviu-me o room-service, o taxista era Brasileiro, a minha Cliente era Portuguesa, o staff de limpeza do Cliente era todo Português, e no fim foi um Polaco que me fez o check out. As pronúncias percebem-se perfeitamente e tem a sua piada.

E foi isto que vi em dois dias. Acordei num dia às 7 da manhã e noutro às 5 e meia. Passei ao todo 12 horas dentro de aeroportos, não vi um caroço da ilha fora o que vi do avião e no taxi do aeroporto até ao hotel. Acabei arrebentadinha, com uma cara de merda, e estou morta por me enroscar nos meus cães e dormir.

Oh the joys of travelling for work! As pessoas nem pensam que na maioria das vezes não nos dão mais que umas míseras horas de reunião e que embora muitas vezes isto faça a diferença e valha a pena profissionalmente, as outras horas todas de viagem são horas que nos são roubadas ao sono ou pura e simplesmente passadas a correr de porta a porta, sempre na esperança de não se perder a ligação, logo completamente desperdiçadas. São horas da minha vida que nunca mais recupero e que não me acrescentam como pessoa.

Vale a pena viajar a trabalhar quando nos mandam a Nova Iorque e podemos ficar lá um fim de semana a conhecer e palmilhar terreno, ou à Àfrica do Sul, ou à Rússia, ou a S. Paulo ou ao Rio de Janeiro ou a Londres e temos amigos nalgum destes sítios e ficamos uns dias extra. Agora fazer horas de aviao pra tudo o que recebemos ser trabalho que fica pendente do momento em que aterramos em casa: é muito cansativo.

Mas elás, acho que há sempre um testo para cada panela, e haverá muita gente que gosta desta adrenalina e deste tempos movimentados e isolados.

Coisas de se ficar mais velha talvez. Acho que a yuppie que havia em mim morreu há uns anos.

Desabafo de muitos e meu também.

Estou cansadíssima. Há 15 dias que não faço mais nada senão trabalhar e estudar.
No fim de semana passado vi o sol pela janela, só saí pra passear os cães e estive a marrar o tempo todo.
Quando chego ao escritório pergunta-me a Chefinha: how was your weekend? E eu digo com honestidade: it sucked. I studied the whole time.
E diz a minha colega que estava ao lado: are you serious? I party all weekend! Why are you studying anyway?

E não foi um why de “que raio estás a estudar”, foi um why de “porque car@lho te estás tu a matar”??

E eu olhei pra ela e suspirei, porque a Chefe estava mesmo à frente, e disse: há um ano que ando a adiar o exame, a IBM pagou e eu ando a aprender muito e até mando uns bitaites bacanos agora quando vou pro cliente como este assim e assado e mimimimi.

E interiormente pensava: relembra-te Sofia Maria, relembra-te pra que raio te andas tu a matar pra teres o exame de auditora se tu nem queres ser auditora?!
Ah e tal (isto sou eu de mim para mim) porque se acontece alguma coisa tu “no mercado” vales mais (sempre gostei muito desta frase).
Mas olha lá (continuo a dialogar comigo mesma), mas tu nem sequer queres bazar da empresa e dentro dela não queres ser auditora, que que car….. te andas a matar?

Porque pode sempre acontecer alguma coisa e o teu Pai disse-te que nunca deixasses de te actualizar. E ao fim destes anos todos tens que assumir que o velhote sabe umas coisas.

E hoje, pensei que ia ter uma tarde tranquila porque trabalhei que nem uma animala a semana toda e néria. Continua tudo on fire, os chefes a fazerem over time sobre over time, e de repente a Holanda parece-me Portugal antes de eu vir cá parar.

Um deja-vu fodido. Agora digam-me, se a bolha rebenta na Holanda, pra que País devo eu pirar-me?

Podem ficar cansados

25 a 26 de Abril – Jersey, UK -trabalho
27 Abril-30 Abril – Queen’s day
9 a 11 de Maio – Bruxelas – curso
12 a 14 de Maio – Portugal -familia
15 de Maio – viagem de carro pra Zurich e depois Suiça Italiana com 3 cães.
16 de Maio – trabalhar na Suiça Italiana até às 16h, e conduzir hora e meia pro Lago di Como.
17 a 20 de Maio – Lago di Como, dolce comer bem, passear mto e ler mais e apanhar sol e ver o George Clooney, com 3 cães.
20 de Maio – volta a Zurich.
21 de Maio – Reunião em Zurich das 9-12 e regresso à Holanda, com 3 cães.
9 de Junho – exame de CISA no qual vou chumbar como um tordo pq nao tive tempo suficiente pra estudar!

Cool, ah? Alguém sabe o que há pra ver em Jersey? :S

Quem não está bem muda-se

Andei aqui uns dias mais stressada e irritadiça e com as emoções todas trocadas e nem entendia bem porquê. Até que ontem tudo se compôs na minha mente, no meu estômago, na minha agitação que se finalmente se esfumou.
Em Janeiro deste ano mudei de funções. Tenho finalmente o cargo para que trabalhei durante anos em Portugal, faço algo que adoro, tenho uma equipa fabulosa, os meus chefes (tenho uma pilha deles) gostam imenso do meu trabalho e têm apostado tudo o que podem em mim, independentemente de falar Holandês ou não.
Trabalho que nem uma bestinha, mas não me importo. Gosto, vejo as coisas avançaram, tudo a acontecer, os planos a darem certo, as situações controladas. Absolutamente perfeito, mesmo com todas as desperfeições e stresses associados a cada função.
Trabalho a partir de casa 3 dias por semana, às vezes a semana inteira, vivo a meia hora a pé do emprego, vou ao ginásio dia sim dia não, pagaram-me a minha certificação de CISA, só falta pagarem-me o meu curso de Holandês e é ouro sobre azul.
Pra rematar, esta semana tiveram a ideia de me mandar a França, a Inglaterra e à Suiça como especialista para ajudar os Países a conseguir obter os objectivos previstos.
Em suma, estou encantadíssima.
Ora aqui há coisa de dois meses mudei o nome da minha função no linkedin, isto porque tinha lá uma nomenclatura que induzia os headhunters em erro e há 6 anos que tinha crises de nervos por só me contactarem para a área de vendas, área à qual prometi a mim mesma nunca mais voltar a não ser que estivesse literalmente a passar fome.
Pois então mudei o título no linkedin para algo reconhecido no mercado e tem sido “uma festa”. Semana sim semana não sou contactada por headhunters e empresas de recrutamento. Again, o sonho de muito boa gente.
E ainda por cima oferecem-me empregos que se coadunam finalmente com o que eu faço. E eu, curiosa, aceitei uma entrevista para algo que me pareceu interessante. E andei uma pilha durante duas semanas.
E estava assim porque o único motivo que me poderia fazer mudar de emprego seria o oferecerem-me um balde de guito. E estamos a falar de um balde muitoooo grande! Coisa que deixaria muito boa gente feliz.
Mas a mim não.
Fui pra lá contrariadíssima. Pra mais era uma fábrica. Enorme, mas um ambiente fabril. E eu fico deprimida nesses sítios.
Fui uma hora antes, estava com uma neura enorme e não conseguia definir o porquê.
Se querem saber como correu, eu acho que uma valente merda porque eu tinha 10 vezes mais experiência do que o próprio chefe e não tinha background técnico. O tipo queria alguém diferente e eu não queria nitidamente ir pra lá.
Saí de lá com uma neura ainda maior.
Porque senti que estava a trair a confiança de tanta gente que tem estado a apostar em mim, porque SOU feliz, porque tenho uma qualidade de vida EXTRAORDINÁRIA, porque tenho tempo pros meus 3 cães, luzes (e mijinhas) da minha vida, porque tenho TUDO e estava a ter mais olhos que barriga e last but not the least, não estava a ser leal para com pessoas que têm sido correctas comigo.
Não nos enganemos, no dia em que a minha empresa me quiser dar um pontapé no traseiro, estão-se a borrifar pra minha lealdade. Trigo limpo, farinha amparo.
Mas mesmo assim, porquê mudar se estou bem?
Porque tenho finalmente uma vida “rotineira”?
Eu sou sempre pró-mudança, sair da zona de conforto. Estive o dia todo em confronto interior, se realmente estava a ser uma “acomodada” e medricas, com medo de experimentar outros mundos fora da minha empresa, ou se pura e simplesmente estava a ser gananciosa e burra ao deitar pela janela as regalias que tenho e uma vida finalmente mais estável.
Graças a muito bons amigos e conselhos, limpei a cabecinha e disse-me a mim mesma: mas ó minha grande bacoca! Afinal de contas tu não és obrigada a aceitar nada, nem que te deem o balde de guito. Deixa-te de merdas Sofia Maria, siga a marinha, mantém-te onde estás, e segue o teu instinto. Se a tua barriga se contorce de dores e nervos não é do medo; é porque ias fazer merda.
Assim que segui os meus instintos a neura esfumou-se, a irritação também e voltei a ter a cabeça no sítio e a alegria nos lábios. E agora vou ali trabalhar mais um bocadinho, que afinal de contas é pro que me pagam!

Lidar com a pressão e com o stress

É coisa que não assiste os meus amigos e coleguinhas Holandeses.
(Henk, this is not for you)
A resistência dos Holandeses ao stress e à pressão anda muito perto do menos um.
É só tentar apertar um bocadinho a corda e é vê-los a entrar em pânico, responder torto, falarem mal de vocês até à Mãe, e a meterem baixa por esgotamento passado pouco tempo.

Nunca pressionem um Holandês. Além dele não trabalhar melhor, também vos vai passar a ignorar. Têm uma mola anti-stress, é escusado. E passam a não vos gramar, o que é bem pior. Ficam na listinha negra deles e dão-vos com uma carga nominal de stressados que é encarada de forma muito negativa nesta terra.

Vocês não querem ser os stressados da equipa, da empresa. Ao serem-no são excluídos como se tivessem peçonha porque eles odeiam, mas ODEIAM stress.

Jamais tentem encostá-los à parede. Não funciona. Eles não sabem o que é e não se vão dar por achados. No limite ficam de “burro amarrado” durante umas semanas até se sentirem mais aliviados, como se tivessem acabado de conseguir ir obrar ao fim de 8 dias.

Ora o mundo está diferente, a crise não bateu só à porta da Grécia e de Portugal, da Itália e dos “calaceiros” do sul. A crise também bateu na porta deles. E começa a haver ameaças de despedimentos, e eles não sabem o que é estar no desemprego porque aqui praticamente não existe. E eis algo com que não sabem lidar. Estão portanto a ser pressionados e há muita gente a stressá-los e eles estão-se literalmente a passar.

Eles andam a fritar e eu ando feliz da vida porque adoro trabalhar sobre pressão. Mas há alturas em que a verbalização Portuguesa e até Holandesa me faz muita falta, nomeadamente nas alturas em que metemos a piadinha fácil que descontrai.
E depois há aquelas alturas em que em bom Português dizemos: despacha lá isso e deixa-te mas é de merdas! Ou o bom salutar: já te mexias, não? Isso é pra hoje? Vais levar muito tempo a despachar isso? Aquele gajo não fode nem sai de cima!

E aqui não o posso fazer pura e simplesmente porque ninguém me entende. Ai e a falta que me fazia ultimamente.

Coisas que me estão a incomodar

– Pessoas que se encostam a mim à espera que eu faça o trabalho delas;
– Pessoas que se encostam a mim à espera que eu lhes faça o que quer que seja. Detesto ter pessoas que dependem de mim;
– Pessoas que, como não gostam de conflitos directos, me enviam emails a dizer o diz-que-disse que não gostaram. Terei eu que aturar estas merdas?
– Pessoas que me manipularam e a quem eu neste momento partia as perninhas de bom grado.
– Pessoas sem carácter.
– A falta de flexibilidade de tanta gente que conheço, profissionalmente e pessoalmente;
– O facto de praticamente nenhum dos meus colegas Holandeses saber gerir stress e andarem todos uma pilha com algo que é perfeitamente normal se tivessem metade da capacidade de desenrasque de qualquer Português. Ah, but then again, a palavra desenrascar não existe noutras línguas. Está explicado.

E não é porque seja segunda-feira, não está mau tempo lá fora (está até um dia lindíssimo de sol), e também não estou com TPM.
É que há coisas que realmente me incomodam profundamente e escrevê-las ajuda-me a lidar com elas. Pelo menos deixam de andar aos trambolhões dentro dos meus pensamentos.