A Ilha debaixo do Mar

De Isabel Allende.

Motivos para ler:
                  
1) Porque é sempre “entretenido” e é garantidamente uma autora com a qual aprendo coisas de que gosto.
2) Neste caso aprendi bastante sobre a origem do Haiti, da República Dominicana, de Cuba e Nova Orleães.
3) Aprendi sobre a escravatura e sobre a Revolução Francesa.

O livro é no entanto um bocadinho lento, ou se calhar era eu que o lia sempre cansada. O que é verdade é que não é nenhuma “Casa dos Espíritos” ou um Eva Luna ou ….
O final foi previsível e pareceu-me forçado. Tive a sensação que ela mastigou este livro e que só o escreveu porque deve ter sido forçada pela Editora ao livro bi-anual.
Gostei, mas não ficou assim cravado no coração e na mente. É como os gajos que passam por nós só p’ra coiso.

O Cromo

O Nuno Markl não é um cromo, é o O cromo.

No fim de semana passado fui a Lisboa.
No Domingo, na volta, sozinha sem a minha Petzi, aborrecida que nem uma ostra, passei na livraria do aeroporto e vejo o livro “Caderneta de Cromos”.
Lembrei-me duma amiga que pediu ao Pai pra lhe comprar os cromos na FNAC (enquanto há porque a edição é limitada) porque ela vive cá na Holanda, e de ter comentado o espanto do Pai por ela estar a pedir tal coisa, afinal de contas: são cromos!
Pra ela pedir ao Pai, tem de ser bom.
Na contra capa dizia: a enciclopédia definitiva sobre o que tanto nos deliciava nos anos 70 e 80.
Strauuuu!
Foi tiro certo ao meu coração de saudosista. Afinal vale a pena ter mais de 30 anos pá!
Quinze aéreos que custava o dito. Baratinho. Outro tiro certo.
E penso: isto é altamente pra um dia explicar ao meus filhos como é que isto era “no meu tempo”!
Abro e começo a ler uma história sobre os granizados Fá. Em plena livraria começo a rir. No autocarro (que deixa sempre os nossos turistas extasiados, como se estivessem a regressar de Cuba) continuei à gargalhada.
Mas o cúmulo foi, de repente, ouvir o meu vizinho do lado a rir. E não sorria docemente, gargalhava ao mesmo tempo que eu. Sim, ele estava a ler o livro por cima do meu ombro e ao mesmo tempo.
Fomos os dois a partilhar histórias de infância durante o vôo. Para não variar, não faço puto de ideia do nome do homem. Ri até me doer o estômago. Foi a viagem mais divertida que já fiz.
Todas as noites durante 4 dias li o livro antes de me deitar. Daquele livro vêm memórias e uma boa disposição e energia francamente boas.
Um amigo falou-me dos podcasts da Caderneta. Eu nem sabia o que era um podcast!
Hoje no iTunes vejo como recomendado (e grátis!) os podcasts da Caderneta de Cromos.
Foi um vê se te avias! Desatei a despejar o que podia para a oitava maravilha do mundo que é o meu iPod (ah comprinha abençoada caramba! Nunca dei tanto uso a uma engenhoca, nem ao telemóvel!).
Graças aos amigos, na viagem ao Luxemburgo, descobri que o meu carro permitia ligar o iPod ao rádio.Ultimamente tem sido um fartote de audiobooks e as minhas viagens nunca mais foram um tédio.
Hoje foi A descoberta: iPod carregado de “cromos”, ligado al coche e a bombar como se estivesse no trânsito matinal, e eu à gargalhada até casa.
Já ouviram o cromo da fotografia de passe? Em que o Markl confessa que lhe tiraram uma foto de passe fabulosa quando tinha 14 anos, foto essa de que as colegas diziam “até pareces giro na fotografia” e que passava horas em casa a “treinar a expressão” da foto, até que uma colega de manhã quando o viu na escola lhe pergunta: ouve lá, mas isso é sono ou tás drogado?!
Felicidade, total bliss, é o que é.

Li o Samarcanda

do meu caro Amin Malouf e fiz as pazes com ele (depois da seca que foi o Primeiro Século depois de Beatriz, tinha que ser).

Já tinha saudades de ler um BOM livro.

Depois voltei ao Miguel Sousa Tavares e li o “No teu deserto” (oferecido pela minha querida Mary, que sabe sempre sempre do que eu gosto).

Também gostei. Fiquei com tanta, mas tanta, mas TANTA vontade de ir ao deserto…que assim que puder ir a Marrocos, isto é, assim que voltar a ter dias de férias, o que só acontece pro ano… meto-lhe a primeira e não há quem me pare, só quem me acompanhe!

Agora estou na “Ilha debaixo do Mar” da Isabel Allende. Não sei porque é que ela e a Laura Esquível arranjam sempre nomes tão mauzinhos pros livros, palavra que não entendo.
Mas é à pala delas que já desisti de ligar aos nomes nas capas.

Comprei livros de autores que não conhecia no Natal, comprei exactamente 15 livros. Os primeiros 3 que li foram a mais completa desilusão. Tão mauzinhos, que nem tem explicação.
Depois decidi voltar ao meu caríssimo Amin, e pimbas, outra vez, desilusão. Decidi que assim não podia ser! Alguma coisa de jeito devia ter comprado!

Samarcanda (disse-me a Tuxa), é excelente, vais gostar!

Eu li, adorei, e recomendei.

Outro que li há já uns tempos e que foi uma surpresa agradável, que me ensinou muito sobre a história da Turquia no último século, e tem um nome muito piroso mas é muito bom, é o “Palace of Tears” – “O Palácio das Lágrimas” – da Alev Croutier.

Dos maus, não vale a pena falar, tenho vergonha de dizer que li aquilo até ao fim.

A partir de agora (e quando acabar os outros 9 que ali tenho, que também é espirrar e já voaram) só compro livros que me recomendem. Nunca mais me meto em aventuras e me ponho a comprar o top 10 da Fnac. Aprende-se a tropeçar, certo?

Por isso, vá, toca aí a recomendarem os melhores livros que já gostaram, pelas alminhas façam-me feliz. Vale tudo, desde Nóbeis a literatura infantil!
Só Nicholas Sparks é que não, ok?

Siga a marinha!!

Rentes de Carvalho

Por Rentes de Carvalho no seu espaço denominado Tempo Contado, que é um pedacinho do céu:

Zanga-se ao ouvir que, tirante milagrosos momentos, em geral o sexo não é coisa de dois, sim de um mais um, cada parceiro com a sua solidão, sensível a odores, sussurros, palavras, pensamentos, memórias, perguntando-se se está a fingir, se o outro finge, penosamente desfiando a lista dos porquês, seus e alheios.

Tenho tanta pena que este Senhor não aceite comentários. Ou se calhar não. Sou fã.

O Século Primeiro depois de Beatriz de Amin Maalouf, afinal é realista

Tenho lido bastante ultimamente, nem sempre livros de qualidade porque fiz umas opções um pouco sui generis. Do Amin Maalouf (de quem gosto imenso) comprei o “O Século Primeiro depois de Beatriz” e o Samarcanda.

Acabei de ler o primeiro há duas semanas atrás e confesso que não gostei lá muito. Pela primeira vez em quase 10 anos acabei um livro dele a pensar: ouve lá, e se te continuasses a dedicar à História passada em vez de tentares o futuro? É que isto não tem jeitinho nenhum!
É todo escrito com base na hipótese de os seres humanos estarem a manipular a fertilidade para que as mulheres tivessem só filhos do sexo masculino. Com base nas tradições orientais e chinesas, e inclusivamente as retrógadas ocidentais, em que o primeiro filho deveria ser um Homem. A partir daí começa uma espiral de “e se?” que achei um pouco descabida. Falou de adopções feitas pelos “Países do Norte” aos “Países do Sul”, e do facto de um Padre Protestante tentar vender as crianças do Sul ao Norte, o que promove um conflito sem precedentes por toda a Europa e EUA.
Que grande disparate, pensei. Como se fosse possível que o Estado de Direito actual permitisse uma venda de uma criança! E hoje, leio isto, onde muito possívelmente Maalouf se inspirou:


Sem esquecer o turvo assunto da compra e venda de crianças para adopção, que ficou em evidência com o escândalo da ONG francesa L’Arche de Zoe, no Chade. No Haiti, segundo o chefe da sua polícia judicial, existem desde há tempo muitos orfanatos que são agências de organizações criminosas dedicadas ao tráfico de crianças, das quais, segundo a Unicef, se vendem por ano 2.000 apenas na República Dominicana. A rentabilidade do negócio é demonstrada pelo facto de uma organização caritativa que actua na Etiópia ter ganho, em 2008, seis milhões de dólares vendendo supostos órfãos a 15 mil dólares por unidade.

(in Jugular by Rui Herbon)

Ainda assim, sou muito inocente Senhores! Afinal Amin Maalouf não é futurista. É realista.

É que não é qualquer nabo que sabe fazer um filme. Mafia, Camorra, Martin Scorcese.

O filme Gomorra não é igualzinho, igualzinho ao livro, nem é isso que se espera. Até porque se fosse seria tremendamente complicado de seguir ou entender.
No entanto, as partes que foram subtraídas aquando da realização do filme não alteram a qualidade do livro brilhante de Roberto Saviano. E a montagem que foi realizada melhora ainda mais a percepção da Camorra como o verdadeiro cancro de Itália.
Isto sim é um filme bem adaptado. O Roberto Saviano é que é muito mais giro na vida real que no filme…mas não se pode ter tudo, não é?

Não é que eu seja muito fã de carequinhas, muito pelo contrário, mas um sorriso bonito e uns olhos verdes serão SEMPRE um sorriso bonito e uns magníficos olhos verdes.

Como dar cabo dum bom livro e conseguir um filme de m*

Eu gosto de ler. Eu gosto mesmo muito de ler. Não sou fã do Dan Brown, li o Código da Vinci mas fiquei-me por aí durante largos tempos porque acho que há quem escreva o mesmo estilo que ele, mas com o dobro da qualidade. Aqui há uns tempos vi o Anjos e Demónios em edição de bolso no aeroporto. Estava a morrer de tédio, o avião atrasado, e decidi que mal não devia fazer.
Tenho de confessar que gostei muito do livro. Mesmo muito. É muito melhor que o Código Da Vinci, muito mais elaborado, mais bem escrito, o enredo prende e não é de todo previsível.
Os Senhores de Holywood decidiram fazer uns cobres. Toca de passar o livro pra tela. Acho muito bem. O que acho mesmo mal é que tenham cortado mais de metade do livro, que dos melhores diálogos só se tenha salvado UM, que não haja praticamente ligação ao Centro de Ciência que é o “outro lado da moeda”, que tenham salvado uns dos Prefiriti e alterado completamente o final e deixado raspas, sim, RASPAS ao Edward Norton.
Resultado final: um filme muito mau. Fiquei revoltada, não há direito.

Comprem o livro!

Gamorra. Nápoles – nunca mais lá ponho os pés. Disse isto antes de ler o livro.

Não foi à toa que me dei ao trabalho de fazer um post com duzentas mil fotos sobre as minhas férias na Costa Amalfitana.
E nenhuma delas foi colocada casualmente.
Repararam nos iates de luxo? Eram aos milhares. Estes são só alguns.
Repararam nas casas em Capri? E nas casas de Procida? Deram pelo contraste?
Ainda faltam as de Nápoles.
Nápoles é uma cidade riquíssima em história, teve o mesmo impacto em mim que Istambul pois transmite imponência, respeito pela relíquia cultural que é, que foi.
Tal como Istambul, é cheia de colorido e suja.
Mas Nápoles é mais que suja, é muito suja, extremamente suja, imunda. E tem o maior número de indigentes por metro quadrado que já vi. Chegamos a andar em grupos de 8, e nem assim me senti segura. Eu que não sou nada de paranóias (quem me conheça que ateste, por favor), tive sempre a impressão que estava a ser observada, seguida. Não só pra me roubarem a máquina, como pra me violarem, cuspirem, insultarem, não sei. As pessoas andavam todas de carro, nas ruas só andavam maltrapilhos. O comércio estava metade aberto, metade fechado. Fechado à séria, com portões de correr em algo mais forte que zinco. Blindado. Ninguém andava a pé, só de motorino/vespa ou de carro. Sempre. Fora os turistas, os idiotas e provincianos dos turistas. Carteiristas é mato, mas isso eu já sabia. Com esses podia eu bem, afinal de contas, vivi na Graça. A um idiota que ia connosco, depois de o termos avisado umas 3 vezes, limparam-lhe 500 euros do bolso das calças. Mas quem? Quem é a besta que anda com 500 euros em dinheiro no bolso??? Pra quê?!
Saiu-lhe a lotaria ao carteirista.
Ninguém me tocou, mas estive sempre com medo.

A louca (na verdadeira acepção da palavra) da espanhola que me fez companhia no primeiro dia achou que era seguríssimo vir a pé da estação de comboios até ao hotel, afinal eram só 750 metros. Só são dos piores de Nápoles.
A estúpida que vos escreve achou que o Hotelshuttel do aeroporto me deixaria mesmo à porta do hotel (como em Lisboa)e pela primeira vez não apanhou táxi.O shuttel deixou-me a uns 200 metros da porta, no meio duma praça. Em 200 metros fiquei com a nítida sensação de que o que me estava a valer era a experiência ganha na nossa Lisboa. Estava no meio do “Rossio, em direcção à Almirante Reis”.

De Nápoles fui pras ilhas, e voltei nos últimos dois dias. Estavam 39 graus, não se podia andar em lado nenhum. Enfiei-me no único sítio onde me sentia segura. Os autocarros de Hop-in Hop-off. Não tinham ar condicionado e os lugares cobertos eram ainda mais abafados que os do topo. Fiz as 3 linhas que havia, a vermelha, a azul e a verde, tudo sentada na parte de cima, com um chapéu enfiado pelas orelhas abaixo e a pensar que ia morrer de calor, mas queria ver Nápoles. Nunca mais lá ia voltar. Não fiz hop-off uma única vez.

Eu tenho grandes amigos Italianos que conheci em erasmus. Enquanto lia o Gomorra lembrei-me de várias situações, episódios, coisas que se passaram comigo. E lembrei-me continuamente de Nápoles, é claro.

– Lembrei-me que sempre nunca gostei da pinta do italiano de Nápoles que fez erasmus comigo. Fumava na altura, 10 charros de haxixe por dia. Como quem fuma tabaco. E não tenho ideia de ele andar pedrado o dia todo. Era mal educado, vestia bem, mas era diferente. Ignorava toda a gente, e era extremamente interesseiro. Não me lembro do nome dele. Dava-se bem com um pintas do Porto de quem eu também não era grande fã, mas que era bom moço.

– Lembrei-me que diziam que o Pier Luigi que era filho de mafiosos, ou estava ligado à Máfia. Lembro de ser o único sobre quem se dizia isto e a quem os próprios italianos diziam isto. Falar em Máfia era suficiente pra se sentirem insultados. Era palavra QUASE tabu. E eles raramente levantavam o tema. Mas com o Pier Luigi era diferente. Era uma jóia de rapaz, eu achava-o muito bonito (tinha uns olhos verdes(ou eram azuis?) brutais), mais velho um pouco que os demais, estava a estudar Medicina mas gostava de borga. E ele não se sentia insultado, mas não gostava e sorria de uma forma…diferente, quando lhe diziam estas coisas. (Johnny, be my guest pra meter a tua colherada, a minha memória já não é o que era).

– Lembrei-me dos discursos do Stefano, do Roberto e do Marco sobre Itália e de eu não entender puto do porquê deles estarem tão zangados na altura. Afinal, eramos uns putos!

– Lembrei-me que quando estive em Londres com o Giovanni (que é de Puglia, Siciliano), entramos num snack-bar pra comer uma fatia de pizza e um sumo de laranja (que há uns 8 anos atrás me custou 1600 paus!). Estavam lá uns italianos, dois rapazes e duas raparigas, aí com uns 18 anos cada um. Um dos rapazes era muito bonito. Começaram a falar connosco, e quando perguntam de donde somos (o Gigo e eu estavamos a falar espanhol), o Giovanni diz (em inglês!) que é espanhol e eu portuguesa. Os meus olhos abriram-se até às bordas. Como é que o gajo ia acreditar em tal coisa? E porquê a mentira?
Porque são de Nápoles, e não te preocupes que eles nunca vão perceber que eu sou italiano.
Achei aquilo tudo ridículo, principalmente o Gigo achar que não parecia italiano, mas o certo é que os gajos caíram que nem patos. No fim da refeição deles pediram a conta, e depois de pagar receberam o troco. Era um pratinho de alumínio. Eles retiraram o dinheiro, despediram-se de nós com um Ciao, e o que era bonito, cuspiu uma escarreta muito verde pra dentro do pratinho e diz em alto e bom som: The tip!
Eu ia vomitando. O Giovanni encolheu-se mais um bocado e disse-me: percebes agora?

– Lembrei-me dum tipo que conheci cá e que me disse que só vai a Itália porque tem de visitar os Pais, porque senão nunca mais lá punha os pés. E de eu lhe ter dito: jamais renegues de onde vens. E o tipo ficou todo furioso comigo.

– Lembrei-me das palavras dum ex- italiano com quem andei, que era de Milão. Ele diz que o Sul é um terceiro mundo. Não é Itália. Ou melhor, é, mais que o Norte até, mas que parou no tempo, que tem 30 anos de atraso de desenvolvimento. E que sente vergonha do sul. E de eu ter achado isto uma palermice e um snobismo exagerado.

– Lembrei-me dos italianos que nos receberam agora nos portos quando amarravamos e dum que me disse: Io sonno il cappo.

“Eu sou o Chefe. Ele só faz o que eu mando. E eu não o mandei dizer que não havia luz.”

Isto depois de termos estado 4 horas sem luz uma vez amarrados em Porto. Ele disse que nós nunca tínhamos estado sem luz porque ele não tinha dado por ela. Ele não estava lá, mas se tivesse falhado a luz, teria dado por ela.
Senti-me num filme. Depois da frase então, foi pagar, agarrar no braço da Carmem (e nas orelhas também, porque a tonha queria ter ficado lá a discutir), e pirarmo-nos bem depressinha. Foi na ilha do bar chillout que está nas fotos e foi antes do belo do gin tónico.

– Lembrei-me das duas chinesas que vi nesse mesmo porto de Izquia que se prontificaram pra me dar uma massagem por 5 euros. Quando lhe dei 10 e disse: guarde o troco, a mulher forçou-me literalmente a deitar-me e deu-me mais 15 minutos de pancada nas pernas, pelos outros 5 euros. Foi uma cena muito estranha, muito marada, nunca tal me tinha acontecido num Porto, e esta era a sétima vez que eu velejava.

Lembrei-me de muito mais, senti muito mais, revivi muitos sentimentos, um misto de revolta, com nojo, com um conformismo final e um encolher de ombros because they actually are anyware, até na Holanda. Com uma raiva pela continuidade que os chineses dão ao que os cabrões da Camorra lhes ensinam a fazer. Raiva da ganância, da ambição, da competição, da loucura, do desprezo pela vida humana, e pena, muita pena, do desespero de todos os que nascem naquela zona e fazem parte do Sistema.

Agora ficam as fotos de Nápoles, onde eu nunca mais vou por os pés.







(Esta casa não parece mesmo a casa dos Bicos no campo das Cebolas em Lisboa?!)

































Mas comi mesmo muito bem, só de ver a foto daquela espécie de bagel gigante de pão de centeio, com azeite, mozzarella de buffala e presunto…



Bonita Nápoles. Podre Nápoles. O pôr-do-sol é magnífico. Nunca mais aí volto. Mas gostei.


Jesusalém de Mia Couto


Há muitos anos que ouvia falar de Mia Couto mas nunca tinha lido nenhum livro deste Senhor. O modo como escreve envolve-nos como uma manta num sofá num dia de inverno. Sentimo-nos deliciados, confortáveis, sonhadores, transporta-nos. Nunca me tinha sentido assim a ler um livro, transportada para outras “paragens” sim, mas a sensação de estar a amar as frases e as palavras em si como se tivesse sido alcançada por um feitiço, nunca.
Por primeira vez marquei frases num romance, e vou partilha-las com vocês. Quem achar que é um spoiler pode deixar de ler daqui p’ra frente, sim? Obrigadinha.

“-Recordo um sossego que parece, sei lá, parece água.(…)

-Vou dizer uma coisa, nunca mais vou repetir: vocês não podem lembrar nem sonhar nada, meus filhos.
– Mas eu sonho, pai. E Nuntzi se lembra de tanta coisa.
– É tudo mentira. O que vocês sonham fui eu que criei nas vossas cabeças. Entendem?
– Entendo, pai.
– E os que vocês lembram sou eu que acendo nas vossas cabeças.(…)

– Esperas. É isso que a estrada traz. E são as esperas que fazem envelhecer. (…)

– Saudade é esperar que a farinha se refaça em grão.(…)

E entrou. O Tio Aproximado ficou pontapeando as pedras do átrio. A raiva é apenas um modo diverso de chorar. Conservei-me distante, fingindo que arrumava as ferramentas. Ninguém se deve aproximar de um homem que faz de conta que não chora.(…)

Quem quer a eternidade olha o céu, quem quer o momento olha a nuvem.(…)

– As mulheres são como as guerras, fazem os homens ficarem animais.(…)

E penso: a mulher não transporta água; ela traz os rios todos dentro.(…)

O silêncio é uma travessia. Há que ter bagagem para ousar essa viagem. Silvestre, naquele momento, estava vazio. E eu repleto de mágoa e suspeita. Como podia burilar um silêncio, com tanto zumbido na minha cabeça?(…)

Eis a lição que aprendi em Jerusalém:a vida não foi feita pra ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida.(…)

O ensinamento era outro: as palavras podem ser o arco que liga a Morte e a Vida. É por isso que te escrevo. Não há morte, nesta carta. Mas há uma despedida que é um pequeno modo de morrer.(…)”