Já fui, hoje não me considero uma pessoa romântica.
Já não vou a um hotel e penso: isto seria giro mas era a dois!
Já não entro num restaurante e penso: isto seria giro mas era a dois!
Já não viajo e penso: isto seria giro mas era a dois!
Já não ponho uma mesa bonita e penso: isto seria giro mas era a dois!
Já não me enrosco no sofá a ver um filme e penso: isto seria giro mas era a dois!
Já não acordo sozinha e penso: isto seria giro mas era a dois!
Continuo a gostar de ver aqueles filmes de pastelada romântica, mas será que isso faz de mim romântica?
Ou será que é porque há muito, mesmo muito tempo que não me apaixono a sério?
Os meus ex-boyfriends e os meus ex-flings perseguem-me com ideias de ir aqui e ali e mando-os pastar continuamente. Afinal, se são exs é por alguma coisa. Mas eles não entendem. E eu também não tenho vontade de fazer seja o que for só porque seria romântico ser a dois. E continuam a ser exs.
Nunca fui de coraçõezinhos e ursinhos de peluche ou baby talk. Sempre fui meiga, mas sempre detestei meladices. Sou capaz de ser um doce, mas sem “filmes”, pragmática.
Nunca vivi com um homem, talvez por isso, ao estar habituada a viver sozinha, não sinta falta de acordar a dois, jantar a dois, fazer programas a dois.
Eu durmo, janto, viajo e enrosco-me no sofá sozinha, e gosto. Gosto mesmo. A única coisa que me faz falta é a minha cadela. Com ela gosto de acordar de manhã, gosto de viajar, gosto de ver televisão e filmes e enroscar-me no sofá.
Quisás porque é pequenina, e não ocupa espaço, quisás porque não fala e como tal não me aborrece nos dias em que estou chateada ou irritada. A resposta dela a qualquer coisa que eu faça é sempre uma lambidela no nariz.
Sinto falta de um homem quando tenho que carregar malas, mudar de casa, ir ao supermercado (sempre ajudam a carregar os sacos) ou quando tenho problemas com o carro. E claro, de dar “beijinhos profundos”, como diz uma amiga, que eu também sou humana, não é!
Mas há os amigos que me preenchem e com quem viajo e passeio. E os exs que servem pro que servem. Todos me dão o meu espaço.
Sinto-me bem assim.
Talvez por isso o S. Valentim não me chateie e já não vá a jantares de solteiros, ou pragueje contra a publicidade cheia de manhas pra vender mais um par de boxers ou lugares em hotéis e restaurantes.
Pensando bem, acho que só me sinto realmente bem assim desde que vivo fora de Portugal.
Corrijam-me se estiver errada, mas no nosso rectângulo parece que há os casais e os solteiros, não necessariamente uma mistura.
Quando somos convidados pra jantar perguntam sempre: trazes alguém?
Quando se faz uma passagem d’ano, é composta por não sei quantos casais que se junta pra a fazerem em conjunto. Se fores solteiro até podes ir com a malta, mas na altura da distribuição dos quartos é bom que estejas já muito bêbado e te habitues à ideia que aquele sofá a sorrir-te na sala vai ser o teu melhor amigo.
Aqui há uns tempos falava com uma grande amiga que me veio visitar e ela concordava. A vida social dela parecia que só existia quando estava em casal. Por isso é que não se recorda muito bem de quando é que esteve solteira mais de 2 meses.
Pensem lá bem, os que estão em casal, quantas amigas solteiras é que convidaram lá pra casa desde que estão casada(o)s? E falo das amigas que conheceram depois de estarem casadas ou juntas, não é das amigas de infância ou de liceu ou faculdade. Amigas solteiríssimas da silva, boas amigas, boas pessoas, mas que…não têm namorado (ohhhhhh) e como tal…pois é, não dá lá muito jeito…se pelo menos ela tivesse namorado! E assim que têm um, é um rodopio de jantarinhos e eventos, porque agora já podem ir a quatro.
Fora do rectângulo, sejam portugueses ou de outra nacionalidade, nunca mais tive questões desse género. Será isto fruto de educação, religião, ou que realmente acho que é: sociedade?
Em Janeiro, quando estava sentadinha no cabeleireiro da minha Mãe, “mandei-me ao ar” com uma senhora que é, pronto, amiga vamos, da família. Dei-lhe os Parabéns pelo segundo bebé da filha com quem cresci, e ela mandou-me uma palmadinha nas costas, fez um sorriso entre o triste e o “que peninha” e disse: Estás a ficar p’ra trás, tens de te despachar. Um dia destes já não podes.
Só me faltou bater na mulher. Nunca gostei dela mesmo. Era a minha oportunidade! A minha Mãe não me deixou. Que peninha.
Ao meu lado estava uma filha duma amiga da minha Mãe. A Catarina é da minha idade, é médica, solteira da silva como eu, e vive sozinha sem cães ou gatos. Muito calmamente disse-me: tens que entender que na altura delas (as nossas Mães e tal senhora, pois tá claro) o objectivo final da mulher era casar e ter filhos. Hoje em dia já não é assim, e elas não conseguem compreender.
Eu não sei se é sociedade, se é cultural, se é assim em todos os países e eu é que acho que deveria ser diferente, o que eu sei é que me sinto muito bem assim. E por isso mesmo acho óptimo que se celebre o dia de S. Valentim, e que quem queira se empenhe em tornar esse dia especial. E acho muito bem que as pessoas andem apaixonadas e a ver corações e estrelinhas por todos os lados. Fico contente por elas, a sério.
Façam-me só um favorzinho: não me contem os vossos planos. Really. Não pensem que não vos quero ouvir porque tenho dor de cotovelo ou por amargura. Eu gosto mesmo muito de ser solteira, por isso, pelo amor de Deus, não me tentem arranjar amiguinhos ou caldinhos pra ver a “solteirice me passa”.
Eu só não sou romântica.
Cenas que me ultrapassam
Quanto mais mazinhas somos p’ra um homem (neste caso, projecto de homem), mais eles nos perseguem. Se eu não sou especialmente simpática com alguém, não é porque me sinta atraída, é porque realmente não gostei da pessoa. Porque é que as pessoas insistem em achar que quem as maltrata é porque gosta delas?!
Gosto de Pessoa
Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um ‘não’.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo…
(Fernando Pessoa)
Saber dizer que não
Os holandeses dão-nos um NÃO redondo sem qualquer desculpa.
No Natal fui oferecer coscorões no meu andar, e alguns deles disseram: não.
Eu, como boa tuga, perguntei: mas tá de dieta?
E veio outro: não.
E lá tive eu que virar as costas a magicar aqui na minha cabecinha: este gajo é mesmo bruto ou mal-educado! Ao mesmo tempo que dizia: quem me dera saber fazer o mesmo.
Uma amiga portuguesa que viveu cá muitos anos e namorou anos com um holandês, explicou-me que o NÃO holandês não é rude. Apenas não tem explicações a seguir que é pra pessoa não poder pegar na desculpa e voltar a perguntar.
Aí eu pensei: filhos da mãe! Muito bem pensado!
Bolo?
Não quero, obrigado, tou de dieta.
Mas é só hoje que salta a dieta, vá lá, faça-me lá esse gosto!
Não posso comer chantily.
Põe pro lado, come só o bolinho!
Queres vir comigo à Baixa?
Não posso, obrigado, combinei com a Rita.
Podemos passar lá e apanhamos a Rita!
Mas eu quero estar sozinho com ela.
Eh pa, tão sempre juntos, vá lá, faz-me lá companhia! Não sejas assim!
E posso continuar on and on and on and on and on de conversas que temos, nas quais perdemos tempo precioso, só pra acabar a dizer que SIM pro(a) amigo (a) não ficar chateado connosco, o colega não achar que estamos a ser brutos ou mal educados, a Mãe do António Maria não pensar mal de nós, and so on and so on and so on and so on.
O mais giro é que dispendemos tempo e esforço duas vezes: a conseguir dizer que não que acaba em sim e depois a fazer algo que não queriamos efectivamente fazer, desviando-nos dos nossos planos originais.
Como sempre fui muito mazinha a dizer que não, depois desta lição dos colegas holandeses, este ano avisei a minha Chefe que o meu maior defeito é não saber dizer que não. Em Portugal seria comum, ela aqui tomou-me como uma ave rara nesse sentido, acha imensa graça, mas entende e diz que ok, eu tenho que melhorar sozinha, mas que, caso necessário me apoiará. É uma forma de ter alguém, que não eu, a dar o dito NÃO. (ponto).
Agora tenho de conseguir fazer o mesmo na minha vida pessoal. Essa é que vão ser elas… mas eu chego lá!! Ai chego pois!
Agora passem ao outro e não ao mesmo.
(obrigada à Walker Woman pela imagem)
Grey Mondays
É impossível não relacionar os meus posts menos positivos e mais “agressivos” com as segunda-feiras e o tempo na Holanda: cinzento.
Não é chuva ou frio, é CINZENTO.
Não se vê o céu, as luzes estão constantemente acesas porque não há luz que chegue.
E eu fico apagada.
Grey Mondays, worse then Monday’s blues.
Não suporto ainda: (mais um de bolinha vermelha no canto)
– Tolos no meio da ponte. Pra que lado? Pra que lado? Again, tudo bem, com quanto que a indecisão deles não me impeça de tomar medidas e acções. Se me estiver a paralisar nem que seja um dedo mindinho: xau aí!
– Gente desconfiada. É que não tolero. Sou mais que suficiente transparente pra que alguém SEQUER TENTE desconfiar de mim. Se não confiam neles próprios e têm problemas de insegurança, é problema deles. Só não desconfiem de mim porque é meio caminho pra irem c’o caralho.
Também não suporto que desconfiem sempre de outras pessoas, entenda-se por isto, aquelas que pessoas que estão sempre com medo de ser enganadas,e que, por exemplo, conferem as contas 50 vezes pra ver se só lá está o que pediram ou se as tentaram aldrabar, ou que acham que se há uma alteração nos planos, é porque há ALGUM problema! WTF!! Já vos ocorreu que as coisas podem sempre ser MELHOR que o planeado?!
Então se vejo alguém desconfiar de alguém que eu conheço e de quem gosto… viro uma fera. Pra mim, desconfiar de alguém em quem eu confio, é o mesmo que desconfiar de mim, e como disse, é meio caminho pra…
– Aquele pessoal que tem sempre a palavra CUIDADO na boca, fico doida. Lembra-me a minha Mãe que nasceu no medo que SEMPRE vai acontecer alguma coisa. Os medos paralisam-nos constantemente. Só vivemos uma vez. Façam-se à vida, caramba!
Prevent yourself from AIDS
I’m SOOOO tired!

Foto daqui.
By griffy2468
Tenho tanta vontade de ir dormir.
E ainda tenho de esperar até às 18 pra fazer a avaliação anual com a minha Chefe, that I REALLY hope it to be MORE THAN GOOD.
EU QUERO UMA CAMA!!!
Surrealistas
Retirado daqui. By blu_bastian
É como posso descrever as formas que eu invento de me manter próxima das pessoas de quem mais gosto.
Também é certo que tenho os amigos mais marados do mundo (Candeia, como não!). E gosto deles porque são assim.
Hoje uma grande e querida amiga mandou um S.O.S. a um grupo de amigos porque estava muito em baixo depois duma relação séria que não deu certo.
Apesar de eu estar no cú do mundo, incluiu-me no email, como sempre, mesmo quando combina (muito esporadicamente) jantares em Lisboa. Fico super contente quando ela faz isto, e ela sabe.
Desta vez achei que era demasiado importante pra ficar de fora e dar a resposta do costume: tou na Holanda…
Desde as 21:00 horas portuguesas que o meu skype está ligado ao telefone dum dos meus grandes amigos e que estou a “jantar” ao telemóvel com 5 pessoas (mais duas que estão a caminho) que assistiram ao S.O.S..
O telemóvel está em alta-voz em cima da mesa, e eu estou a ouvir e a comentar e participar oportunamente na conversa.
Abençoadas tecnologias, já mandei umas gargalhadas valentes, já ouvi conselhos e histórias dos meus amigos que estão longe. E tenho TANTAS saudades deles.
E gosto tanto da naturalidade com que encararam esta minha chamada.
Já encomendei bruschetta pra entrada, pizza com salame picante pra jantar e a empregada acabou de me ouvir pedir pannacota.
E vão falando à vez pro telemóvel, e eu vou falando com todos, e com a minha Menina do S.O.S., e vou ouvindo, e vou comentando e vou-me sentindo: PERTO.
Sabe TÃO BEM!!! Hoje fui uma pessoa muito feliz. Até amanhã 🙂
Gamorra. Nápoles – nunca mais lá ponho os pés. Disse isto antes de ler o livro.
Não foi à toa que me dei ao trabalho de fazer um post com duzentas mil fotos sobre as minhas férias na Costa Amalfitana.
E nenhuma delas foi colocada casualmente.
Repararam nos iates de luxo? Eram aos milhares. Estes são só alguns.
Repararam nas casas em Capri? E nas casas de Procida? Deram pelo contraste?
Ainda faltam as de Nápoles.
Nápoles é uma cidade riquíssima em história, teve o mesmo impacto em mim que Istambul pois transmite imponência, respeito pela relíquia cultural que é, que foi.
Tal como Istambul, é cheia de colorido e suja.
Mas Nápoles é mais que suja, é muito suja, extremamente suja, imunda. E tem o maior número de indigentes por metro quadrado que já vi. Chegamos a andar em grupos de 8, e nem assim me senti segura. Eu que não sou nada de paranóias (quem me conheça que ateste, por favor), tive sempre a impressão que estava a ser observada, seguida. Não só pra me roubarem a máquina, como pra me violarem, cuspirem, insultarem, não sei. As pessoas andavam todas de carro, nas ruas só andavam maltrapilhos. O comércio estava metade aberto, metade fechado. Fechado à séria, com portões de correr em algo mais forte que zinco. Blindado. Ninguém andava a pé, só de motorino/vespa ou de carro. Sempre. Fora os turistas, os idiotas e provincianos dos turistas. Carteiristas é mato, mas isso eu já sabia. Com esses podia eu bem, afinal de contas, vivi na Graça. A um idiota que ia connosco, depois de o termos avisado umas 3 vezes, limparam-lhe 500 euros do bolso das calças. Mas quem? Quem é a besta que anda com 500 euros em dinheiro no bolso??? Pra quê?!
Saiu-lhe a lotaria ao carteirista.
Ninguém me tocou, mas estive sempre com medo.
A louca (na verdadeira acepção da palavra) da espanhola que me fez companhia no primeiro dia achou que era seguríssimo vir a pé da estação de comboios até ao hotel, afinal eram só 750 metros. Só são dos piores de Nápoles.
A estúpida que vos escreve achou que o Hotelshuttel do aeroporto me deixaria mesmo à porta do hotel (como em Lisboa)e pela primeira vez não apanhou táxi.O shuttel deixou-me a uns 200 metros da porta, no meio duma praça. Em 200 metros fiquei com a nítida sensação de que o que me estava a valer era a experiência ganha na nossa Lisboa. Estava no meio do “Rossio, em direcção à Almirante Reis”.
De Nápoles fui pras ilhas, e voltei nos últimos dois dias. Estavam 39 graus, não se podia andar em lado nenhum. Enfiei-me no único sítio onde me sentia segura. Os autocarros de Hop-in Hop-off. Não tinham ar condicionado e os lugares cobertos eram ainda mais abafados que os do topo. Fiz as 3 linhas que havia, a vermelha, a azul e a verde, tudo sentada na parte de cima, com um chapéu enfiado pelas orelhas abaixo e a pensar que ia morrer de calor, mas queria ver Nápoles. Nunca mais lá ia voltar. Não fiz hop-off uma única vez.
Eu tenho grandes amigos Italianos que conheci em erasmus. Enquanto lia o Gomorra lembrei-me de várias situações, episódios, coisas que se passaram comigo. E lembrei-me continuamente de Nápoles, é claro.
– Lembrei-me que sempre nunca gostei da pinta do italiano de Nápoles que fez erasmus comigo. Fumava na altura, 10 charros de haxixe por dia. Como quem fuma tabaco. E não tenho ideia de ele andar pedrado o dia todo. Era mal educado, vestia bem, mas era diferente. Ignorava toda a gente, e era extremamente interesseiro. Não me lembro do nome dele. Dava-se bem com um pintas do Porto de quem eu também não era grande fã, mas que era bom moço.
– Lembrei-me que diziam que o Pier Luigi que era filho de mafiosos, ou estava ligado à Máfia. Lembro de ser o único sobre quem se dizia isto e a quem os próprios italianos diziam isto. Falar em Máfia era suficiente pra se sentirem insultados. Era palavra QUASE tabu. E eles raramente levantavam o tema. Mas com o Pier Luigi era diferente. Era uma jóia de rapaz, eu achava-o muito bonito (tinha uns olhos verdes(ou eram azuis?) brutais), mais velho um pouco que os demais, estava a estudar Medicina mas gostava de borga. E ele não se sentia insultado, mas não gostava e sorria de uma forma…diferente, quando lhe diziam estas coisas. (Johnny, be my guest pra meter a tua colherada, a minha memória já não é o que era).
– Lembrei-me dos discursos do Stefano, do Roberto e do Marco sobre Itália e de eu não entender puto do porquê deles estarem tão zangados na altura. Afinal, eramos uns putos!
– Lembrei-me que quando estive em Londres com o Giovanni (que é de Puglia, Siciliano), entramos num snack-bar pra comer uma fatia de pizza e um sumo de laranja (que há uns 8 anos atrás me custou 1600 paus!). Estavam lá uns italianos, dois rapazes e duas raparigas, aí com uns 18 anos cada um. Um dos rapazes era muito bonito. Começaram a falar connosco, e quando perguntam de donde somos (o Gigo e eu estavamos a falar espanhol), o Giovanni diz (em inglês!) que é espanhol e eu portuguesa. Os meus olhos abriram-se até às bordas. Como é que o gajo ia acreditar em tal coisa? E porquê a mentira?
Porque são de Nápoles, e não te preocupes que eles nunca vão perceber que eu sou italiano.
Achei aquilo tudo ridículo, principalmente o Gigo achar que não parecia italiano, mas o certo é que os gajos caíram que nem patos. No fim da refeição deles pediram a conta, e depois de pagar receberam o troco. Era um pratinho de alumínio. Eles retiraram o dinheiro, despediram-se de nós com um Ciao, e o que era bonito, cuspiu uma escarreta muito verde pra dentro do pratinho e diz em alto e bom som: The tip!
Eu ia vomitando. O Giovanni encolheu-se mais um bocado e disse-me: percebes agora?
– Lembrei-me dum tipo que conheci cá e que me disse que só vai a Itália porque tem de visitar os Pais, porque senão nunca mais lá punha os pés. E de eu lhe ter dito: jamais renegues de onde vens. E o tipo ficou todo furioso comigo.
– Lembrei-me das palavras dum ex- italiano com quem andei, que era de Milão. Ele diz que o Sul é um terceiro mundo. Não é Itália. Ou melhor, é, mais que o Norte até, mas que parou no tempo, que tem 30 anos de atraso de desenvolvimento. E que sente vergonha do sul. E de eu ter achado isto uma palermice e um snobismo exagerado.
– Lembrei-me dos italianos que nos receberam agora nos portos quando amarravamos e dum que me disse: Io sonno il cappo.
“Eu sou o Chefe. Ele só faz o que eu mando. E eu não o mandei dizer que não havia luz.”
Isto depois de termos estado 4 horas sem luz uma vez amarrados em Porto. Ele disse que nós nunca tínhamos estado sem luz porque ele não tinha dado por ela. Ele não estava lá, mas se tivesse falhado a luz, teria dado por ela.
Senti-me num filme. Depois da frase então, foi pagar, agarrar no braço da Carmem (e nas orelhas também, porque a tonha queria ter ficado lá a discutir), e pirarmo-nos bem depressinha. Foi na ilha do bar chillout que está nas fotos e foi antes do belo do gin tónico.
– Lembrei-me das duas chinesas que vi nesse mesmo porto de Izquia que se prontificaram pra me dar uma massagem por 5 euros. Quando lhe dei 10 e disse: guarde o troco, a mulher forçou-me literalmente a deitar-me e deu-me mais 15 minutos de pancada nas pernas, pelos outros 5 euros. Foi uma cena muito estranha, muito marada, nunca tal me tinha acontecido num Porto, e esta era a sétima vez que eu velejava.
Lembrei-me de muito mais, senti muito mais, revivi muitos sentimentos, um misto de revolta, com nojo, com um conformismo final e um encolher de ombros because they actually are anyware, até na Holanda. Com uma raiva pela continuidade que os chineses dão ao que os cabrões da Camorra lhes ensinam a fazer. Raiva da ganância, da ambição, da competição, da loucura, do desprezo pela vida humana, e pena, muita pena, do desespero de todos os que nascem naquela zona e fazem parte do Sistema.
Agora ficam as fotos de Nápoles, onde eu nunca mais vou por os pés.






(Esta casa não parece mesmo a casa dos Bicos no campo das Cebolas em Lisboa?!)

































Mas comi mesmo muito bem, só de ver a foto daquela espécie de bagel gigante de pão de centeio, com azeite, mozzarella de buffala e presunto…
Bonita Nápoles. Podre Nápoles. O pôr-do-sol é magnífico. Nunca mais aí volto. Mas gostei.










